O grito ecoou na assembleia, um rugido vibrante de um pequeno setor que tentou inflamar o restante da categoria. Mas quem gritava era o setor governista, celebrando o desfecho da greve. Curioso, não? Durante todo o movimento, suas vozes ficaram caladas. Não tiveram força para bradar: “Se não pagar o que deve, a greve vai continuar!” ou “Governo caloteiro, cadê nosso dinheiro?”. Ficaram à margem, esperando o momento certo para decretar o fim da resistência.
Já conhecemos essa cartilha. Sempre que a greve se aproxima do fim, a diretoria do SINTE muda as assembleias de lugar, levando-as para espaços que não são tradicionais da categoria. Chamam figuras que nunca pisaram em assembleias anteriores. Tudo parte do ritual de uma direção mais comprometida em salvar o governo do que em garantir as conquistas da categoria.
Mas nós não esquecemos como tudo começou. A direção tentou retardar a deflagração da greve, alegando que o carnaval atrapalharia a mobilização. Mas a categoria, em assembleia, deu a resposta: era hora de lutar! E assim foi feito.
Foram 30 dias de greve, 21 deles letivos. Uma paralisação sem a força necessária de uma direção sindical que não estava disposta a enfrentar de fato o governo. Poucas ações de rua foram organizadas, e a única de maior impacto ocorreu apenas em 27 de março – mesmo assim, sem a participação da Regional de Mossoró, que simplesmente desistiu de trazer sua delegação. Em outros momentos cruciais, como na visita do Ministro da Educação, a presença da categoria foi reduzida. A greve precisava de pressão nas ruas para romper a intransigência do governo. Mas havia uma pedra no meio do caminho: uma direção governista, mais preocupada em não desgastar a imagem do governo da ex-professora.
O governo, arrogante, insistia no discurso de que nada podia ser feito, que o Ministério Público impedia qualquer pagamento de retroativos. Ofereciam um reajuste indigesto: 1,27% em abril, 4,84% em dezembro. A categoria não aceitou. Sabíamos que a greve não era apenas sobre o reajuste, mas também sobre o pagamento imediato de um terço de férias, do restante do 13º dos professores seletistas, das gratificações de diretores das escolas, da valorização dos funcionários administrativos com o Plano de Carreira, da reforma das escolas.
Quando o entulho imposto pelo MP foi removido, o governo passou a criar novos obstáculos. Agora era a PGE que alegava a impossibilidade de pagar os retroativos, sob a justificativa de que a sentença do STF era parcial. Além disso, argumentava que o estado não dispunha de recursos para quitá-los. Na última negociação, chegou a insinuar que o estado estava à beira da falência.
A greve moldou a pauta. O governo dirá que aceitamos sua proposta, mas a verdade é que ela foi fruto da nossa luta. Devemos reconhecer a coragem de cada um que enfrentou essa batalha.
Quem acompanhou as negociações sabe como foi o processo. Na última, o governo deixou transparecer o impacto das tratativas na Prefeitura de Natal, quando Pedro Melo afirmou que o estado estava disposto a fazer um acordo nos mesmos moldes do que foi feito na prefeitura. Foi desse debate que surgiu, após muita discussão, a proposta de 5% em abril e o reajuste de 1,27% antecipado para junho.
Sabíamos que, na última assembleia, quem defendia a continuidade da greve o fazia porque não aceitava a indefinição sobre os retroativos, cuja negociação ficou empurrada para novembro. A luta era solidária, buscando garantir direitos para toda a categoria – funcionários administrativos, professores seletistas, diretores de escolas. Mesmo que muitos desses setores não tenham participado ativamente, os grevistas ergueram suas bandeiras.
O primeiro golpe contra a greve foi a ameaça aos professores seletistas. Alegaram que eles não poderiam aderir ao movimento. A direção sindical hesitou, e foi a assembleia que precisou pressionar por uma reunião específica. Quando, finalmente, os advogados do SINTE apresentaram os contratos assinados por esses profissionais, a revelação foi um escândalo: um documento forjado em 2010, inspirado nas maldades de Rogério Marinho, agora era usado como referência pelo governo petista. A greve expôs esse contrato escravagista. Rasgamos esse papel indigno, e o governo foi obrigado a recuar, comprometendo-se a refazer o contrato e criar um novo modelo daqui para frente.
A greve acabou. Como diz meu netinho: “Vovô, não tem problema”. Mas sabemos que o desmonte já havia começado na semana anterior, com regionais votando pelo retorno e alguns focos de resistência se enfraquecendo. O sentimento era de desgaste. Muitos disseram que fizeram o possível, que com essa direção sindical não dava para ir além.
Chegamos ao fim, mas a luta continua. Principalmente para garantir que as escolas tenham condições de funcionamento. Vamos vigiar. Se as aulas não começarem por falta de estrutura, transporte ou qualquer outro motivo, vamos denunciar. Gravem vídeos, registrem tudo. Eles tiveram mais de 30 dias para preparar as escolas. Agora não tem desculpa!
Fomos protagonistas da luta, da resistência, da teimosia justa dos que não se rendem. Voltamos ao trabalho de cabeça erguida, sabendo que o caminho é longo, mas necessário. Explicaremos pacientemente aos colegas que não aderiram à greve que, nas próximas batalhas, precisamos de todos na trincheira. Porque lutar vale a pena. E sempre valerá.
Por Nando Poeta – grevista, ex-membro da Comissão de Negociação representante da base, lotado na Seec/RN e Membro do Muda Sinte