
Enquanto o avanço das renováveis gera tensões em diversas regiões do Nordeste, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Ponta do Tubarão, no Rio Grande do Norte, destaca-se como um modelo de diálogo, preservação e convivência harmônica entre o progresso tecnológico e o modo de vida tradicional.
O cenário de transição energética no Brasil vive um paradoxo. De um lado, a urgência climática impulsiona a instalação de parques eólicos; de outro, comunidades tradicionais frequentemente se veem encurraladas por projetos que ignoram seu território e cultura. Diante desse “campo de disputas”, surge uma necessidade premente: a criação de mesas de diálogo permanentes entre empresas, Estado e sociedade civil. O objetivo é evitar o que o Conselho Pastoral da Pesca (CPP) classifica como “dinâmica colonial de exploração”, onde o lucro se sobrepõe às vozes locais.
No entanto, em meio aos conflitos, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual da Ponta do Tubarão (RDSPT) surge como um farol de esperança e um caso de sucesso que merece atenção do setor empresarial.
Um Modelo de Gestão Coletiva
Criada após uma mobilização histórica dos moradores contra a ocupação predatória de terras na década de 2000, a Reserva não é apenas uma área de proteção, mas um centro vivo de resistência e inovação. O sucesso do projeto reside na articulação entre diversos atores sociais. Parcerias sólidas com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Banco do Brasil, o Conselho Pastoral da Pesca (CPP) e os próprios Pescadores Artesanais transformaram a região em um polo de sustentabilidade.
A infraestrutura do local reflete esse esforço coletivo. A reserva conta com uma base de apoio completa para pesquisadores, incluindo alojamentos, laboratórios e administração, além de um amplo Centro Comunitário equipado com cozinha comunitária, voltado para reuniões e o fortalecimento do turismo de base comunitária.
Ciência e Natureza em Harmonia
Para além da pesca, a Reserva cumpre um papel vital na preservação da biodiversidade. O local é um santuário para o peixe-boi marinho, espécie ameaçada que é alvo de pesquisas científicas constantes. Essa integração entre o saber popular dos pescadores e o rigor acadêmico da UFRN demonstra que a conservação ambiental e o desenvolvimento social podem caminhar juntos.
O Exemplo da Convivência Harmoniosa
Um dos pontos mais sensíveis na expansão eólica é o bloqueio de acessos tradicionais ao mar. Contudo, em Ponta do Tubarão, a experiência com os parques Miassaba II e Alegria II mostra que a harmonia é possível. Diferente de outros territórios onde cercas impedem o trabalho dos pescadores, ali a relação é amistosa: as torres de energia não impõem entraves à circulação pelos caminhos ancestrais de acesso à praia.
Essa realidade prova que, quando as demandas dos pescadores não são ignoradas, a infraestrutura energética pode coexistir com a vida local. O planejamento bem-sucedido e a escuta ativa resultaram em uma gestão de conflitos exemplar, onde a preservação da restinga e das dunas convive com a geração de energia limpa.
Um Chamado ao Setor Privado
A experiência da Ponta do Tubarão deixa uma lição clara para os empresários do setor de energia renovável: o respeito à estrutura social e ao meio ambiente não é um obstáculo ao lucro, mas uma garantia de viabilidade a longo prazo.
É urgente que o exemplo de convivência de Ponta do Tubarão seja replicado. A transição energética só será verdadeiramente “limpa” se for socialmente justa, reconhecendo os pescadores como protagonistas de seus territórios e não como meros espectadores do progresso alheio. O diálogo, antes de ser uma escolha, é a única ferramenta capaz de construir um futuro sustentável para todos.





