
Em países desenvolvidos, cargos eletivos são vistos como prestação de serviço temporário e sem regalias; no Brasil, a estrutura estatal é usada para sustentar salários exorbitantes, exércitos de assessores e esquemas de corrupção.
A imagem de um prefeito de uma grande capital europeia indo para o trabalho de bicicleta ou utilizando o metrô não é uma peça publicitária; é a rotina em boa parte dos países desenvolvidos. Na Suécia, Suíça ou Holanda, ser vereador ou parlamentar é frequentemente uma atividade de meio período, com remunerações modestas e uma ausência quase absoluta de mordomias. Contudo, ao atravessar o Atlântico em direção ao Brasil, o cenário de serviço público transforma-se em um espetáculo de privilégios que, para muitos especialistas, assemelha-se ao padrão de vida de elites em regimes ditatoriais.
A Profissão: Privilégio versus Serviço
A disparidade começa na concepção do cargo. Enquanto na Europa a política é encarada como um dever cívico temporário, no Brasil ela se tornou uma carreira altamente lucrativa. Aqui, o acesso a um cargo eletivo funciona como um passaporte para uma realidade paralela. Representantes do povo acumulam rendimentos que podem duplicar ou triplicar seus salários nominais através de uma engenharia de benefícios que inclui auxílio-combustível, verbas de moradia e planos de saúde vitalícios e de luxo — tudo custeado pelo contribuinte.
Enquanto o cidadão comum enfrenta filas no SUS e gasta boa parte da renda com transporte, seus representantes desfrutam de uma estrutura que isola a classe política das dificuldades que eles mesmos deveriam resolver.
O Exército de Assessores e a “Rachadinha”
Um dos pontos mais críticos da subutilização do Estado brasileiro é a hipertrofia dos gabinetes. Não é raro encontrar parlamentares que comandam verdadeiros exércitos de assessores. Essa estrutura, além de inflar a máquina pública, abre margem para práticas criminosas que já se tornaram endêmicas no país: as “rachadinhas”.
O esquema, que consiste na devolução de parte do salário do funcionário para o político, desvia recursos que deveriam ser destinados a políticas públicas. Soma-se a isso a figura dos “funcionários fantasmas” — pessoas nomeadas que recebem sem trabalhar, muitas vezes residindo em outras cidades ou até em outros estados, servindo apenas como peças em um tabuleiro de clientelismo e desvio de verba pública.
Um Modelo de Exceção
O texto da realidade brasileira desenha um quadro onde o Estado não serve à população, mas sim a uma casta que se retroalimenta. O volume de benefícios é tamanho que a comparação com ditaduras não parece exagerada para muitos críticos: o uso da máquina pública para o enriquecimento pessoal e a manutenção de um status quo inalcançável para a maioria da população.
A reforma dessa estrutura esbarra, ironicamente, naqueles que detêm o poder de mudá-la. Enquanto a austeridade europeia for vista como uma realidade distante e o “balcão de negócios” brasileiro for a regra, o país continuará a ostentar um dos legislativos mais caros e menos eficientes do mundo democrático.
A pergunta que fica para o eleitor é: até quando o Brasil aceitará financiar uma monarquia disfarçada de democracia?





