
Mapeamento inédito realizado pela FUNCITERN aponta que 80% das famílias indígenas em contexto urbano na capital potiguar vivem com até um salário-mínimo; a maioria enfrenta fome e falta de serviços básicos.
Um novo relatório técnico-científico, intitulado “Mapeamento e Diagnóstico Socioeconômico de Indígenas não Aldeados em Contexto Urbano na Cidade do Natal (2024)”, traz à luz a realidade crítica de uma população muitas vezes ignorada pelo poder público: os indígenas que vivem fora de terras demarcadas, inseridos na mancha urbana da capital potiguar.
O estudo, executado pela FUNCITERN em convênio com a Prefeitura do Natal, mapeou 52 famílias (totalizando 204 pessoas) pertencentes às etnias Potiguara Mendonça, Tapuia Paiacu e aos refugiados venezuelanos da etnia Warao. A pesquisa revela que essa população está concentrada majoritariamente em bairros periféricos da Zona Norte, como Nossa Senhora da Apresentação, Lagoa Azul e Igapó, em áreas de alta vulnerabilidade socioespacial.
Retrato da Miséria
Os dados econômicos são alarmantes. Segundo o diagnóstico, 80% das famílias estudadas vivem com uma renda mensal de até um salário-mínimo, sendo que mais de 40% sobrevivem com menos de meio salário. Essa precariedade financeira reflete diretamente na mesa: 72,2% das famílias entrevistadas relataram preocupação de que os alimentos acabassem antes que tivessem dinheiro para comprar mais. Em 55,6% dos casos, a comida de fato acabou em algum momento nos últimos meses.
A dependência de programas sociais, como o Bolsa Família, é quase total. Para 93,1% dos beneficiários, esse recurso é considerado “muito importante” para a sobrevivência mínima do núcleo familiar.
Abandono nas Periferias
O relatório também avaliou a percepção dos indígenas sobre os serviços públicos e a infraestrutura dos bairros onde residem. O cenário é de desolação:
⮞ Saúde: 66,7% classificam a saúde pública no bairro como “péssima”.
⮞ Educação: 50% avaliam a educação pública como “péssima”.
⮞ Infraestrutura: A maioria vive em áreas sujeitas a alagamentos (51%), próximas a lixões (51,3%) ou em assentamentos precários.
Além das carências materiais, o estudo aponta o “racismo ambiental” e a discriminação étnico-racial como barreiras invisíveis que dificultam o acesso a empregos dignos e serviços de qualidade. No caso dos Warao, que vivem em abrigos fornecidos pela prefeitura nos bairros Potengi e Felipe Camarão, a situação de vulnerabilidade é agravada pela condição de refúgio e barreiras linguísticas.
O Desafio das Políticas Públicas
Historicamente, as políticas indigenistas no Brasil focaram em populações aldeadas. No entanto, o fluxo migratório para as cidades — motivado pela busca por emprego ou pela expulsão de suas terras originárias — criou uma nova demanda que o Estado ainda não consegue suprir.
“A migração indígena para as cidades é frequentemente motivada pela busca de melhores condições de vida, mas essa transição expressa profundas desigualdades socioespaciais”, afirma o texto do relatório.
O diagnóstico conclui que é urgente a criação de políticas públicas específicas que garantam o reconhecimento oficial dessas comunidades urbanas. Sem visibilidade e dados concretos, essas famílias continuam presas a ciclos de pobreza e exclusão social, mesmo dentro da maior cidade do Rio Grande do Norte.
Dados Adjacentes do Relatório:
⮞ População mapeada: 204 pessoas.
⮞ Principais etnias: Potiguara Mendonça (49 famílias) e Warao (13 famílias).
⮞ Localização principal: Bairro Nossa Senhora da Apresentação (Zona Norte).
⮞ Escolaridade: Grande parte dos adultos (especialmente entre os Warao) possui ensino fundamental incompleto ou nenhuma escolaridade formal.
Diante desse diagnóstico de exclusão, percebe-se que a capital potiguar abriga uma complexidade cultural que a gestão pública ainda não consegue traduzir em dignidade social. O relatório da FUNCITERN revela que, embora a cidade se pretenda moderna, ela ignora o fato de que, em suas periferias e abrigos, em Natal se fala quatro línguas: o português brasileiro, o Warao, o Tupi e o Yorub. A coexistência desses idiomas — o Warao dos refugiados, o Tupi dos povos originários como os Potiguara, e o Yorubá das matrizes africanas que ecoam nos mesmos territórios de vulnerabilidade — compõe uma poliglotia da resistência que sobrevive à margem do asfalto.
Contudo, enquanto essas vozes mantêm viva a ancestralidade e a identidade da cidade, seus falantes enfrentam a fome e o “racismo ambiental”, evidenciando que o reconhecimento dessa Natal multilíngue e pluriétnica é o primeiro passo urgente para que a “invisibilidade” estatística dê lugar a políticas públicas que garantam o direito básico de existir e de se alimentar.
Gealdo Barboza – Antropólogo, professor, pesquisador, escritor e ativista socioambiental.





