
Da proliferação de células neonazistas em Santa Catarina ao bizarro caso do “bebê Hitler” no RN, o preconceito deixa o submundo e ocupa espaços públicos sob a sombra da impunidade política.
O Brasil assiste, nos últimos anos, a uma metamorfose perversa de um de seus males estruturais. O racismo, que por décadas operou de forma velada sob o mito da “democracia racial”, rompeu suas barragens. Hoje, ele não apenas se manifesta; ele se exibe. Em espaços públicos e privados, o que se vê é uma demonstração de ódio sem pudores, alimentada por um sentimento de impunidade que parece ter sido autorizado pelo discurso oficial e pela organização metódica de grupos extremistas.
O Epicentro do Extremismo
Dados de mapeamentos realizados por pesquisadores da antropologia e órgãos de segurança pública revelam um crescimento alarmante de células neonazistas e grupos de supremacia branca no Brasil. O estado de Santa Catarina consolidou-se como o epicentro dessa movimentação. No entanto, o fenômeno deixou de ser uma exclusividade do Sul.
O que causa perplexidade a observadores internacionais é a interiorização desse ódio. Recentemente, a descoberta de grupos organizados de teor neonazista no Nordeste — uma região marcada pela resistência e pela diversidade étnica — acendeu um alerta vermelho. Esses grupos, muitas vezes formados por indivíduos que sequer seriam aceitos pela cartilha ariana original, mimetizam estéticas e discursos de ódio em um processo de alienação identitária profundo.
A Herança do Discurso de Cúpula
Especialistas em sociologia política são unânimes: a retórica de um ex-presidente da República, hoje presidiário e chorão, serviu como um catalisador para esse cenário. Ao longo de quatro anos, falas que flertavam com o preconceito, que atacavam minorias e que desdenhavam de direitos fundamentais foram absorvidas e naturalizadas por uma parcela da população.
A mensagem subliminar — e muitas vezes direta — era a de que “agora se pode dizer o que pensa”. Essa “liberdade” para agredir transformou-se em uma licença para o crime. Os seguidores, sentindo-se protegidos por uma figura de autoridade máxima que também desafiava as instituições, passaram a acreditar na impunidade absoluta. O resultado é o que vemos hoje: o racismo saindo do sussurro para o grito.
O Bizarro e o Cruel: O Caso do RN
Um dos episódios mais emblemáticos e perturbadores dessa nova era ocorreu no Rio Grande do Norte. Durante a festa de formatura de uma turma de medicina de uma universidade privada, pais — que visualmente não se enquadram no padrão fenotípico de branquitude europeia — decidiram fantasiar o filho pequeno de “filhote de Hitler”.
A criança foi exibida no evento com trajes que remetiam ao ditador nazista, em um espaço frequentado pela elite econômica potiguar. O caso chocou não apenas pela apologia ao nazismo, mas pela desconexão total com a realidade e a história por parte dos pais. O episódio revela que o símbolo do mal absoluto foi banalizado a ponto de se tornar um “adereço” em celebrações de classe alta, expondo uma falência moral e educacional sem precedentes.
A Resistência às Cotas e o Caso de Pernambuco
Enquanto o ódio estético se manifesta em festas, o ódio institucional se concentra no bloqueio de oportunidades. A reação virulenta contra as políticas de cotas ganhou novos capítulos de hostilidade. O alvo mais recente foi a implementação de cotas para assentados da reforma agrária em um curso de medicina em Pernambuco.
A elite acadêmica e setores conservadores reagiram com uma fúria que mistura classismo e racismo. A ideia de que corpos negros, pardos e oriundos do campo ocupem os espaços de prestígio da medicina parece ferir o senso de casta que ainda rege parte da sociedade brasileira. Para esses grupos, a meritocracia é um escudo usado apenas quando o ponto de partida é desigual; quando o Estado tenta equilibrar a balança, a resposta é a revolta e a tentativa de judicializar o privilégio.
O Desafio da Justiça
O cenário desenhado é de um Brasil em disputa. Se por um lado o racismo e o neonazismo saíram do armário, por outro, as instituições de fiscalização e a sociedade civil organizada nunca foram tão exigidas. O combate a essa onda de ódio não passa apenas pela educação, mas pela punição exemplar. Enquanto a prática do racismo e a apologia ao nazismo forem tratadas como “opinião” ou “excesso”, o país continuará a chocar o mundo com cenas de barbárie em plena luz do dia.







