
Em uma conquista inédita e carregada de simbolismo, a trajetória de Rosilda dos Santos rompe barreiras ao unir a vivência de mulher quilombola à academia, expondo, contudo, as fragilidades da inclusão real no ensino superior brasileiro.
A história de Rosilda dos Santos é um retrato vivo da resistência. Nascida na comunidade de Grossos, no município de Bom Jesus (RN), Rosilda trilhou um caminho marcado por privações que, para muitos, seriam intransponíveis. De menina que intercalava os estudos com o trabalho na roça e o cuidado com os irmãos, a mulher que, anos mais tarde, se tornaria Assistente Social e uma voz ativa na militância quilombola, sua trajetória é um exemplo de superação.
Em 2025, Rosilda alcançou um marco histórico e inédito: foi aprovada para o Mestrado em Antropologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ingressando (em 2026) através da política de cotas para quilombolas. Ao seu lado, outra colega também garantiu sua vaga por meio das cotas destinadas a populações de matriz afro-brasileira.
A conquista de Rosilda não é apenas uma vitória pessoal, mas um símbolo de reparação histórica. Como escritora quilombola, ela utiliza sua vivência para registrar a cultura de seu povo, dando visibilidade e protagonismo à história das comunidades tradicionais, historicamente mantidas à margem da sociedade.
O abismo entre a lei e a prática
Entretanto, a chegada aos corredores da pós-graduação trouxe à tona uma realidade desconcertante. Para Rosilda e sua colega, a inclusão social, embora garantida “de direito” pelas leis de cotas, revela-se ausente “de fato”. A trajetória acadêmica tem sido marcada pelo isolamento: não há uma verdadeira integração com os demais colegas de turma, evidenciando que o acesso à universidade é apenas o primeiro degrau de uma luta mais longa.
Essa experiência reforça o que movimentos sociais apontam há anos: a democratização do ensino superior exige mais do que a abertura de vagas; ela demanda um ambiente de respeito e acolhimento que enfrente o racismo estrutural presente nas instituições.
Não é por acaso que o combate ao racismo e a promoção da igualdade racial ocupam o centro das discussões globais, sendo a proposta fundamental para o 18º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A história de Rosilda dos Santos, da infância na roça à sala de aula de um mestrado, é um lembrete contundente de que, embora as conquistas sejam expressivas, o caminho para uma sociedade inclusiva e antirracista ainda exige, acima de tudo, o reconhecimento da humanidade e do lugar de fala daqueles que, por séculos, foram silenciados.


