Grande parte da história do Brasil permanece ausente das salas de aula. A narrativa oficial da colonização costuma começar com Pedro Álvares Cabral, ignorando que, antes da chegada europeia, este território já era habitado por inúmeros povos, etnias e culturas com sistemas próprios de organização social, política e espiritual. O processo colonial significou o sequestro de povos, o apagamento de saberes e a construção de uma dívida histórica que, até hoje, não foi reparada.
As desigualdades sociais que marcam o Brasil contemporâneo não surgiram ao acaso. Elas estão diretamente relacionadas à concentração de poder econômico nas mãos de grupos familiares que, historicamente, controlam o patriarcado financeiro e influenciam decisões políticas, jurídicas e sociais. Esse domínio se sustenta por meio de estratégias coletivas que envolvem interesses financeiros, ideológicos e religiosos.
O favoritismo estrutural existente no país não é fruto de opinião ou percepção subjetiva. Trata-se de um fato amplamente analisado pelas ciências sociais, pela ciência política e pela antropologia. O racismo estrutural se expressa de forma concreta, por exemplo, na composição majoritariamente negra e periférica da população carcerária e nas condições impostas às populações pretas, pardas, indígenas, comunidades tradicionais e moradores das periferias urbanas.
A ideia de “desenvolvimento” adotada historicamente no Brasil está associada à expansão financeira e à exploração dos territórios. Esse modelo avança sobre florestas, praias, cidades e comunidades, gerando destruição ambiental, expulsão de populações e aprofundamento das desigualdades. Ter consciência desse processo não significa adotar uma ideologia específica, mas reconhecer dados, evidências históricas e análises científicas sobre seus impactos.
No cotidiano, esse sistema se reflete na vida da maioria da população brasileira, composta por trabalhadores e trabalhadoras que recebem salários insuficientes, enfrentam jornadas exaustivas e têm pouco ou nenhum acesso ao chamado “bem viver”. Ao mesmo tempo, cresce a ilusão de ascensão social baseada na reprodução dos símbolos da elite econômica, como consumo, moda e estilo de vida, mesmo quando esse modelo é inalcançável para a maioria.
Essa lógica de adaptação a um sistema desigual é frequentemente representada na cultura popular. O filme Matrix, por exemplo, tornou-se uma metáfora do funcionamento de uma sociedade que exige conformidade para sobreviver, mesmo que isso resulte em adoecimento, colapsos ambientais, conflitos armados e crises humanitárias. Hoje, nem mesmo instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas, conseguem conter plenamente os interesses geopolíticos e econômicos estabelecidos no pós-guerra.
É nesse cenário que emergem figuras como o “pobre de direita” e, mais recentemente, o “pobre de centro”, que defende uma suposta neutralidade política. No entanto, a história demonstra que não há avanço social sem o enfrentamento direto das estruturas de exploração e opressão. A ausência de posicionamento, na prática, reforça o status quo.
A sociedade que defende educação, cultura, diversidade e direitos humanos foi responsável por conquistas fundamentais da democracia brasileira. Diferentemente do que se tenta narrar, essa parcela da sociedade não promoveu golpes, não organizou atentados, não atacou o processo eleitoral nem protagonizou invasões às instituições democráticas. Os episódios recentes de violência política e ataques à democracia têm origem identificável em setores da direita e da extrema-direita.
Esse contexto torna especialmente contraditória a presença de candidaturas LGBTQIAPN+ alinhadas a projetos políticos conservadores. A população LGBTQIAPN+ carrega um histórico de décadas de perseguição, violência e assassinatos impulsionados justamente por discursos baseados na defesa da “família tradicional”, na negação da diversidade e na imposição de padrões morais. A negação da LGBTQIAPN+fobia, a defesa da chamada “cura gay” e a perseguição às pessoas trans seguem presentes nesse campo político.
Antes de qualquer projeto eleitoral, a política exige compromisso com o bem coletivo. Não há neutralidade possível. A democracia se sustenta na pluralidade de partidos e ideias, mas também na clareza de projetos. Progresso não pode ser confundido com destruição ambiental ou exclusão social. Progresso, no sentido mais amplo, é garantir o direito à vida, à existência e à dignidade para todes.








