Dias, noites, madrugadas: vida paixão e sangue no sertão do cangaço

Caro leitor, eu pretendo
Ocupar algum espaço
Deixado por quem, outrora,
Escreveu sobre o cangaço.E um perfil mais completo
Desse tema agora eu traço.

(A saga de Jesuíno Brilhante)

O livro Dias, Noites, Madrugadas, de nando Poeta, é uma antologia reunindo textos originalmente publicados entre 2010 e 2014. São os poemas cordelísticos sobre o cangaço e seus personagens. Nando cumpriu com eles a sina tradicional do cordel brasileiro de falar, em suas estrofes e versos formais, das realidades e ficções sobre esse período rico e fatídico do nordeste do Brasil. A tradição literária, em prosa (ficção e documental) e poesia (em lírica e épica), já cumprira seu intento desde Franklin Távora, com O cabeleira, vindo a José Américo de Almeida, com Coiteiros, e outros tantos observadores que encontraram no cangaço vastíssima estrela narrativa.

No Nordeste brasileiro
Travou-se uma grande luta.
A contenda entre as famílias
Foi gerando uma disputa,
Dando origem ao cangaço,
Na bala e na força bruta.

(O cangaço e o lendário Lampião)

Na poesia do povo, na base escrita ou na pauta oral, em poemas de cordel e em canções laudatórias, os personagens desse ato regional nordestino, amplificaram as terras e os céus, os corações e os destinos. Especificamente no cordel, os fundadores Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista, cantaram o legendário Antonio Silvino, nas décadas de 1910 e 1920. Logo depois, entre o final da década de 1950 e início da década de 1970, Manoel D’Almeida Filho e Antonio Teodoro dos Santos, tomaram em suas canetas as vicissitudes de Virgolino Ferreira e seu bando de cangaceiros.

Após descrever Corisco,

E o lendário Lampião.
O Jesuíno Brilhante
Rendeu outra narração.
Agora vem Jararaca
Nessa nova inspiração.

(Jararaca, o cangaceiro que virou santo)

O cinema, por volta de 1950 e 1960, também descobriria a seara cangacioneira e traria para as telas mundiais, ancoradas no Cinema Novo, O Cangaceiro, de Lima Barreto, e A morte comanda o cangaço, de Carlos Coimbra e Walter Guimarães Motta (indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), passando por Deus e o Diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, chegando ao Baile perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, este de 1996. O tema está sempre a se remexer e oferecer-se para degustação artística, filosófica, sociológica e antropológica. Neste momento, em algum lugar do Brasil alguém está mergulhado em suas páginas.

Vamos viajar conosco
No percurso da história
Das mulheres no cangaço
Inserção e trajetória,
As mudanças provocadas,
Suas dores, sua glória.

(As mulheres no cangaço)

O sociólogo Nando Poeta, vestido do sol cordelístico, pesquisou o caminho, comprou livros, pesquisou fontes, viu filmes, escrutinou outros poetas, desde A chegada de Lampião no inferno, de José Pacheco, até Lampião e seu escudo invisível, de Costa Sena, para escrever, sozinho ou em parceria com Varneci Nascimento, este documento a que intitulou Dias-Noites-Madrugadas: vida, paixão e sangue no sertão do cangaço. Salientamos que os poemas reunidos estão impressos como o foram nos originais, sem atualização ou revisão profunda, para que os leitores e pesquisadores dos temas cordel e cangaço observem o crescimento, o fazer poético de um autor que se pauta pela pesquisa.

À época todos pensaram
Que a morte de Lampião
Poria fim ao cangaço
Sendo enterrado no chão
Sem deixar nenhum vestígio
Por todo vasto sertão.

(Corisco, o vingador de Lampião)

Ressalte-se que um dos textos (Maria Bonita, a paixão de Lampião) é uma produção de 2018 que estava inédita em livro e foi publicada especialmente nesta antologia. É de muita importância sua presença pois oferecerá aos leitores, observadores e críticos a possibilidade de analisar a trajetória poética do autor, as mudanças em sua escrita, possíveis avanços e encaminhamentos, visto que é um texto posterior aos outros da coletânea. Com essa reunião sobre o cangaço, Nando Poeta fechou um ciclo e abriu outro: o de reflexão sobre as potencialidades do cordel brasileiro. Diga-se, ainda, ser aqui o primeiro título do selo Leandro, destinado a publicações especiais em cordel, homenageando o primeiro sem segundo Leandro Gomes de Barros, o pai do sistema cordelístico brasileiro. 

Uma história de amor
Deu outro rumo ao cangaço
Sendo as mulheres aceitas
Aos poucos ganham espaço
O cangaceiro é flechado
Totalmente dominado
Por chamego, beijo, abraço.

(Maria Bonita, a paixão de Lampião)

Para enriquecer a publicação preste-se muita atenção nas ilustrações produzidas por Walfredo de Brito, um paraibano, da região do brejo, da cidade de Areia, hoje radicado em Campina Grande. Produzindo capas, inicialmente para a Editora Luzeiro de São Paulo, alçou-se à importância de ser atualmente um dos mais interessantes ilustradores do universo cordeliano. Traço realista, afeito aos detalhes, trabalhou nas noites e nas madrugadas para fazer jus ao título do livro. Conseguiu, como sempre, traduzir em traços os incidentes do texto, as marcas textuais. Criou a face dos personagens, interpretou cenários e costumes, vestimentas e utensílios, dramatizou as tragédias e transferiu para o papel um possível afeto do mundo cruel do cangaço.

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