Além do Silêncio: O Verdadeiro Papel do Homem na Luta Contra a Misoginia

Por séculos, a luta pelos direitos das mulheres foi vista como uma “pauta feminina”. No entanto, o avanço da violência e a banalização do ódio institucionalizado mostram que a mudança real só virá quando os homens assumirem sua responsabilidade no desmantelamento do patriarcado.

Durante anos, o Brasil assistiu a uma perigosa regressão civilizatória. Do topo da hierarquia do poder, discursos que reduziam mulheres a “fraquejadas”, que justificavam o assédio e que atacavam a dignidade de jornalistas e parlamentares tornaram-se rotina. A figura de um ex-presidente — cujas palavras ecoavam preconceitos profundos e que hoje enfrenta o peso da justiça — serviu como um catalisador para que o “homem comum” se sentisse autorizado a externalizar seu próprio machismo.

Essa banalização do mal não foi apenas retórica; ela se traduziu em estatísticas. Quando o discurso de ódio é validado pelas autoridades, a violência doméstica, o feminicídio e a misoginia digital ganham terreno. Diante desse cenário, surge a pergunta urgente: qual é, afinal, o papel do homem nesta luta?

O fim da cumplicidade silenciosa

O primeiro e mais importante papel do homem não é erguer bandeiras em passeatas, mas sim romper o pacto de silêncio entre pares. A misoginia sobrevive em ambientes exclusivamente masculinos: no grupo de WhatsApp, no balcão do bar, no vestiário.

O “homem aliado” é aquele que confronta o amigo que compartilha fotos íntimas sem consentimento, que silencia a piada machista e que não aceita o comportamento abusivo de outros homens. O silêncio diante da violência alheia é, na prática, uma forma de conivência.

A desconstrução da “Masculinidade Tóxica”

O modelo de masculinidade que o poder autoritário tentou resgatar nos últimos anos é baseado na dominação e na força. O verdadeiro papel do homem moderno é entender que o feminismo não é um ataque à sua existência, mas um convite à libertação de um papel social asfixiante.

Combater a misoginia exige que o homem reconheça seus privilégios. Isso significa ouvir mais e falar menos quando o assunto é a dor e a vivência feminina. Não se trata de ser um “herói” ou um “salvador” de mulheres, mas de ser um sujeito que não as agride, não as diminui e não as interrompe.

Educação e Exemplo: O Legado Contra o Ódio

A história recente nos ensinou que discursos de líderes políticos têm o poder de moldar o comportamento de gerações. Se um governante banaliza o estupro ou a desigualdade salarial, ele envia uma mensagem para jovens e crianças de que mulheres são seres inferiores.

O papel do homem na luta feminista passa, obrigatoriamente, pela educação de outros homens. Pais precisam ensinar seus filhos sobre consentimento, sobre a divisão equânime do trabalho doméstico e, acima de tudo, sobre o respeito absoluto à autonomia feminina.

Apoio às Políticas Públicas e Justiça

A luta contra a violência não se faz apenas com boas intenções. Homens devem ser aliados na defesa de leis rigorosas, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, e não tentar flexibilizá-las sob o pretexto de um “falso moralismo”.

O fato de lideranças políticas que promoveram o ódio estarem sendo responsabilizadas perante a lei é um marco pedagógico. Mostra que a impunidade para a misoginia está com os dias contados, mas a vigilância deve ser constante.

Conclusão

O feminismo não precisa que os homens sejam seus protagonistas; esse lugar pertence às mulheres. O que o movimento exige — e o que a sociedade democrática necessita para sobreviver — é que os homens deixem de ser o problema para se tornarem parte da solução.

Combater a misoginia não é um favor feito às mulheres, é um dever ético de quem deseja viver em uma sociedade justa. Se o passado recente foi marcado por palavras que ferem, o futuro precisa ser construído por atitudes que curam e respeitam. A verdadeira masculinidade não se prova pelo grito ou pela opressão, mas pela capacidade de reconhecer a igualdade em cada ser humano.

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