
“Vamos vestir a camisa da Cultura do RN”, dizia o chamado para o encontro com a Ministra de Estado da Cultura, Margareth Menezes, e a Governadora do Rio Grande do Norte, professora Fátima Bezerra, no Teatro Alberto Maranhão.
E eu fiquei pensando… vestir a camisa, para quem sempre esteve com o corpo inteiro em campo. Porque quem faz cultura nesse Estado já sua a camisa faz tempo, na raça, na teimosia e no amor. Sua a camisa sem salário (RPV) em dia, sem garantia, sem descanso. Sua a camisa mesmo quando o cachê atrasa meses, mesmo quando a dignidade é empurrada para depois.
Vestir a camisa? Nós nunca tiramos.
Chamam, insistem, convocam. Querem presença, querem plateia, querem cenário. Mas não quiseram escuta. Não quiseram debate. Não quiseram construção coletiva. Não nos chamaram para ajudar na formulação do Circuito Literário Potiguar CLIP, nem na construção das Políticas Culturais do RN. O convite veio pronto, como vitrine, não como roda de conversa.
E assim seguimos sendo chamados para expor, para vender, para compor o quadro bonito da cultura potiguar. Uma banquinha aqui, um cordel ali, um sorriso na foto. Mas e a palavra? E a voz? E o direito de dizer os rumos daquilo que nós mesmos construímos?
A arte não é figurino de evento.
A arte é livre. Não aceita coleira, não se curva a protocolos, não cabe em cerimônia onde o artista entra pela porta dos fundos e sai sem ser ouvido. A arte nasce do povo e com o povo deve caminhar. Não pode ser acorrentada a agendas, nem domesticada por políticas que não nos incluem de verdade.
Dói, mas é preciso dizer com delicadeza firme: não queremos só convite, queremos participação. Não queremos só palco, queremos decisão. Não queremos só edital que cai como migalha, queremos política pública permanente, orçamento digno, respeito contínuo.
Porque o artista come, sente, vive e resiste.
Se é para vestir a camisa, que seja a camisa da rua, da feira, do verso livre, da palavra solta ao vento. A camisa da cultura que não pede licença para existir. A camisa da arte que não se ajoelha.
Não fomos feitos para enfeitar o poder.
Fomos feitos para dizer, para provocar, para tocar, para transformar.
E a nossa arte seguirá assim, livre, indomável e profundamente humana.
………………………….
| Nando Poeta |
| Presidente da Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel
| Membro do Ponto de Memória Estação do Cordel








