Veríssimo de Melo e o Papa João Paulo II

Os pesquisadores da temática da Literatura de Cordel sabem, quando um assunto ou personagem é muito abordado pelos poetas cordelistas em seus folhetos, são classificados como “ciclos”. Assim, são estudados pelos pesquisadores em seus ensaios, livros e conferências. Desse modo, o nosso atento observador dos ciclos cordelísticos, o saudoso mestre e amigo folclorista Veríssimo de Melo (1921-1996), viu que a chegada ao Brasil da santidade Católica, o Papa João Paulo II (1920-2005), estava sendo retratada pelos poetas cordelistas brasileiros, que sempre se fizeram de geniais e criativos repórteres do nosso povo, aliados aos jornalistas dos antigos impressos.

Os cordéis tinham a vantagem de serem vendidos popularmente nas feiras, praças e mercados, enquanto que os jornais ficavam nas mãos e olhos da classe considerada mais culta e elitizada dos grandes centros. Digo isso porque cresci na feira do Alecrim, em Natal.
Em inúmeras conversas com o referido mestre, este me contou que recebia as novas produções dos amigos poetas espalhados pelo Brasil inteiro, pelos Correios. Em grande parte, os folhetos lhe chegavam com dedicatórias de seus autores. Fui testemunho em várias oportunidades da sua caixa postal na agencia dos Correios da rua Princesa Isabel, na Cidade Alta em Natal, abarrotada de pacotes vindos do país inteiro. Minha caixa postal ficava perto da sua e havia um combinado amigo de lá nos encontrarmos para novos bate papos e risadas nos finais de tarde. Eu com pouquíssimas cartas e ele precisando de ajuda para carregas seus pacotes até o seu automóvel: “Tenha paciência e fé meu amigo, que isso vai lhe ocorrer, mais quando você ficar mais velho e mais conhecido”. E o profeta folclorista tinha razão, meu tempo de receber pacotes com livros e folhetos chegou.
O citado Papa polonês veio ao Brasil e à nossa cidade do Natal em julho de 1980. Primeiro Pontífice católico a pôr os pés sobre as terras pisadas por Cabral e pelo nosso mestre maior do folclore, Câmara Cascudo. Foram publicados folhetos antes, durante e depois da vinda papal. Os cordelistas não perdem tempo e nem cochilam, se não, segundo os próprios, “o cachimbo caí”. Quase uma centena de folhetos surgiram com a vinda do carismático Karol Jósef Wojltyla, de quase todos os estados brasileiros, como homenagens dos nossos poetas populares.
Do Rio Grande do Norte, pelo menos dois poetas publicaram logo seus folhetos: Zé Praxedes (1916-1983) e Vicente do Riachão, pseudônimo do poeta Pery Lamartine (1926-2014). Os dois poetas, meus conhecidos. O Pery, meu confrade no IHGRN. E o Praxedes, amizade em conversas, algumas vezes em minhas visitas na tradicional feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.
O trabalho aqui abordado, resumidamente do mestre Vivi, é intitulado ‘A Visita do Papa ao Brasil, Através da Literatura de Cordel’, 20 páginas, edição da UFRN em 1982. Resultado de sua conferência na I Jornada de Literatura de Cordel, em Campinas/SP. Cada conferência de suas inúmeras viagens, era uma publicação sua, quase que imediata, pois ele sempre me dizia que o que se falava se perdia, mas nunca os escritos. Publicação que agora completa 40 anos (1982-2022) e merece ser lembrada. Principalmente pelos pesquisadores e estudiosos da obra do centenário folclorista do nosso RN e da nossa Literatura de Cordel, que é pouco estudada e pesquisada. Como seria justo juntar todas as publicações sobre o assunto ‘Literatura de Cordel’ do nosso Veríssimo de Melo em um volume único e comentado. Seria uma grande homenagem em seu centenário de nascimento (2021). Como grande estudioso dos folhetos, o nosso mestre Vivi é nome/patrono da cadeira 8 da Academia NorteRiograndense de Literatura de Cordel (Anlic).
O próprio Vivi já vem sendo reconhecido pelos poetas cordelistas, como nos recentes trabalhos de Josenira Fraga, ‘Veríssimo de Melo – 100 Anos de Nascimento’ e de Francisco Martins, Mané Beradeiro – Nas Veredas de Veríssimo. Duas obras devidamente disponíveis em nosso pequeno acervo para consultas.
Para encerrar essa prosa, deixo a minha eterna gratidão ao saudoso mestre, que em uma manhã em meio às nossas alegres conversas, na sala do então Conselho de Cultura do RN, me presenteou com uma caixa de papelão cheia de folhetos, me dizendo generosamente: “Amigo Gutenberg Costa, admiro seu interesse na pesquisa do nosso valoroso Cordel. Aqui estão todos os folhetos estudados e citados em duas pesquisas por mim já publicadas sobre o nosso Presidente Tancredo Neves e o Papa João Paulo II”.
E diz aquele velho dito popular, que é “melhor amigo na praça do que dinheiro na Caixa”. Como também lembro cotidianamente que minha mãe já dizia: “As boas amizades não são coisas para os ingratos!”
Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN

 

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