
1º de Maio.
Dia de rua, de passo firme, de bandeira erguida contra o vento e contra o medo. Dia em que a classe trabalhadora lembra que seus direitos nasceram do confronto, não da benevolência. Desde 1886, quando operários em Chicago tombaram lutando pela redução da jornada de trabalho para 8 horas, seguimos ecoando o mesmo grito: viver não pode ser apenas trabalhar.
E lá estávamos nós outra vez. Nas ruas. Pela redução da jornada, contra a escala 6×1, contra um sistema que insiste em nos moer enquanto poucos acumulam. Um mundo em que o imperialismo avança, saqueia territórios, impõe guerras e ameaça até o nosso chão, nossas riquezas, nossa soberania.
Foi nesse cenário que levei minha carta. Não como papel, mas como denúncia viva. Uma história de perseguição no meu local de trabalho, onde meu salário, indignamente, representa apenas um quarto do que deveria ser para o cargo que ocupo. Uma distorção que grita.
E então, no meio da caminhada, cruzo com um dito deputado federal, muito seguro de si. Um velho conhecido de décadas. Daqueles encontros de juventude, das reuniões no velho prédio da Praça Padre João Maria, antiga sede do PT ainda em seus primeiros passos, em 1981, onde sonhávamos, mesmo em correntes diferentes, com um mundo sem explorados e exploradores.
Mas o tempo, às vezes, não amadurece, apodrece.
Fui falar com serenidade. Ele respondeu com arrogância. Disse que eu atacava o governo, como se denunciar injustiça fosse crime, como se a verdade precisasse de autorização, como se só existisse lugar para quem se ajoelha.
“Faça uma greve de fome, que é bom”, disparou.
Ao mesmo tempo em que fazia essa afirmação, dizia que não era governo. Fiquei sem entender. Fico imaginando como, nesse jogo de poder, pessoas indicam inúmeros nomes para a máquina governamental, alguns chegam a indicar centenas, até mais de mil pessoas, mas afirmam não ter nada a ver com isso.
Ali não era apenas uma fala. Era o retrato cru de quem perdeu a escuta, de quem se acomodou no poder e passou a tratar a dor alheia com deboche. Um desprezo frio, calculado, quase pedagógico. Ensina-se, ali, que o sofrimento do outro não importa.
Lembrei da ocupação da Reitoria. Estávamos juntos. Resistimos. E até nossos adversários, aqueles que hoje chamamos de algozes, como Garibaldi e Geraldo Melo, tiveram mais respeito diante do conflito. Criaram mediações, buscaram saídas. Não zombaram.
Quando mencionei isso, ele, com sua voz impositiva, perguntou se eu o estava comparando a eles. Respondi que não, que apenas destacava que, naquele conflito, a postura deles foi diferente da sua.
Mas há quem, vindo das lutas, aprenda o pior com o poder.
E é duro admitir: a perseguição continua. Não mais sob a farda da ditadura civil-militar, que nos perseguiu e cujos crimes foram recentemente reconhecidos pelo Estado brasileiro, que me pediu perdão. Hoje, a contradição é viver em uma dita democracia, sob um governo que teve origem nos movimentos sociais, mas que reproduz perseguições, fala em nome do povo, mas age com o mesmo desprezo.
Hoje fui informado de que o responsável por corrigir o meu processo não atende aos contatos da Comissão de Enquadramento e que sequer se sabe do andamento da situação. Por que não retirar essa responsabilidade de suas mãos e encaminhar a outro membro da comissão? Ninguém atende. Ninguém responde. Ninguém aparece. O silêncio também é uma forma de violência.
Que nome se dá a isso?
Talvez abandono. Talvez cumplicidade. Talvez medo.
Mas eu sei o nome que carrego: luta.
Se preciso for, irei até o limite. Porque há momentos em que o corpo vira trincheira. E, quando a justiça não vem pelos caminhos normais, ela precisa ser arrancada. No dia 11 próximo, quando se completam 100 dias da entrada da documentação solicitando a correção da distorção funcional, iniciarei uma greve de fome. Paciência tem limite.
Sigo. Como sempre segui.
Porque quem aprende a lutar cedo não desaprende, mesmo diante das almas sebosas que o caminho revela.





