
Nós, poetas, cordelistas, xilogravuristas, pesquisadores, educadores e agentes culturais do Rio Grande do Norte, reunidos na delegação potiguar presente no 1º Congresso Brasileiro de Cordel, dirigimo-nos aos participantes deste encontro histórico para compartilhar nossas reflexões, reafirmar nossas lutas e somar forças na construção de um movimento nacional forte em defesa do cordel como parte viva da literatura brasileira.
Chegamos a Recife trazendo na bagagem a memória dos mestres, a força da poesia cordeliana e o compromisso de continuar a luta pela valorização do cordel em todo o país.
O reconhecimento do cordel como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil representa uma conquista histórica do povo brasileiro e, especialmente, dos poetas que durante décadas mantiveram viva essa tradição literária nas feiras, nas praças e nos mercados.
Mas essa conquista não veio de presente. Foi resultado de uma longa caminhada de resistência.
O cordel nasceu na feira,
No mercado e na estação,
Na mala de um folheteiro,
No peito da tradição.
Foi na luta do poeta
Que ganhou consagração.
Durante muito tempo o cordel foi marginalizado pela história oficial da literatura brasileira. Considerado por muitos apenas como folclore ou curiosidade regional, permaneceu à margem das instituições culturais e acadêmicas.
No entanto, foi exatamente nessas margens que essa literatura floresceu, alimentada pela criatividade popular, pela crítica social e pela capacidade do povo de transformar sua realidade através da poesia.
Poetas foram perseguidos, censurados, açoitados e até presos por levarem seus versos às ruas e às feiras. Mesmo assim, continuaram escrevendo, imprimindo e distribuindo seus folhetos.
Muitos mestres do cordel
Sofreram perseguição.
Mas nunca soltaram o verso,
Nem venderam a criação,
Porque sabiam que a arte
Também é libertação.
Graças à persistência dessas gerações de poetas, pesquisadores e amantes dessa arte, o cordel conquistou reconhecimento nacional e internacional.
Mas ainda estamos longe de garantir ao cordel o lugar que ele merece na vida cultural e educacional do país.O cordel continua sendo pouco valorizado nas políticas públicas de cultura. Os investimentos destinados à cultura no Brasil permanecem insuficientes e, dentro desse cenário, as manifestações culturais populares são frequentemente as mais negligenciadas.
Nas universidades brasileiras, o cordel ainda ocupa um espaço extremamente limitado. A maioria dos cursos de Letras, Pedagogia e Artes não inclui o estudo sistemático desse gênero literário em seus currículos.
Milhares de professores se formam sem conhecer profundamente essa tradição literária, que constitui uma das mais ricas expressões da cultura brasileira.
Se o Cordel não entra em sala,
Nem figura no saber,
Muitos mestres se formaram
Sem jamais compreender
Que essa poesia do povo
Também ensina a viver.
Esse distanciamento acadêmico contribui para que o cordel seja pouco trabalhado nas escolas, justamente no espaço onde poderia desempenhar um papel fundamental como ferramenta pedagógica, instrumento de alfabetização cultural e meio de valorização da identidade de um povo.
Mesmo em grandes eventos literários, como feiras e bienais do livro, o cordel ainda aparece muitas vezes como elemento periférico, quase como curiosidade exótica, e não como parte integrante da literatura brasileira.
Vivemos também em um tempo em que a cultura é frequentemente tratada apenas como mercadoria, subordinada às lógicas do mercado e da indústria do entretenimento.
Mas, para nós, a cultura não é adorno nem luxo.
Cultura é trabalho humano, criação coletiva, memória social e invenção de novos horizontes.
Cultura nasce no povo,
Na criação e no canto,
Na xilogravura entalhada,
Na história coberta em manto.
Não se mede por dinheiro,
Nem vitrine para espanto.
O cordel é uma das expressões mais vivas dessa dinâmica cultural. Ele dialoga com outras linguagens artísticas, como a música, o teatro, o cinema e a xilogravura, e cumpre um papel fundamental na formação crítica da sociedade.
Por essa razão, defendemos que o cordel seja reconhecido plenamente como um gênero da literatura brasileira, com lugar garantido nas políticas públicas de cultura e educação.
A delegação potiguar presente neste congresso acredita que este momento histórico deve servir para construirmos uma agenda nacional de valorização do cordel, baseada em políticas públicas permanentes e estruturantes.
