Servidor do RN anuncia greve de fome contra injustiça no serviço público

“O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos”

Os versos do poeta Ferreira Gullar escancaram a luta por dignidade no serviço público, que ganha um novo e duro capítulo no Rio Grande do Norte. Após mais de três décadas dedicadas à educação e à luta por melhores condições de trabalho e salário, o servidor estadual Fernando Antônio Soares dos Santos, conhecido como Nando Poeta, anunciou uma greve de fome como forma extrema de resistência diante de uma injustiça que denuncia como inaceitável.

A decisão vem após um processo de reenquadramento que, segundo o servidor, ignora sua trajetória com mais de mais de 32 anos como técnico de nível superior. “Após uma vida inteira como sociólogo no serviço público, minha trajetória é clara, documentada, reconhecida oficialmente. O que existe não é dúvida, é negação.”

Mesmo tendo exercido por décadas a função de sociólogo, Nando foi classificado como servidor de nível médio. Um rebaixamento que ele define como tentativa de apagamento de sua história.

No serviço público desde 1984, Nando apresenta em carta aberta sua trajetória de luta como dirigente sindical que ajudou na organização dos servidores, a exemplo do Sinsp e Sinte. “Participei de greves, assembleias, mobilizações e ocupações. Defendi, em cada espaço, o plano de carreira, a dignidade dos servidores e o reconhecimento de quem constrói a educação pública”, declara ao apontar que “enquanto lutava coletivamente, travava também uma batalha individual, longa, desgastante e marcada pela negação”.

Em 2010, Nando saiu de licença sem remuneração, renovada até 2016. Retornou em janeiro de 2017 ao Núcleo Estadual de Educação para a Paz e Direitos Humanos da Secretaria de Educação. “Desde então, sem o devido enquadramento, venho recebendo pouco mais de um salário mínimo, uma situação que agrava a injustiça e desvaloriza concretamente minha trajetória”, desembucha diante de uma vida inteira dedicada à defesa dos direitos, e agora confrontada por uma decisão burocrática que desconsidera sua própria história.

O caso expõe uma realidade conhecida por muitos servidores: a frieza da máquina administrativa que transforma vidas em arquivos mortos. “O apagamento de uma história e a negação de documentos oficiais”, acrescenta o servidor ao exigir o correto enquadramento no Grupo de Analista em Educação (GAnE), correspondente ao cargo que exerce há décadas. “O que está em jogo não é apenas um cargo. É o respeito. É a legalidade. É a dignidade. É o direito ao sustento. Paciência tem limite. Décadas de espera não podem ser tratadas como detalhe administrativo”.

Ele explica que buscou judicialmente o reconhecimento do seu correto enquadramento. Embora tenha havido sentença judicial favorável, a Procuradoria do Estado negou o pedido sob o argumento de ausência de enquadramento anterior. “Como se um detalhe burocrático pudesse apagar uma vida inteira de exercício em nível superior”.

Mesmo depois de cumprir integralmente todas as etapas de um novo processo, iniciado em 5 de fevereiro deste ano, o servidor afirma que foi “surpreendido com uma classificação como nível médio, baseada em um cargo exercido por pouco mais de dois anos, ignorando mais de três décadas como profissional de nível superior”.

Diante da falta de agilidade na resolução do problema e do silêncio institucional, Nando Poeta decidiu iniciar uma greve de fome a partir do dia 11 de maio na Secretaria Estadual de Educação, transformando a fome de justiça em denúncia. “Não por desespero, mas como instrumento legítimo de luta. Faço isso para que vejam. Para que sintam. Para que a realidade concreta de um trabalhador seja reconhecida. Não peço privilégios. Exijo justiça”. E completa: “Falo por todos os que foram apagados pela burocracia. Se minha voz não bastou, que meu corpo em resistência fale”.

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