
O sociólogo, professor e cordelista Nando Poeta falou ao Coletivo Foque direto do 6º Congresso da CSP-Conlutas, ocorrido de 18 a 21 deste mês, em São Paulo. Um bate-papo sobre as lutas da classe trabalhadora no Brasil e no mundo.
Esse já é o 6º congresso, né?
A pergunta abre o tom da conversa — simples, direta — mas carrega o peso de uma trajetória política construída em meio a reorganização do movimento sindical brasileiro.
“É o sexto, sim. E não é qualquer coisa chegar até aqui”, responde Nando, que faz parte da delegação do Rio Grande do Norte no congresso. Sua memória volta ao início dos anos 2000 ao lembrar que a origem da central está ligada a um momento de inflexão. “A CSP-Conlutas surgiu justamente dessa necessidade de se construir uma direção que fosse independente do governo, já que a CUT, em 2004, no debate da reforma da previdência, ficou do lado do governo. E aí vários sindicatos do país se rebelaram contra isso e pautaram a necessidade da construção de uma nova central.”
Ele conta que a partir dessa ruptura, sindicatos, movimentos populares e setores combativos passaram a construir uma alternativa. “Foi um processo de luta primeiro. Depois, de organização. E aí surge a central como expressão dessa necessidade, uma direção que não esteja atrelada ao governo nem ao grande capital.”
Um congresso de análise e enfrentamento
Nando esclarece que o 6º congresso “foi um espaço de muito debate, muita divergência também, e isso é saudável”. A pauta principal girou em torno do cenário internacional e nacional. Guerras, disputas geopolíticas e interesses econômicos entraram no foco dos debates.
“A gente discutiu como os grandes impérios seguem dominando regiões inteiras. Países como o Brasil são transformados em plataformas de produção de produtos primários, que chamam de commodities. Impulsionando, inclusive, para dominar cada vez mais a riqueza dessas nações”, afirma ao apontar, também, o caso recente do debate sobre a privatização do rio Tapajós. “Os povos indígenas tiveram que se rebelar e foi justamente através dessa luta, que a Conlutas acompanhou de perto, que nós conseguimos derrotar a privatização. E assim são as outras batalhas”. Ele lembra a ocupação da Venezuela, denunciando que “o objetivo é dominar a riqueza que tem naquele país. A mesma coisa acontece com o Irã, a riqueza é o que? O petróleo, então eles querem ter o petróleo”.
A crítica se estende a conflitos globais
“Quando se fala em Venezuela ou Irã, por exemplo, não é sobre democracia, é sobre petróleo, sobre controle de riqueza”. Diante dos constantes ataques à soberania desses países, o Congresso destacou importantes ações de solidariedade internacional. “A gente aprofundou esses debates e discutiu como é que essa franja do movimento sindical, que está ao redor da CSP-Conlutas, tem que impulsionar para estar também na linha de frente dessas lutas gerais”.
Nando expôs o exemplo da campanha internacional impulsionada pela Flotilha da Liberdade em defesa do povo de Gaza, com a CSP-Conlutas participando e ajudando nas campanhas humanitárias e na denúncia sistemática do sionismo.
Brasil: críticas à direita e ao governo
A conversa se desloca para o cenário nacional e o tom se intensifica. “O cenário nacional cruzou com a denúncia implacável das instituições da burguesia que convivem com a situação de corrupção, como a gente está vendo o caso agora do TSF (Tribunal Superior Federal) com membros dessa instituição por trás de vários escândalos”.
Segundo o integrante da delegação potiguar, na questão eleitoral há uma necessidade da classe trabalhadora se mobilizar contra a tentativa do retorno da direita. “O debate leva a esse enfrentamento, que não passa só pelo campo petista, porque quem alimentou, inclusive, esses setores da ultradireita a entrar em cena foi justamente a política desastrosa do governo de conciliação de Lula, que fez uma escolha de governar junto com o agronegócio e os banqueiros, ignorando as bandeiras históricas da classe trabalhadora”.
Nando explica que “Lula assumiu dizendo que iria reestatizar, por exemplo, determinadas empresas que foram privatizadas, iria de fato enfrentar o grande capital, e o que a gente percebe é que o grande capital está na sua calmaria, sugando o sangue do povo brasileiro.”
Disputa interna e construção coletiva
“A organização da CSP-Conlutas passa pela necessidade de se estruturar, de avançar e se fortalecer. Então, foram várias teses, muitos debates, muitas discussões, porque não é uma coisa homogênea. Um congresso como esse tem muitos enfrentamentos políticos e está carregado dessas disputas que a gente acha necessário dentro dessa diversidade”, avalia Nando.
Ele reforça que o congresso celebra 20 anos de luta e reafirma independência de classe diante dos desafios. “Que a gente possa seguir com a direção eleita para estruturar a luta nos estados com encontros, congressos, plenárias, atos e muita mobilização. O Rio Grande do Norte foi pioneiro na construção da CSP-Conlutas e segue firme para fortalecer cada vez mais a organização da classe trabalhadora.”
No balanço da organização, o 6º Congresso Nacional da CSP-Conlutas contou com 1.026 delegas e delegados, um número superior ao congresso anterior. Além de 299 participantes como observadoras e observadores e uma delegação internacional com 37 integrantes.






