Minhas observações seguem as consultas aos antiguíssimos jornais em leituras de pesquisas. Nos ditos antigos ‘mela-mela’ das ruas só os homens enfrentavam violentas e ousadas alegrias. Mulheres em casa ou de olho nas janelas dando risadas, me contava dona Neném das Rocas. E as agremiações carnavalescas de ruas eram integradas em sua totalidade por homens. As mulheres eram suas costureiras, que além de confeccionarem suas fantasias, cuidavam dos estandartes de seus Clubes de ruas. E assim continuaram nos Cordões, Ranchos, Troças e Blocos.
Com o passar das décadas de 20 e 30, no século XIX, alguns foliões saíam ás ruas vestidos de mulheres e mulheres em traje masculinos. Só as mulheres consideradas da alta sociedade natalense iam aos bailes, fantasiadas luxuosamente, no Teatro Carlos Gomes (Alberto Maranhão) na Ribeira, AERO Club em Tirol e Natal Club na Cidade Alta. Só iam às noites, se fossem acompanhadas dos pais, maridos e irmãos. Sozinhas, nunca! Somente no carnaval natalense de 1891 apareceram nas ruas os primeiros homens vestidos de mulheres – Uma falta de vergonha!
O surgimento de mulheres nas agremiações de ruas causavam comentários dos nossos primeiros cronistas carnavalescos nos jornais impressos – Ezequiel Wanderley (1872-1933) José Mariano Pinto (1874-1938, Lulu Capeta) e Aderbal de França (1895-1974, o Danilo). Estes afirmavam ser o ‘fim do mundo’ e ‘grande escândalo do século’ as mulheres nas festividades das ruas de seus tempos. Em pleno carnaval de 17 de fevereiro de 1900, o referido Lulu Capeta, bradava escandalizado em sua coluna do jornal A República: … A epocha é de loucuras…
Em 9 de fevereiro de 1921, o jornal A República anuncia o primeiro bloco carnavalesco só com mulheres, senhoras e jovens moças, fantasiadas em cima de um caminhão, operárias da fábrica de sabão – ‘Sabiá’ e fiação de tecidos (Reunidas), que animaram os desfiles oficiais da Cidade Alta, no domingo e segunda feira de carnaval. No baile carnavalesco de 1922, no Natal Club, a nossa imprensa destaca um grupo de mulheres fantasiadas com muito luxo e requinte. Fantasias compradas vindas de navios do Rio de Janeiro, sendo o nosso primeiro registro feminino. No carnaval de 29 de fevereiro de 1924, Ezequiel Wanderley, no jornal A Republica, destaca o Club ‘Os Jandaias’, da Cidade Alta, que aceita um grupo de – gentis senhorinhas, na agremiação antes masculina, presidida pelo major Emídio Fagundes. Nesta época, dois Clubes de ruas, constituído só por homens, saiam vestidos em trajes femininos – ‘Maxixeiras’ e ‘Das Moças’, do bairro do Alecrim, (1924/1925).
Em 1928, surge um Club de rua, com o nome ‘Dos Cartolas’, composto de ‘senhorinhas distintas’, sob a liderança das jovens – ‘Guiomar Mattos’ e ‘Grenaura Martins’. E no carnaval de 1929, no baile noturno do AERO Club, um grupo de senhoras da alta sociedade natalense, é fotografado ao lado do então governador Juvenal Lamartine (1874-1956). Registro pioneiro fotográfico destacado na revista ‘A Cigarra’. Em 1938, o nosso primeiro Rei Momo, Odilon Garcia, apareceu nos festejos solteiro, sem a sua Rainha. No tempo da Segunda Guerra Mundial, o nosso irreverente folião Zé Areia, (1900-1972), reinou sem uma rainha. E as rainhas, só chegaram nos carnavais em Natal no final dos anos 50, do século XX.
