Entre o sopro do mangue e o curso insistente do rio, a vida resiste, e floresce.
No próximo domingo, 19 de abril, o Sítio Histórico e Ecológico Gamboa do Jaguaribe completa uma década de existência como trincheira verde em meio às pressões do concreto e do esquecimento. Não é apenas um aniversário: é um chamado em defesa do meio ambiente e da ancestralidade em meio à educação, cultura popular e ativismo ecológico.
Na Zona de Proteção Ambiental 8, a maior ZPA de Natal/RN, cinco hectares de Mata Atlântica e manguezal seguem de pé como um grito coletivo, um território que não se rende. Às margens do Rio Jaguaribe, a Gamboa pulsa como espaço de reconexão com a terra, com a água, com as raízes que insistem em brotar mesmo sob ameaça.

Desde 2016, quando abriu seus caminhos ao público, o espaço se tornou mais que um destino: virou escola viva, território de partilha e saberes. Ali, crianças, jovens e educadores encontram o que muitas vezes lhes é negado nos livros: a história indígena, afro-brasileira e ambiental contada desde dentro, com os pés no chão e o olhar voltado para a memória que faz refletir presente e futuro.
Um aniversário que começa com as mãos na terra
A celebração não poderia começar de outra forma: com ação. Às 8h30, um mutirão de limpeza toma as margens do Jaguaribe, reunindo uma comunidade disposta a cuidar do que é coletivo. Mais que recolher resíduos, o gesto denuncia o impacto do descarte inadequado de lixo e os riscos da carcinicultura e especulação imobiliária na região. Limpar o mangue é também afirmar: este território tem guardiões e busca o reconhecimento oficial como Reserva Privada do Patrimônio Natural (RPPN) em instância municipal.

Entre trilhas e bioconstruções, as oito ocas erguidas com saberes ancestrais e que representam a arquitetura dos povos originários, convidam a desaprender o olhar colonial rompendo com falsas narrativas sobre os povos originários. É memória e resistência plantada com as próprias mãos.

Cinema que acende a memória, que não se apaga
À tarde, o território se transforma em tela, palco e terreiro da arte. O Cineoka chega à sua 31ª edição com o documentário Maria Fogo, do diretor e produtor cultural Fábio de Oliveira. O público também poderá conferir a exposição Ta’anga Piára, resultado das oficinas de fotografia com dispositivos móveis realizadas com moradores dos bairros vizinhos à Gamboa.

E quando o sol começa a baixar, entram em cena o ritmo e a tradição da roda de capoeira com o grupo Capoeira Raça, além do coco de zambê do Pau-furado Zabelê batendo forte como coração de tambor. Por fim, o Toré unindo toda a comunidade presente.
Celebrar é resistir
Durante todo o dia, a feira de produtos e serviços locais reafirma a economia solidária que nasce do território. Expositores interessados ainda podem entrar em contato com a organização para garantir seu espaço.
A Gamboa do Jaguaribe não celebra apenas 10 anos. Celebra cada árvore que permaneceu, cada nascente que resistiu, cada história que se recusou a ser apagada.
Em tempos de destruição acelerada, estar na Gamboa é um ato político. É dizer, com o corpo inteiro: a vida importa, o território vive, e a luta continua.
Programação:
- 08h30: Mutirão de Limpeza do Mangue
- 11h00: Alimentação coletiva
- 15h00: 31ª edição do Cineoka (Doc. Maria Fogo)
- 16h00: Capoeira Raça (Prof. Coronel)
- 16h40: Pau-furado Zabelê Mestre Tio João
- 17h30: Toré de encerramento
Evento: 10 anos da Gamboa do Jaguaribe
- Data: Domingo, 19 de abril, a partir das 08h30
- Local: Rua Portinho, 90, Redinha – Natal/RN
- Entrada: Gratuita e aberta ao público.
Gamboa do Jaguaribe situa-se na rua Portinho, 90, bairro Redinha, Natal/RN
………
Fotografia: Ta’angahara






