Racismo frame por frame

Como é o Curupira que você conheceu? Por mais distorcido que tenha sido pelas aulas dos primeiros anos do Ensino Fundamental, acredito, veementemente, que não chega próximo ao que é apresentando no filme intitulado “Curupira: o demônio da floresta”, lançado em 2021, sob a direção de Erlanes Duarte. Uma versão totalmente distorcida e desrespeitosa de um dos nossos encantados foi exibida nas telas dos cinemas e certamente está rodando em alguma plataforma de streamming.

Na medida em que uma obra cinematográfica e literária caracteriza uma entidade de forma demoníaca, monstruosa e colonizada, a obra torna-se um desserviço e desrespeitosa. Pois, pensaram apenas em uma narrativa para ganhar atenção do público, sem haver preocupação e consideração com nossas crenças e o impacto desse filme para nós. São condutas típicas da colonização, além de seguirem com um agendamento político de etnocídio, ainda geram receitas com as vendas desses “produtos” racistas, porque o capitalismo não vai deixar barato; é preciso a apropriação cultural acontecer, para gerar lucro em cima dela!
Vi entrevistas e respostas com tal diretor, que tentativa justificar, sem êxito, que a produção em questão trata-se de uma ficção sobre uma história nossa, porque o folclore é nosso. E por esses motivos não apresentavam nenhuma agressão às crenças e entidades. Esse tipo de lógica colonizadora, que afeta constantemente nossas culturas e identidades por esse lado podre da indústria cultural, vem disseminando um racismo religioso em cada imagem de cena por segundo disparado na tela do espectador.
O filme traz uma narrativa que não faz sentindo nenhum para nós, povos indígenas, assim como a ideia de folclore que é sustentada todos os anos nas escolas – e isso é fruto da falta de formação docente. Trazem nossos encantados como lendas e mitos; essas concepções são oriundas da colonização, que visa a inferiorizar crenças que sejam distintas às impostas pelo cristianismo. 
É importante e urgente que produções artísticas de qualquer segmento sejam realizadas para potencializar e fortalecer nossas culturas. Essa perspectiva somente poderá ser realizada por nós mesmos, povos indígenas e negres. Pois, sabemos bem qual o resultado quando um branco inventa de produzir algo sobre nossos povos e o filme Curupira é o exemplo trágico, assim como tantas outras produções realizadas pelas mentes colonizadas e colonizadoras.
Vejo pessoas brancas se apropriando de contextos e narrativas indígenas e negres que não pertencem a elas, que não condizem com o lugar de falas dessas pessoas. Tais produções sobre narrativas desconhecidas são trabalhadas com distanciamento e só contribui para invisibilizar e subalternizar cada vez mais; não somente indígenas e negres, mas a periferia, LGBTQ+, povos de terreiro e tantos outros grupos acêntricos.
É preciso que haja conhecimento, respeito pelas diversidades e a compreensão de que não somos objetos de estudos e nem produtos culturais para autopromoção colonial!

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