Um país de urtigões

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por NILO EMERENCIANO // arquiteto e escritor

Estamos a quilômetros de distância do homem brasileiro cordial que os sociólogos falavam, nos atestando as características de afabilidade e doçura.

A patroa que largou a criança da sua empregada sozinha no elevador do prédio em Recife, resultando na sua morte, talvez seja mais emblemática da nossa sociedade do que imaginamos. Os títulos dos livros mais vendidos dão uma pista, sendo “A Arte Sutil de Ligar o Foda-se” um best seller há semanas. Outros mais vendidos da semana: “O Homem mais Rico da Babilônia”; “Do Mil ao Milhão”; “Pai Rico, Pai Pobre”; “Quem Pensa Enriquece”; “Seja Foda”; “Os Segredos da Mente Milionária”. Dá pra perceber alguma coisa? Algo em comum? São um novo tipo de literatura de autoajuda, agora centrada no sucesso financeiro e no descaso pelo destino dos outros. Isso tudo está fazendo de todos nós um pouco Urtigões.
Desenho: Napoleão Figueiredo/História em Quadrinhos
Urtigão é um dos muitos personagens de Walt Disney. É um velho ranheta, baixinho, reacionário, brabo, tabaréu, sempre armado com uma velha espingarda de dois canos pronta para disparar contra qualquer um que se aproxime do seu rancho. A barba enorme e os pés descalços deixam bem claro a sua falta de contato com a cidade e com pessoas. Mora no Brejo das Urtigas isolado do mundo e sua única companhia é um cachorro dorminhoco chamado… Cão.  Qualquer estranho é uma ameaça à sua segurança pelo simples fato de ser alguém de fora, desconhecido. Aliás, as palavras forasteiro, estrangeiro, intruso, têm todas a mesma raiz etimológica. A reação de Urtigão, na verdade, demonstra o medo que temos do novo, das diferenças e do que não compreendemos. E de qualquer coisa que venha ameaçar a nossa individualidade, ou abalar as estruturas do castelo em que pretendemos nos fechar. Daí para a intolerância e violência é um pequeno salto.
Temos vivido nesses dias episódios extremos de intolerância violenta.  Um homem disparou três tiros sobre um vizinho que se aproximava da entrada do condomínio em que morava depois de uma jornada de trabalho. Não houve a menor provocação ou comportamento duvidoso por parte da vítima. Sua culpa? O fato de ter a pele escura, se tornando, portanto, por isso, uma figura suspeita, ameaçadora, perigosa. Durval Teófilo Filho, seu nome, pai de uma garota de seis anos, foi abatido por ser negro. Como faria Urtigão, o homem atirou primeiro e perguntou depois.
Em Vila Velha, no Espírito Santo, Praia de Itapoã, duas jovens amigas faziam topless na praia quando foram detidas e carregadas para a delegacia, segundo a polícia, por ter havido denúncias de moradores da região. Na delegacia foram algemadas pelos pés sem maiores explicações ou justificativas. Uma delas, Beatriz Coelho, produtora cultural, narra que somente mais de duas horas depois foram liberadas sem qualquer registro ou orientação. Apenas mais um caso de sadia nudez sendo castigada pela intolerância.  
A cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro, sempre linda com certeza, lugar de samba, pagode, carnaval, de grandes artistas negros, que recebe gente de todas as partes do mundo, foi palco de mais uma tragédia inaceitável. Um imigrante congolês, há seis anos no Brasil, foi espancado impiedosamente até a morte. Depois foi amarrado como um animal, ou talvez um animal tivesse melhor tratamento. Isso não aconteceu em uma favela, mas em plena Barra da Tijuca, zona sul, bairro de classe média alta, à luz do dia, em um quiosque de praia. Moïse Kabagambe, de 24 anos, não estava assaltando nem ameaçando ninguém. Estrangeiro, preto, pobre, esses os seus crimes, sem dúvida. 
Vão receber as homenagens tardias de sempre, as desculpas das autoridades, as placas, os protestos dos movimentos sociais. E o abismo social que está na base de tudo isso continua fora de discussão. Como fora da discussão permanecem a homofobia (as jovens presas são lésbicas), a misoginia, o racismo e a xenofobia implícitos no comportamento violento desses brasileiros. Essa violência se revela nos altos muros dos condomínios, nas cercas eletrificadas, nos cães treinados para a ferocidade, nos adesivos escuros nos automóveis, nas empresas de segurança armada, nas portarias onde somos obrigados a deixar objetos ou mostrar o conteúdo das bolsas, mas principalmente no comportamento agressivo de uns para com os outros estimulado pela postura de quem nos governa.
No domingo, o jovem Yago foi preso ao comprar pão e passou dois dias encarcerado. O delegado explicou: “Estava no lugar errado na hora errada”. Talvez seja a polícia errada, o país errado, a mentalidade errada. No mesmo dia, na praia da Bica, na Ilha do Governador, RJ, um homem fez disparos de arma de fogo contra fieis que realizavam um ritual religioso para Iemanjá, além de chamá-los, aos gritos, de macacos, macumbeiros e demônios. Urtigão aplaudiria.
Alguma coisa muito errada em tudo isso. Alguma coisa está fora da ordem. Nossa indignação vai durar enquanto esses fatos forem notícia nas mídias e logo desaparecer frente às notícias novas. Deslizamentos, BBB, Copa do Mundo, candidatos se atacando, Putin jogando pesado, e, como dizia Manoel Bandeira em Rondó dos Cavalinhos, nós, cavalões, comendo…

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