
Patrimônio histórico e pilar do turismo pedagógico em Natal, o Memorial padece sob o abandono e a ausência de uma política pública cultural que devolva o mestre Cascudo ao povo.
NATAL – Quem caminha pelas ruas estreitas da Cidade Alta, em direção ao coração histórico da capital potiguar, depara-se com uma cena que fere a identidade do Rio Grande do Norte. O Memorial Câmara Cascudo, guardião do legado do maior intelectual que esta terra já produziu, permanece de portas fechadas. O cadeado na entrada não tranca apenas um edifício; ele encarcera a história, a cultura e o direito da população de acessar suas próprias raízes.
O abandono do Memorial é classificado por historiadores e produtores culturais como “injustificável”. Localizado em um prédio de importância inquestionável — a antiga sede do Tesouro do Estado, uma joia arquitetônica que compõe o cenário da Praça André de Albuquerque — o espaço deveria ser um centro pulsante de pesquisa e visitação. Em vez disso, o que se vê é a deterioração silenciosa de um patrimônio que deveria ser o cartão-postal da inteligência potiguar.
Um acervo sem público
O valor do Memorial não reside apenas em suas paredes centenárias, mas na utilidade do que elas abrigam. O acervo, que detalha a vida e a obra monumental de Luís da Câmara Cascudo, é parte indiscutível da formação do Brasil. Cascudo não foi apenas um folclorista; foi o antropólogo que decifrou a alma do povo brasileiro a partir de Natal. Manter esse acervo inacessível é, na prática, um ato de apagamento histórico perpetrado pela inércia administrativa.
A situação denuncia uma lacuna grave: a ausência de uma ação política pública cultural efetiva. A cultura, muitas vezes tratada como acessório em orçamentos públicos, revela-se aqui como uma vítima da falta de prioridade. Não se trata apenas de “abrir as portas”, mas de gerir, fomentar e integrar o Memorial à vida da cidade.
O golpe no turismo pedagógico
Um dos impactos mais sensíveis do fechamento do Memorial é sentido na educação. A Cidade Alta é o palco principal do turismo pedagógico em Natal, um roteiro que leva diariamente centenas de estudantes a percorrerem o patrimônio cultural — passando pelo Instituto Histórico, pela Igreja do Galo, Igreja do Rosário, etc.
“O Memorial Câmara Cascudo era a parada obrigatória. É ali que o aluno entende que a cultura popular tem a mesma importância que a história oficial”, afirma um guia local que preferiu não se identificar. Sem o Memorial, o roteiro torna-se incompleto, uma colcha de retalhos com um buraco no centro. O prejuízo para a formação das novas gerações de potiguares, que crescem sem conhecer o mestre de perto, é incalculável.
Ocupar para não morrer
Enquanto o Memorial permanece fechado, a Cidade Alta sofre com o esvaziamento. A revitalização do Centro Histórico de Natal passa, necessariamente, pela reativação de seus equipamentos culturais. O Memorial Câmara Cascudo não pode continuar sendo um monumento ao esquecimento.
A sociedade civil e a classe cultural cobram respostas. Mais do que reformas estruturais, o que se exige é um projeto de ocupação que transforme o prédio em um organismo vivo, devolvendo a Cascudo o seu lugar de direito: o contato direto com o povo que ele tanto estudou e amou. O silêncio na Cidade Alta é ensurdecedor, e a cultura potiguar não pode mais esperar pelo som das chaves girando na fechadura.