Entre as medidas fundamentais para o fortalecimento do cordel no Brasil, destacamos:
• A inserção sistemática do cordel nos currículos da educação básica e do ensino superior;
• A criação de cordeltecas em escolas e bibliotecas públicas;
• Programas de formação continuada para professores no ensino do cordel;
• A criação de núcleos de estudos do cordel nas universidades;
• Programas públicos de editoração, publicação e distribuição de folhetos;
• Editais permanentes de financiamento para projetos de cordel;
• Proteção aos direitos autorais dos poetas;
• Cadastro nacional de poetas, pesquisadores e xilogravuristas;
• Festivais, feiras, encontros e bienais de cordel integrados ao calendário cultural do país;
• Valorização da xilogravura e do repente.
Reconhecendo também a contribuição histórica das mulheres para a arte cordeliana, muitas vezes invisibilizada ao longo do tempo, defendemos a adoção de políticas que garantam a valorização, a visibilidade e o protagonismo das mulheres cordelistas e xilogravuristas.
Se o verso é resistência
E a xilo é o entalhe,
Que a mulher tenha presença,
Que a sua voz nunca falhe.
Pois, na rima e na madeira,
Nossa luta é verdadeira,
Mais que um mero detalhe.
Nesse sentido, propomos:
• Consolidação da paridade como política cultural: adoção de critérios de paridade entre poetas e poetisas na composição de mesas, festivais, coletâneas e eventos literários, bem como a garantia de espaços para xilogravuristas mulheres, contribuindo para superar a invisibilidade histórica dessas artistas.
• Soberania narrativa e reparação histórica: incentivo a projetos editoriais, educativos e de pesquisa que resgatem a trajetória e a biografia de mulheres fundamentais para a nossa cultura, garantindo que suas histórias sejam narradas, pesquisadas e ilustradas preferencialmente por mulheres, fortalecendo a perspectiva feminina na produção cultural.
• Observatório Nacional da Produção Feminina no Cordel: criação de um recorte de gênero dentro do cadastro nacional de poetas, cordelistas e xilogravuristas, permitindo mapear, registrar e divulgar a produção das mulheres no cordel, facilitando o intercâmbio cultural, a circulação de obras e a contratação em eventos literários em todo o país.
• Desenvolver campanhas de conscientização em formato de cordel voltadas à promoção dos direitos das mulheres, ao combate à violência de gênero e ao fortalecimento do empoderamento feminino.
Também defendemos que o poder público utilize o cordel como instrumento de comunicação popular em campanhas educativas sobre saúde, meio ambiente, cidadania e direitos sociais.
Se o Cordel falar ao povo
Sobre saúde e educação,
A poesia vira ponte
De saber e informação,
Porque verso bem rimado
Também planta solução.
As políticas públicas de cultura precisam ser construídas de forma democrática, com participação efetiva dos artistas, pesquisadores e movimentos culturais.
O Estado não é o produtor da cultura, mas deve garantir as condições necessárias para que ela floresça por meio de investimento público, infraestrutura cultural e acesso democrático aos bens culturais.
Por isso, reafirmamos que o fortalecimento do cordel depende da articulação entre movimentos culturais, universidades, escolas, instituições públicas e sociedade civil.
Ao participarmos deste 1º Congresso Brasileiro de Cordel, trazemos a voz das terras potiguares e reafirmamos nosso compromisso com a construção de um movimento cordeliano cada vez mais forte, plural e democrático.
Subscrevemos e nos somamos à Carta do Recife, que expressa muitas das bandeiras aqui defendidas.
Seguimos inspirados pelos mestres que abriram os caminhos antes de nós.
O cordel é nossa chama
Que não para de brilhar.
É memória, é resistência,
É poesia no altar.
Enquanto houver poeta,
Essa arte vai lutar.
Delegação do Rio Grande do Norte ao 1º Congresso Brasileiro de Cordel:
Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel – ANLIC-RN; Academia Mossoroense de Literatura de Cordel – Mossoró-RN; Academia de Trovas do Rio Grande do Norte – RN; Associação Cultural Casa do Cordel – Natal-RN; Ponto de Memória Estação do Cordel – Natal-RN; Ponto de Memória e Cultura Sinhá Rita – Carnaúbas dos Dantas-RN; Movimento Ave de Rapina – Mossoró-RN; Cordelutas – Natal-RN; Arara Vermelha – Macau-RN; Movimento Popular Escambo Livre de Rua – Umarizal-RN; Coletivo UZL Alternativo – Umarizal-RN







