
Pesquisa publicada na revista científica Kwanissa destaca a necessidade de integrar conhecimentos antropológicos e o “etnoconhecimento” para superar o racismo institucional e melhorar o acesso à saúde no Rio Grande do Norte.
No Rio Grande do Norte, cerca de 4000 famílias quilombolas, distribuídas em 41 comunidades – CERTIFICADAS – em 28 municípios, dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, um estudo recente revela que o atendimento a essa população ainda enfrenta barreiras invisíveis: o racismo institucional e a falta de diálogo entre a medicina convencional e a realidade sociocultural dessas comunidades.
Um artigo intitulado “ANTROPOLOGIA DA SAÚDE: Uma contribuição aos programas de assistência à saúde pública nas comunidades quilombolas no Estado do Rio Grande do Norte” traz uma análise crítica sobre como o sistema de saúde muitas vezes ignora as especificidades étnicas e culturais dos povos tradicionais.
O Desafio da Invisibilidade
Segundo o estudo, embora existam diretrizes como a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), sua implementação no estado ainda é incipiente. “O paciente negro é visto como não existente… este mecanismo ocorre revelando-se como uma das principais formas de o racismo se manifestar”, aponta o texto, citando o conceito de invisibilidade institucional.
A pesquisa destaca que doenças com forte incidência na população negra — como a anemia falciforme, hipertensão arterial, diabetes mellitus e leucopenia — muitas vezes não recebem o recorte étnico-racial necessário nos bancos de dados da saúde pública local, dificultando a criação de estratégias preventivas eficazes.
Antropologia como Ferramenta de Cura
A proposta central do estudo é o uso do relativismo cultural na saúde. Isso significa que profissionais de saúde devem ser capacitados para entender e valorizar o “etnoconhecimento”: o uso de remédios baseados na flora e fauna locais e as crenças tradicionais da comunidade.
“É preciso que os sistemas de saúde sejam vistos através de um viés no qual as variantes culturais não sejam ignoradas ou tratadas de forma pouco valorizada pelos profissionais”, afirma o pesquisador no artigo. A ideia não é substituir a medicina científica, mas criar uma “visão holística” que aproxime o médico do paciente quilombola, gerando confiança e maior adesão aos tratamentos.
Caminhos para o Futuro
Como conclusão, o estudo sugere a criação de um diagnóstico detalhado sobre as condições de saúde em cada comunidade do RN e a formação complementar de profissionais do Programa Saúde da Família em Antropologia da Saúde.
A expectativa é que, ao reconhecer a identidade quilombola e as desigualdades históricas, o estado possa finalmente efetivar o princípio da equidade do SUS, garantindo que o direito à saúde chegue, de fato, a todos os territórios tradicionais.
Detalhes da Publicação
Para quem deseja se aprofundar no tema, o estudo original está disponível para acesso acadêmico:
■ Título: Antropologia da Saúde: Uma contribuição aos programas de assistência à saúde pública nas comunidades quilombolas no Estado do Rio Grande do Norte.
■ Autor: Geraldo Barboza de Oliveira Junior.
■ Periódico: Kwanissa – Revista de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros (Universidade Federal do Maranhão – UFMA).
■ Identificação: São Luís, v. 4, n. 8, p. 363-377, jan/jun, 2021.
■ ISSN: 2595-1033.
■ Ilustração – IA (ChatGPT/DALL·E)








