Enquanto o país chora o caso do cachorro “Orelha”, o campus universitário em Natal esconde uma rotina de abandono, envenenamentos e um desafio ambiental que envolve gatos, cães e a fauna silvestre do Parque das Dunas.
A recente onda de indignação que tomou conta das redes sociais e das ruas brasileiras após a brutal agressão ao cachorro Orelha reacendeu um debate urgente: até onde vai a crueldade humana contra seres indefesos? No entanto, para além dos casos que ganham os holofotes da mídia nacional, uma tragédia silenciosa e igualmente perversa desenrola-se diariamente nos corredores e matas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Em Natal, o cenário da barbárie não é um beco escuro, mas o centro do conhecimento. No campus central, que está encravado em uma Área de Preservação Ambiental (APA) vizinha ao Parque das Dunas, o equilíbrio entre a vida acadêmica e a preservação da vida animal está por um fio.
O Exército Invisível e os 60 Sobreviventes
Atualmente, estima-se que cerca de 60 animais vivam em situação de abandono no campus. Deste total, apenas um terço (cerca de 20 animais) já passou pelo processo de castração. A sobrevivência desses seres não depende de políticas públicas robustas, mas da persistência de um grupo de ativistas socioambientais formado por professores e servidores da própria instituição.
Estes voluntários retiram do próprio bolso e do pouco tempo livre os recursos para alimentar e cuidar de uma população heterogênea: desde colônias de gatos até uma matilha de quatro cães que se refugiou na mata, vivendo de forma feral.
“Inimigos em Casa”: O Envenenamento no Meio Universitário
O dado mais alarmante da denúncia, contudo, não é o abandono, mas a execução deliberada. Relatos frequentes apontam que o envenenamento de gatos e timbús (marsupiais nativos da nossa região) não é uma prática rara dentro da universidade. O choque maior reside na autoria: as suspeitas recaem sobre membros da própria comunidade universitária.
“É uma contradição insuportável. No lugar onde se ensina ética, ciência e humanidade, pessoas usam veneno para ‘resolver’ o que consideram um incômodo”, desabafa um dos ativistas que prefere não se identificar por medo de represálias. O envenenamento criminoso atinge não apenas os animais domésticos, mas ameaça o ecossistema do Parque das Dunas, uma vez que o timbú é peça fundamental na biodiversidade local.
Crime Ambiental e Responsabilidade
Vale lembrar que maltratar, ferir ou envenenar animais é crime previsto na Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98), com penas endurecidas recentemente pela Lei Sansão. Quando ocorre dentro de uma reserva ambiental ou área de preservação, o peso jurídico e moral da negligência é ainda maior.
O caso “Orelha” serviu para mostrar que o Brasil não tolera mais o sadismo contra animais. Mas a pergunta que fica para a sociedade potiguar e para a gestão da UFRN é: precisaremos de um “Orelha” local para que o abandono e o extermínio silencioso no campus sejam tratados como a prioridade que são?
A causa animal no RN não pode ser apenas uma hashtag de solidariedade a casos distantes; ela precisa de fiscalização, punição para os envenenadores e suporte institucional para os professores que, hoje, carregam sozinhos o peso de manter a humanidade viva dentro do campus.
Serviço:
Para ajudar o grupo de apoio aos animais da UFRN ou denunciar maus-tratos, entre em contato com as comissões de gestão ambiental da universidade ou órgãos de proteção ambiental.







