
O amigo Rogério Marques me pediu para eu externar algumas lembranças sobre o mestre Deífilo Gurgel e eu não teria como recusar esse desafiador pedido, mesmo não estando tão alegre nesta data.
Digo que nem consigo lembra-lo sem rir e chorar ao mesmo tempo. Muitas histórias vividas em encontros, reuniões e viagens. Ele dizia rindo nas conversas que tinha dois filhos de ‘criação’ e que – me dão muito trabalho – Gutenbeg Costa e Severino Vicente. E aos dois, entre outros nomes ilustres, dedicou a sua belíssima obra – ‘Espaço e Tempo do Folclore Potiguar’ (2000). Ofertou-me o maior presente de aniversário de minha vida, quando declamou ao telefone, o seu divino poema – ‘Ribeira Velha de Guerra’ e disse ao final quase me matando de emoção, me dizendo de surpresa: – Este poema é dedicado a você meu amigo Gutenberg!
Um dia, o seu filho e amigo Alexandre, me faz um convite para gravar um depoimento meu sobre o seu pai. Coisa difícil sem transparecer gratidão e emoção. Disse ao Alexandre, que não contaria em três dias, a metade do vivido. Só as situações engraçadas encheriam dois livros, quem sabe. Deífilo era aquele ´amigo pai’ conselheiro em quase todas as situações de minha vida. Vivia ele, ‘escaldado’ e sempre com ‘um pé atrás’ na desconfiança de certas promessas: Vamos ver!
Quando chegávamos aos casebres de mestres e mestras, presenciávamos um Deífilo emotivo com lagrimas nos olhos, diante da visível situação destes e destas. Dizia-nos que ‘diplomas’ nas paredes daquelas casinhas não enchiam as barrigas daqueles heróis e daquelas heroínas da cultura popular papa jerimum tão sofridos e esquecidos. Era uma festa a sua chegada às cidades visitadas. Abraços, café, bolos e as cachaças, ele as direcionavam aos seus dois escudeiros: – Deixe o café comigo e a cachaça com Gutenberg e Severino, aqui…
Nunca vi alguém tão amigo e solidário. Quando sabia que estávamos doentes, ia nos visitar e reclamava se nossa demora à sua casa não tivesse uma justificativa plausível: Venha que Zozó prepara o café e eu tenho boas conversas. Vou contar um segredo de muita gratidão. Deífilo soube de Severino Vicente, que eu estava sendo ‘perseguido’ em meu trabalho por um chefe. Aí ele ficou uma fera, foi na minha repartição e falou bravo em meu favor com o então diretor geral (presidente). No mesmo dia tudo foi resolvido e eu fui transferido para um setor finalmente ‘livre’ de problemas até minha aposentadoria.
Deífilo não podia sonhar que alguma amizade estivesse passando por alguma dificuldade. Era daquele tempo de se alegrar nas nossas festas e também comprar até ‘brigas’ para nos defender. Dizia-nos cotidianamente nas reuniões da nossa Comissão de Folclore, em sua casa: Amigo, tem que ser amigo, até as últimas!
Quando lhe contei que ia publicar as histórias engraçadas relacionadas aos padres do RN, este me deu logo de supetão o titulo – O Riso de Batina. Com sua aflorada simplicidade durante as nossas viagens, ia conversar com o povo nas feiras e mercados. Parava solenemente nas estradas para sentir o cheiro de currais, ver os animais soltos e os jardins floridos das casas das ‘beiras’ de estrada. O poeta constantemente ligado ao folclorista nos ensinando que a felicidade estava nas coisas mais simples e que para ser folclorista, só era necessário se ter ‘coração’ e gostar de ‘povo’.
Lembro-me de que quando fiz um curso de Folclore no Rio de Janeiro (RJ), pela Funarte / Museu Edson Carneiro, ouvi de um professor que eu não deveria se envolver muito com o povo pesquisado, ensinamento ‘técnico acadêmico’ totalmente diferenciado da escola ‘deifiliana’ que abraçava, sorria e chorava sentado nos tamboretes dos casebres dos mestres, mestras e brincantes do nosso espoliado folclore.
Minha ‘escola’ que era ensinada e aprendida na prática pelo saudoso professor Deífilo Gurgel, era a da amizade sincera, gratidão em tudo e solidariedade aos mais necessitados. Deífilo não cansava de repetir o seu sagrado mantra em suas viagens a mim e a Severino Vicente: Tratem com muito amor os mestres e as mestras, mas não deixem de olhar se o fogão de lenha deles estão acesos e com as panelas cheias de comidas. Dizia que desde menino em sua Areia Branca, já ouvia dos mais velhos essas duas máximas popular tão verdadeiras: – Saco vazio, não fica em pé e Elogios não enchem barrigas.
Certa feita, numa noite, me ligou choroso e revoltado: Meu amigo Gutenberg, o mestre Faísca do Pastoril morreu hoje! E quando lhe perguntei a causa mortis, Deífilo me deu a mais verdadeira das causas das tragédias humanas do povo do nosso Folclore: – Lhe mataram de ostracismo cultural!
Como eu disse ao amigo Alexandre Gurgel diante das câmeras em minha saideira em seu documentário sobre seu velho e amado pai: Três dias eu não conto, a metade do meu vivido privilegiado e abençoado por Deus, com o mestre Deífilo Gurgel…
E vou finalizar estas mal traçadas linhas tão emotivas, lembrando-os, que na data de hoje, 06 de fevereiro de 2026, o nosso Deífilo completa 14 anos de encantamento e que no dia 22 de outubro vindouro, completará centenário de nascimento e deveria com toda justiça e gratidão, ser lembrado em todos os rincões do nosso Rio Grande do Norte, quase sem memória e muito ingrato aos grandes nomes que fizeram parte de nossa história.
Nísia Floresta/RN, Morada São Saruê. 06/02/2026.








