
Ao povo de Ceará-Mirim, aos gestores públicos e a todos que acreditam na força da nossa identidade.
Ceará-Mirim é mundialmente conhecida como a “Terra dos Verdes Canaviais”. Sua história é contada através da imponência das ruínas dos engenhos e da memória dos Barões que aqui reinaram no século XIX. No entanto, por muito tempo, essa narrativa foi escrita com apenas uma cor. Onde estavam as mãos que ergueram esses casarões? Onde estão as vozes daqueles que, mesmo sob o jugo da escravização, plantaram as sementes da nossa cultura?
Nós, que compomos a equipe de assessoria antropológica atuante neste território, escrevemos esta carta para dizer que Ceará-Mirim é muito maior do que as suas ruínas. Existe uma cidade pulsante, invisibilizada pelas políticas de turismo convencionais, que guarda em si o verdadeiro segredo do nosso desenvolvimento sustentável: a memória viva de nossas populações tradicionais.
Recentemente, provamos que é possível mudar esse jogo. Através de um trabalho árduo de assessoria em uma das comunidades quilombolas locais, alcançamos resultados que transformaram vidas. Não entregamos apenas relatórios; entregamos a Certificação Oficial da comunidade como remanescente de quilombo, um Plano de Desenvolvimento Local construído por eles e para eles, e uma Cartilha Histórico-Pedagógica que agora ensina nossas crianças que a história da resistência é motivo de orgulho, não de silêncio.
Mas este é apenas o começo.
Ceará-Mirim possui um tesouro humano que clama por reconhecimento e justiça. Por isso, propomos a consolidação da “Rota da Resistência”. Um projeto de turismo de base comunitária que não quer apenas “atrair turistas”, mas promover a dignidade e a economia solidária para:
⮞ As comunidades quilombolas de Coqueiros e Primeira Lagoa, com suas histórias de fuga e liberdade;
⮞ Duas comunidades indígenas, herdeiras ancestrais deste solo potiguar;
⮞ Dois terreiros de matriz africana, guardiões da espiritualidade e do patrimônio imaterial da Jurema Sagrada;
⮞ Nossos pescadores artesanais, que conhecem os segredos das águas;
⮞ E nossos assentados e agricultores familiares, que alimentam a nossa cidade com a força da reforma agrária.
O que estamos propondo não é um favor, é uma política de Estado.
Sugerimos que Ceará-Mirim institucionalize o apoio a esses grupos, garantindo assessoria multidisciplinar contínua e parcerias com instituições outras. É preciso que o turismo deixe de ser um espetáculo de “senhores e escravos” para se tornar uma plataforma onde o quilombola vende seu beiju, o indígena compartilha sua arte e o pescador guia o visitante pelo rio — tudo com autonomia e respeito.
O desenvolvimento sustentável de Ceará-Mirim depende do reconhecimento que o maior patrimônio não é o açúcar do passado, mas a resistência do presente. Ao se integrar a Rota da Resistência ao currículo das nossas escolas e às nossas políticas públicas, é dado um passo definitivo para sermos não apenas uma cidade histórica, mas uma cidade justa.
Ceará-Mirim tem pressa de se reencontrar com sua verdadeira identidade. Que a Rota da Resistência seja o caminho.
Geraldo Barboza de Oliveira Junior
Antropólogo