Entrevistei três mulheres, consideradas ousadas. Dona ‘Vera China’, que organizava turmas de amigas para irem aos bailes noturnos do Aero Club. A cada ano uma temática diferente – Mexicanas, Siberianas, Espanholas. A dona ‘Nadir Garcia’, saía às casas de amigos nas ruas, no bloco de seu marido – ‘Pó de Mico’: – E eu ia fantasiada em trajes, muito disfarçada para ninguém me reconhecer. Meu marido Enock Garcia, me apoiava na aventura, pois o que diriam nos bares de uma mulher casada naquele rebuliço?… E a dona Maria Nazaré – ‘Neném’, dona de casa do bairro das Rocas, grande festeira, ia assistir os desfiles na Ribeira mesmo sem o marido gostar. E saiu em troças e nos primeiros blocos femininos dos anos 30 e 40. Filhos e o marido de olho, e por perto – me contava dando boas gargalhadas, balançado se em sua velha rede. E a pioneira foliã Neném, era mãe do cantor Fernando Towar e do carnavalesco Salviano, da Escola de Samba Malandros do Samba, das Rocas. Duas saudosas amizades.
E por falar nas Escolas de Sambas, estas logo incluíram as mulheres em seus quadros, notadamente as ‘Baianas’ e a ‘Porta Bandeira’, entre outras alas, desde os anos 30, em Natal. Em 1940, foi fotografado no bairro da Ribeira, o famoso Bloco Feminino – ‘Pelles Vermelhas’, com mais de 40 jovens, fantasiadas de Índias, saindo em um caminhão devidamente ornamentado percorrendo as ruas da Ribeira e Cidade Alta, chamando muito a curiosidade da época, costumeiramente a ver só Blocos carnavalescos com homens em seus quadros de foliões. Foto rara, a mim cedida pelo saudoso amigo escritor e memorialista Lenine Pinto (1930-2019).
E o Aníbal Mesquita Barbalho, me cedeu uma belíssima e rara fotografia de um Bloco feminino do final dos anos 40, com dezenas de mulheres, vestidas com vestidos longos e bem comportadas para o estilo da época – ‘Veneza Club’, liderado pelas irmãs – ‘Zuleide’ e ‘Betise Mesquita’. No final dos anos 60, a senhora atriz e cantora ‘Marlene Teixeira’, do ‘meu’ bairro do Alecrim, rasgava seus lençóis e toalhas, para confeccionar as fantasias de dezenas de meninos e meninas, num bloco de alegres ‘Papangus’ que saiam pelas ruas, travessas e vilas do bairro, entre eles e elas, eu era um dos integrantes. E a saudosa dona Marlene fazia carnaval a todo custo ao seu jeito e poucas condições financeiras, como uma grande carnavalesca.
Geralmente os Blocos paravam em bares e até cabarés e as mulheres eram ‘proibidas’ nestes ambientes. Um exemplo foi o ‘meu’ Bloco Magnatas, em 1979, que ficou cerca de 30 minutos parado em frente ao cabaré de Maria Boa, na Cidade Alta, enquanto, tomávamos cervejas ao preço de ouro, para nossos bolsos de então. E nem precisa afirmar pelo que vimos em nossa pesquisa, que a nossa imprensa natalense, foi demasiada ‘preconceituosa’ e ‘machista’ até os anos 60/70, com as foliãs ousadas e destemidas, que só queriam diversão e alegria. Depois é que surgiram vários blocos, constituídos e organizados somente por mulheres, entre eles, os – ‘Brotinhos’ e ‘Andorinhas’. Em 1978/79, eu entrei no antigo bloco de elite do bairro do Alecrim, ‘Magnatas’, composto de cerca de 50 homens. Na maioria dos blocos, não se aceitavam as mulheres. Eu via as namoradas, noivas e esposas, acompanharem os seus brincantes. Eles fantasiados e elas não. Só em 1981, o referido Magnatas aceita a participação feminina em seus quadros.
Demorou muito a ‘exclusão’ feminina nas agremiações de ruas em nossos carnavais. E diga-se, uma festança dita popular e democrática… Agora, passamos a conhecer uma parte da nossa historia natalense – antes esquecida ou não divulgada. Vamos esperar outras curiosidades em meu segundo volume do – ‘Antigos Carnavais da Cidade do Natal’, (1946-2006), na gaveta e sem apoio cultural de parte alguma. E dizem que Natal é terra ingrata para a sua própria história!
E aqui deixo o meu reconhecimento e justiça, as corajosas mulheres de todos os carnavais passados!
Gutenberg Costa – Fevereiro de 2026. Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.




