
Enquanto cifras milionárias financiam megashows na capital potiguar, comunidades periféricas submergem em águas pluviais e esgoto, revelando a face cruel do racismo ambiental e a inversão de prioridades na gestão pública.
Natal, a “Noiva do Sol”, tem enfrentado dias de cinza e lama. As recentes chuvas que castigaram a capital potiguar não apenas transbordaram lagoas de captação; elas escancaram um abismo social que o marketing institucional tenta camuflar com luzes de LED e sistemas de som potentes. De um lado, o anúncio de cachês astronômicos para artistas de renome nacional; do outro, o choro de famílias que perdem o pouco que têm para o avanço das águas em bairros esquecidos pelo poder público.
A Política do Espetáculo
A máxima romana Panem et Circenses (Pão e Circo) nunca foi tão atual. A estratégia é secular: oferecer entretenimento de massa para distrair a população dos problemas estruturais e da ausência de direitos fundamentais. Em Natal, essa prática ganha contornos de crueldade quando confrontada com o orçamento público.
Nos últimos meses, a capital testemunhou investimentos vultosos em eventos festivos. Embora a cultura seja um direito e o lazer um componente da saúde mental, a conta não fecha quando o “show” acontece a poucos quilômetros de ruas onde o saneamento básico é uma promessa de décadas. O custo de um único evento de grande porte seria capaz de financiar obras de drenagem críticas ou a manutenção de unidades de saúde que operam no limite.
Necropolítica e o Direito à Vida
Para entender o que ocorre em Natal, é preciso recorrer ao conceito de necropolítica, cunhado pelo filósofo Achille Mbembe. O termo descreve como o Estado decide quem deve viver e quem pode ser deixado para morrer (ou viver em condições subumanas).
Quando a gestão municipal opta por destinar recursos para o efêmero — o show que dura duas horas — em detrimento da habitação segura e da infraestrutura urbana, ela está operando uma escolha política sobre quais corpos são dignos de proteção. As populações que habitam as áreas de risco, as encostas e as margens de lagoas saturadas são, em sua maioria, compostas por pessoas pretas e pardas, trabalhadoras da periferia. Para estas, o Estado se apresenta não através da engenharia civil, mas através da negligência.
O Racismo Ambiental sob a Lama
Os alagamentos recorrentes em bairros como Felipe Camarão, Nossa Senhora da Apresentação e as zonas baixas da cidade não são “desastres naturais”. São consequências do racismo ambiental. Este conceito explica como as injustiças sociais e ambientais recaem desproporcionalmente sobre populações vulnerabilizadas.
Enquanto áreas nobres da cidade gozam de sistemas de escoamento eficientes e rápida resposta estatal, a periferia de Natal é tratada como zona de sacrifício. O barro que invade as casas e destrói móveis, sonhos e a saúde (trazendo doenças de veiculação hídrica) é o mesmo que sela o destino de quem é empurrado para as margens geográficas da cidade. O racismo ambiental se manifesta na ausência de parques, na falta de moradias dignas e na aceitação tácita de que certas regiões “sempre alagam”.
A Inversão Necessária
Saúde, educação e moradia não são favores; são deveres constitucionais. Um ambiente saudável é pressuposto para a dignidade humana. O espetáculo do entretenimento não pode servir de cortina de fumaça para o sucateamento da rede de ensino ou para as filas nos hospitais.
A população de Natal, especialmente a que pisa no barro para chegar ao trabalho, precisa de mais do que apenas o “circo”. É necessário que o orçamento público reflita uma ética de cuidado com a vida, e não apenas uma estratégia de popularidade. Enquanto o brilho dos palcos for pago com o dinheiro que deveria garantir o chão seco das casas, a cidade continuará a encenar uma tragédia onde o papel de vítima já tem cor e endereço definidos.
É tempo de exigir que a drenagem das ruas seja tão prioritária quanto a montagem das estruturas de som. Afinal, uma cidade que só oferece festa para quem não tem onde morar não é uma cidade para todos; é um cenário de exclusão.
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Ilustração – IA (ChatGPT/DALL·E)








