Antigas Majestades do Carnaval natalense (Rei Momo)

Aqui vamos resumir a história que daria um volumoso livro, em um texto cabível para leitura e conhecimento histórico dos nossos antigos carnavais e alguns homens destemidos e divertidos, que indicados/eleitos foram as nossas majestades momescas em Natal. Do boêmio festeiro e obeso Cavalcanti Grande, nos anos 20. Do imbatível Paulo Maux, nos anos 60 e o Severino Galvão, na década de 80 do século XX.

Em Natal o nosso ‘Rei Momo’ pioneiramente já saía ás ruas desde os anos 20, devidamente paramentado. Era o senhor ‘Cavalcanti Grande’ (1864-1931). Não era escolhido ou eleito e sim por iniciativa própria percorria as ruas, elegantemente vestido em traje real para as festanças de suas amizades, que já o esperava em suas residências do Alecrim a Ribeira. E o Cavalcanti Maranhão era um tipo alto e obeso, festeiro maior de folguedos folclóricos, serenatas boêmias e carnavais. Pela nossa imprensa era chamado de ‘Rei’, ‘Sultão’ ou ‘Majestade’. Saia o nosso Rei em uma carroça puxada por cavalos, toda decorada, ao encontro de seu povo boêmio e carnavalesco.

Alguns memorialistas do carnaval natalense registraram a figura carismática do carnavalesco, festeiro e folião, entre eles Câmara Cascudo. E o alegre Cavalcanti Grande, garbosamente reinou em nossas antigas ruas de areias, sem luz elétrica, carroças de burros e cavalos. Um dos nomes de foliões lembrado pelo nosso mestre Câmara Cascudo (1898-1986).

Temos uma confirmação histórica sobre o primeiro Rei Momo, considerado o oficial dos carnavais de Natal: o jornalista e cronista carnavalesco Aderbal de França, o famoso ‘Danilo’, no dia 22 de fevereiro de 1938, no Jornal ‘A República’, tece comentários em sua séria coluna carnavalesca a respeito do nosso Rei Momo: – O rei momo estava ricamente vestido… Nunca vi tão elegante o doutor Odilon Garcia. E os primeiros Reis Momos surgiram sem as respectivas Rainhas… As nossas Rainhas ficarão para outro justo artigo mais pra frente!

Anos 40, do século XX, reinou entre os americanos da Segunda Guerra Mundial o boêmio, obeso, barbeiro, vendedor de rifas e outras atividades – Zé Areia – Um grande boêmio e carnavalesco, morador do Areal/Rocas: O jornal Tribuna do Norte, de 1º de fevereiro, anuncia a seguinte e lamentável notícia: “Zé Areia – lia poesia, abraçou a mulher e morreu”. Todos os carnavalescos lamentaram a ‘partida’ do nosso velho folião e Rei Momo. O jornalista ‘Ticiano Duarte’ publica uma crônica em sua despedida, intitulada: A lembrança de Zé Areia” (Tribuna do Norte, 03 de fevereiro). E o jornalista Abmael Morais faz o mesmo com o seu texto: “Zé Areia – Uma saudade que fica lembrando a irreverência que se foi” – (Tribuna do Norte – 06/02). O ex-Rei Momo ‘Areia’ ‘partiu’ em Natal a 31 de janeiro. Natalense, nascido a 13 de maio de 1900. Grande boêmio, humorista, carnavalesco, ex-Rei Momo. Amigo de intelectuais, artistas, políticos e carnavalescos. Foi biografado por ‘Veríssimo de Melo’ e citado por vários pesquisadores e memorialistas, entre eles, ‘Câmara Cascudo’, ‘José Alexandre Garcia’, ‘Diógenes da Cunha Lima’, ‘Augusto Severo Neto’, ‘Deífilo Gurgel’ ‘Paulo Augusto’ e ‘Gutenberg Costa’ na obra ‘Natal – Personagens Populares’ (1999). José Areias Filho era casado com dona Laurentina Maria da Conceição. A vaidade do Rei: Certa feita, perguntado sobre o que achava do alegre reinado de momo em Natal, respondeu com seu bom humor característico: – Personagem bom de se encarnar, se bebe, se come, não se gasta dinheiro e ainda é pajeado por uma mulher linda!.

Sobre o enterro de Zé Areia, ninguém soube descrevê-lo melhor do que o memorialista ‘José Alexandre Garcia (1925-1997)’, seu velho amigo de boêmia e carnavais: – Enterro de Rei – parecia enterro de gente muito importante, Firmino Moura correu e trouxe da sede a bandeira do ABC, o querido pavilhão, e com ela envolveu o caixão pobre. Muita gente. Mas estavam presentes não apenas os boêmios e gente do povo, seus irmãos. Poderiam ser encontrados intelectuais, políticos, magistrados, poetas, altos comerciantes, industriais, doutores, pessoas de alto gabarito, citados nas colunas políticas e sociais. Ao passar o féretro pela esquina da Frei Miguelinho/Duque de Caxias, lá estavam enfileirados os seus colegas de profissão, os cambistas. Os motoristas de praça, numa combinação de última hora, acionaram buzinas, numa homenagem. Veríssimo de Melo começou discurso à beira do túmulo, anunciando: — Desapareceu hoje o último boêmio de Natal! Zé Areia foi Rei Momo na Natal antes dos acirrados concursos oficiais. Ás vezes eleito e outras mesmo ‘imposto’ pelos amigos foliões e carnavalescos de seu tempo. Reinou até na Segunda Guerra Mundial, época que ninguém teve coragem e o irreverente Zé, vestiu-se de Rei e de Mulher grávida para escandalizar a moralidade americana plantonista de então. Fez rir a Natal séria e amedrontada com bombas do louco senhor Hitler…

E depois de ‘Cavalcanti Grande’ tivemos as majestades ‘Odilon Garcia’, José Alves dos Santos’, ‘Ovídio Sobrinho’, ‘Amaro Andrade’, ‘Aureliano Medeiros Filho’, João Manso, Luiz Doblechem, Luís Morais, Severino Galvão, entre outros nomes que os tenho anotados.  O mais obeso entre todos era o morador da Cidade Alta, o Paulo Maux (1934-1984), com quase 200 quilos e reinado carnavalesco mais longo entre todos – de 1960 a 1978. E o aguerrido folião e boêmio Severino Galvão (1914-1994), eleito ou saindo à revelia da oficialidade nas ruas e clubes sociais, trajando vestes de Rei e borrifando os seus fãs/súditos, com perfume, criativamente colocado numa bomba usada para matar insetos. Severino foi um grande rival do citado Paulo. Um ‘calo’ e abalo nas eleições momescas em Natal. E foi eleito Rei Momo no carnaval de 1985, sendo o mais idoso entre todos na nossa Natal de todos os tempos…   

Tive que entrevistar a viúva de Paulo Maux. Seu depoimento foi cortado por risos e lágrimas. A primeira rainha do carnaval dele, foi acompanhada pela mãe.

Em se tratando de antigos carnavais em Natal, recordo agora de um ‘alerta’ do meu saudoso mestre Veríssimo de Melo (1921-1996), grande festeiro, folclorista e boêmio, assim que tomou conhecimento desta nossa pesquisa sobre os antigos carnavais da cidade do Natal: – Gutenberg, não se esqueça dos nomes de Zé Areia, Severino Galvão e Paulo Maux…

Dizem os mestres e mestras – pesquisa é coisa muito séria e ficou para quem tem muita paciência e ética! O resto é conversa pra boi de reis de carnaval dormir!

Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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