Gente jovem reunida

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Cena do filme Hair (1979)

 

É comum ouvir reclamações de casais amigos quanto aos filhos adolescentes, chamados até, de forma cruel, de aborrescentes. Ou aqueles comentários nostálgicos tipo: “antigamente havia mais respeito”, “no meu tempo era na chinelada”, “essa rapaziada tá sem jeito”, “essa garotada de hoje…”

Há alguma verdade nisso? Talvez. Na minha casa havia os dois símbolos da autoridade paterna, a palmatória (uma peça de madeira redonda com um longo cabo) e a peia de couro, ambos pendurados atrás da porta do quarto. Mas confesso que não me lembro de ter passado por um castigo desse tipo, não que não merecesse. É que o temperamento conciliador de meu pai não fechava com esse tipo de coisa. As peças, então, tinham um caráter apenas intimidador. Levei apenas alguns poucos crocs. Acho que saí no lucro, que bom.
A verdade é que adolescentes sempre foram mal compreendidos. Há textos gregos de antes de Cristo, em que os adultos se queixam dos filhos rebeldes. Nos anos 1950 havia a juventude transviada, os beatniks, a geração perdida de Charles Bukowski. Na década seguinte os hippies contestaram todos os valores vigentes e pregaram a paz, o amor livre, a cor, a música e a vida alternativa. Logo depois surgiu a contracultura, ou sociedade alternativa, cantada no Brasil por Raul Seixas – “faz o que quiseres, pois é tudo da lei.” Em Paris, em 1968, os estudantes nas ruas enchiam as paredes com belos slogans criativos: “Sejam realistas, exijam o impossível”. “Decretado o estado de felicidade permanente”. “Corram, o velho mundo está atrás de vocês”. “A imaginação toma o poder”. “É proibido proibir”. Fico me perguntando onde estão esses garotos e se realizaram seus belos projetos.  
No Brasil, a TV Globo exibia todas as manhãs um programa para mulheres que abria com a música de Rita Lee, com letra por si só provocativa – “mulher é bicho esquisito/todo mês sangra”. Chamava-se TV Mulher (1980). Entre outros quadros havia um em que Marta Suplicy abordava sem meios termos temas como menstruação, orgasmo, masturbação, sexo seguro. A série Armação Ilimitada (1985), com Kadu Moliterno, André Biasi e Andrea Beltrão, mostrava um relacionamento a três bem resolvido, inclusive com a adoção de um garoto. Trisal, poliamor, seja lá como chamem, era tema avançadíssimo para os anos 1980 e continua sendo. Em nossos dias, 2022, temos para as mulheres um programa culinário tipo Cozinha Maravilhosa da Ofélia, apresentado por uma atriz que até alguns meses conversava com um papagaio. E para os jovens não tenho ideia do que rola.  Os canais de streaming? Mudou a TV ou mudamos nós?
O filme Laranja Mecânica (1971) foi censurado (assisti uma versão com bolinhas pretas cobrindo os peitos das meninas). Tratava de um grupo de adolescentes de comportamento porra-louca. Ou desbundado, como chamavam na época. Fizemos, nós, estudantes de arquitetura, uma peça de teatro sobre uma comédia medieval. Pois bem, uma besteira dessas, mas fomos obrigados a realizar um ensaio geral para a censura. Atividade séria era imprimir jornais e panfletos em mimeógrafos a álcool, distribuir os alternativos Opinião e Movimento, enfim, manter a chama nos amplos espaços do campus da UFRN. Editei um jornal chamado Em Tempo, de vida curta, abordando assuntos de arquitetura e política estudantil.
Sinto sobremaneira o silêncio das lideranças dos jovens de uns tempos pra cá. Os estudantes eram ponta de lança da resistência democrática. Foram às ruas em 1968 e em outras ocasiões, até a passeata dos 100 mil, enfrentando a polícia, tanques, gás lacrimogêneo, os cavalos, os cassetetes e o brucutu. Os diretórios eram ativos. Ali se aprendia a exercer a democracia. Do movimento estudantil local saíram Serginho Dieb e Fernando Mineiro, por exemplo. Alfredo Sirkis tinha 15 anos quando se iniciou na luta clandestina. José Dirceu, Vladimir Palmeira e José Serra vieram das passeatas contra o AI-5.
Talvez porque as coisas fossem mais claras e houvesse um adversário em comum. Talvez pela efervescência cultural da época, das ocorrências em Paris, da Guerra Fria, da guerra do Vietnã, de ícones como Ho-chi-min, Guevara, Debray. Talvez pelos cineclubes, as organizações pastorais, as músicas engajadas, a poesia de Dom Pedro Casaldáliga e Thiago de Mello. A coragem de dom Hélder. Talvez por tudo isso junto, inclusive o pensamento radical. Havia uma canção que dizia “Não confie em ninguém/ com mais de trinta anos”, imaginem.
Pois é. Quando escuto Renato Russo cantar que talvez os jovens não entendam os pais, penso que a minha geração tinha muito mais a entender que apenas os pais. Havia o país, um mundo, uma causa, um chamado, uma tarefa. Acho que por isso Brecht escreveu: “Vós, que surgireis da maré/em que perecemos/quando falardes das nossas fraquezas/lembrai-vos dos tempos sombrios/de que pudestes escapar”.
Foram tempos sombrios, sim, como sombrio é o tempo de agora. Se cuidem, portanto, e lembrem que o futuro está nas mãos de vocês todos.

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