
É tempo de celebração no sítio histórico e ecológico Gamboa do Jaguaribe. Memórias ancestrais que não cabem no calendário.
São dez anos abraçando a educação ambiental e estudos das culturas indígenas, passo-a-passo coletivo que avança de mão dada em movimento com as raízes que insistem em germinar histórias e culturas do lugar ancestral.
Localizado na Rua Portinho, nº 90, na Redinha, Zona Norte de Natal, o território pulsa como um ato político que puxa, fio a fio, a teia da resistência do nosso povo. A comunidade que respira afeto e pertencimento ecoou no dia dos povos originários a cultura presente no cotidiano da Gamboa. A área é aberta para visitação e está incluída na oitava Zona de Proteção Ambiental de Natal.
O domingo de celebração foi puxado, desses que exigem do corpo e da mente vivenciar o verdadeiro sentido de cada gesto. A começar pelo mutirão de limpeza no mangue às margens do Rio Potengi, de onde foi retirado quase uma tonelada de lixo, que não se explica apenas em número, mas no cuidado com a terra mãe, uma prova de resistência prática. É o território sendo defendido com as próprias mãos.
Regada a almoço coletivo e exposição de fotografia, a programação contou ainda com a 31ª edição do Cineoka que exibiu o documentário Maria Fogo. Em seguida, a força de Maria Carolina de Jesus, apresentada por Janaina Silva, ecoou como denúncia e poesia.
O corpo em roda da capoeira do grupo Raça reafirmou a luta como dança junto aos saberes, afetos e economia solidária da Feirinha de Produtos e Serviços, reunindo artesãos e artistas locais. O Pau-Furado Zabelê do mestre Tio João trouxe os tambores da arte e ancestralidade em movimento.
E quando o sol foi baixando, o espírito se levantou em canto e dança. O Toré fechou o dia como quem sela um compromisso antigo: memória, espiritualidade e luta caminhando juntos.
Agradecimentos se espalham como sementes: a quem chegou cedo, a quem ficou até o fim, a quem ajudou, cantou, limpou, dançou, ouviu e sentiu. A quem reconhece na Gamboa um território sagrado de encontro.
Gamboa do Jaguaribe é território de aprendizado e reconexão em meio às ocas erguidas desde 2016, colada a trilhas, ao lago e mata reflorestada. São mais de 70 espécies de árvores, entre Pau-brasil, gobiraba, mutamba — nomes que carregam histórias e caminham juntas com guaxinins, raposas, cutias e tantas outras presenças que dividem o mesmo chão.
Onde antes havia viveiros de camarão abandonados, hoje respira um lago cercado por mangue vivo — cinco hectares de pura ecologia habitado por peixes e crustáceos que retomam seu lugar, como quem retorna para casa depois de longa ausência.
A palavra de ordem é avançar de mão dada. Porque celebrar também é resistir. E resistir, aqui, é verbo coletivo.
Fotogafia: @taangahara




















