Respeitável público!

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Foto: Os palhaços Arrelia, Pimentinha e Piolin. Autor não identificado. ca 1950. Acervo MIS (Museu da Imagem e do Som)

Em 2011 Selton Melo escreveu, dirigiu e atuou no filme O Palhaço. Ele e Paulo José encarnaram uma dupla de palhaços, pai e filho, em crise, lutando contra as dificuldades de manter viva a rica tradição do Circo Esperança. E aí se seguiu uma homenagem a velhos comediantes como Moacyr Franco, Ferrugem, Tonico Pereira, Jorge Loredo (Zé Bonitinho).

Não foi a primeira nem será a última vez que o circo é homenageado pelo cinema. Em criança morri de rir com Carlitos em O Circo, de 1928. Chaplin, ele próprio o rei dos palhaços, fez o roteiro, atuou, dirigiu e produziu o filme e assim ganhou o Oscar desse ano.
Cantinflas e Jerry Lewis seguiram seu exemplo em O Circo (1943) e O Rei do Circo (1954).  De memória cito O Maior Espetáculo da Terra (1952), (2011), Chocolate (2000) e, claro, A Estrada da Vida (1954), de Fellini, com a maravilhosa Giulietta Masina. Sem esquecer Bye Bye Brasil (1980) de Cacá Diegues. Nele uma trupe, a Caravana Holidei, percorria o interior do Brasil pela rodovia Transamazônica.
O circo é magia, é fascínio e sonho. Dei sorte de ter um pai jornalista que recebia cortesias de todos os grandes circos que vinham a Natal. Nessa época eles eram armados ali no alto do Baldo, em um grande terreno baldio. Circo Garcia, Tihany, Xangai, Orlando Orfei, Nerino, Mexicano, Gran Bartolo. O espetáculo era sempre aberto por uma orquestra tocando boleros. Sempre que escuto Siboney me emociono, pois era parte obrigatória do repertório. Depois vinham os palhaços e suas estrepolias. O calhambeque era impagável. O homem bala, o globo da morte, as águas dançantes, equilibristas, os irmãos trapezistas voadores. Alguns traziam mágicos, ventríloquos, lançadores de facas. E animais, permitidos à época.
Em um desses circos vi cantar Waldick Soriano de chapéu coco e ser vaiado (só depois ficaria famoso). Por algum motivo, os circos passaram a ser armados ali onde hoje é o Colégio Winston Churchill. Hoje buscam a área ao lado do Centro Administrativo e têm um perfil completamente diferente dos circos antigos.
Os circos de raiz eram arrumados em torno de um picadeiro forrado com serragem, com cadeiras para as famílias melhoradas e o puleiro para quem não podia pagar. O puleiro era instável, feito de tábuas corridas, sem conforto algum, mas muito mais divertido. E havia ainda os circos menores, mambembes, que percorriam os subúrbios. Nesses os palhaços usavam uma malícia inocente e cantavam músicas de duplo sentido. A gente aprendia as letras e passava a semana inteira a repetir. “Esse velhinho de hoje/que de sessenta já passou/é espingarda enferrujada/que o cano já entortou”.
No interior (nunca vi isso na capital) os circos tinham uma atração extra: os dramas. Além do picadeiro havia um palco e ali eram representadas peças teatrais. No Brasil pré-novelas de TV (existiu, sim, esse tempo) esses dramas eram um sucesso absoluto, comentados durante o resto da semana. Os palhaços anunciavam nas ruas e depois chamavam: – Hoje tem espetáculo? A meninada respondia: – Tem sim, sinhô! Às oito horas da noite? Tem sim sinhô…! E o palhaço o que é? – Ladrão de mulher! E o cortejo seguia rua afora…
Mas se quiser ter uma ideia aproximada de como eram os circos de verdade é necessário dar uma voltinha atenta pelos bairros mais afastados da cidade, pois é nos subúrbios que esses artistas encontraram espaço para sobrevivência. Aí, por um preço baixo, vamos ter duas ou três horas de diversão sadia. Nesses circos os palhaços são os personagens principais e por vezes os proprietários.
Cito alguns, sabendo que omito vários: Beiçola, Gordurinha, Fuxiquinho, Facilita, Panelinha, Buxinha, Pingolinha, Xereta, entre vários outros. São criativos, engraçados, improvisadores e, sobretudo, continuadores de uma tradição iniciada no Brasil por Piolim, Carequinha e Arrelia. Quem torce o nariz para esses espaços não sabe o que está perdendo. O pessoal da geração Xuxa nem imagina o que foi Carequinha e suas canções para a gurizada.
A influência do circo no cinema, teatro e tevê é notória, mas às vezes passa despercebida. Ariano Suassuna escreveu o Auto da Compadecida (1955) como um drama circense, apresentado por um palhaço, mestre de cerimônias do espetáculo. Renato Aragão e Dedé Santana não disfarçavam suas origens de picadeiros. Ankito (filho do palhaço Faísca e sobrinho de Piolim) e Oscarito, grandes comediantes do cinema e do teatro revista, eram ambos oriundos de famílias de circo.
Enfim, em tempos tão ásperos e duros, o Circo é mais um elemento de resistência como, aliás, qualquer forma de fazer cultura. Para nós, espectadores, representa o reencontro com a alegria, o colorido, a festa, a música, a arte popular. Esqueça um pouco a TV, meu amigo. Reserve uma tarde de domingo, relaxe, tome a família, a pipoca e o cachorro quente, procure um bom ângulo no puleiro e boa diversão para todos, pois o espetáculo sempre vai continuar.
 

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