Cultura brasileira, culturas brasileiras: o folclore

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Ilustração: Fábio Fernando
 Por Antonio Rodrigues Belon | Coletivo de Artistas Socialistas (CAS)
Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal, feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha falava de amor
pois nunca mais cantei, oh maninha
Depois que ele chegou

(‘Maninha’, de Chico Buarque de Holanda )
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A importância da cultura brasileira… isto é um problema? É uma pergunta que se faça? a pergunta já está feita, o problema já está colocado.
No entanto, cabe ampliar: a cultura brasileira, ou, as culturas brasileiras? Alfredo Bosi (1936-2021) tematiza cultura em articulação com a história, com a colonização – o tempo do trabalho escravo – e a multiplicidade. Não cultura brasileira, mas culturas brasileiras: indústria cultural, cultura de massa, culturas regionais, e mais outras variações. (BOSI, 1992) Propõe uma apreensão dialética do tema, da análise das condições concretas, materiais, históricas, para síntese da cultura herdeira de um mundo colonial.
Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), resumidamente, trata da cultura popular como equivalência de folclore. Neste texto adota-se esta postulação.
Mas antes de uma demora no pensamento do intelectual brasileiro, uma menção a Mikhail Bakhtin (1895-1975) impõe-se. O russo estuda a cultura popular em dois períodos básicos da história humana – a Idade Média e o Renascimento. Muito do que caracteriza a cultura popular daqueles tempos repete-se no Brasil, de uma cultura posterior: ou de culturas brasileiras posteriores. Principalmente, a ocorrências de ruas e praças onde povo se movimenta.
UM HOMEM E UMA INTERVENÇÃO CULTURAL
É hora de uma conversa na varanda com Luís da Câmara Cascudo.
Ele nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, no antepenúltimo ano do século XIX. Começou a estudar Medicina e parou. Foi jornalista desde jovem. Formou-se em Direito – no Recife (PE). Escritor e crítico literário desde muito cedo. Professor, recebeu títulos honoríficos aos montes.
Segundo um registro: “Homem culto e simples, prefere viver na terra natal, cercado de pessoas humildes e velhos amigos, embora pudesse gozar de maior prestígio, em grandes centros culturais.” (MENEZES, 1978, p. 177)
Notabilizou-se sobretudo como folclorista:
Folclorista notável, dedica horas à leitura, à produção literária e ao magistério superior. Possui títulos honoríficos e pertence a associações culturais brasileiras e estrangeiras. Membro correspondente da Academia Paulista de Letras. (MENEZES, 1978, p. 177)
Deixou vastíssima bibliografia escrita e publicada em muitos anos de trabalho. A sua marca é a do homem comprometido com o pensamento e a ação. Viveu a cultura popular.
OS FRUTOS DA TERRA
Que lavoura é esta? Que literatura é esta? Uma lavoura de muitas culturas onde viceja uma literatura popular. Onde brota uma literatura oral. Então: “Toda literatura oral é popular, mas nem toda literatura popular é oral” (CASCUDO, 1986, p. 189). Um começo de conversa.
De imediato, observa-se na cultura brasileira a existência abundante de folhetos – cordel, impressa e popular – uma rica e diversificada literatura.
O folclorista, no entanto diz: “A preferência pela literatura oral, primeiro leite da cultura humana” (CASCUDO, 1986, p. 183.)
E continua:
É o elemento vivo e harmonioso que ambienta a criança e acompanha, obstinadamente, o homem, numa ressonância de memória e saudade. O folclore é a única disciplina que dispensa inicialmente o auxílio alheio para sua comprovação. Todos somos portadores do material rico e complexo, recolhido inconscientemente na infância e guardado nos escaninhos da lembrança. A erudição se destina aos trabalhos de confronto e a pesquisa misteriosa das origens. (CASCUDO, 1986, p. 183)
Origens, em grande e maior parte, por importação, decorrente do processo histórico de colonização. Uma constituição basicamente tríplice: Europa, África e América. Os asiáticos, embora também importantes, vieram depois.
UM GÊNERO NARRATIVO ESPECIAL: A FACÉCIA
Alguns adjetivos transformados em substantivos abrem este item: o fescenino, o obsceno, o licencioso e o devasso.  A sinonímia não é exata; nem poderia ser. Mas evoca uma atmosfera; estabelece um ambiente.
Pela sua capitosa vivacidade, rapidez de narração, a facécia, o conto humorístico, com muito ou pouco sal, goza de domínio espalhado. A facécia é gênero que recebemos da Europa. Conhecem-se raras facécias negras e nenhuma indígena. De feição obscena, tão poderosa como teste psicológico de apreciação coletiva, a influência branca é quase total. O negro africano era recatado e pudico nessas estórias e nada se sabe dos indígenas brasileiros. Consta que Curt Nimuendanju (1883-1945) reuniu trezentas estórias fesceninas, ouvidas aos indígenas mas, segundo se deduz, o original desapareceu com o falecimento do colecionador”. (CASCUDO, 1986, p. 185)
Capitoso, do texto do folclorista, é o inebriante – a bebida irresistível e embriagadora.
OUTRAS NARRATIVAS: AS ADIVINHAÇÕES
As narrativas populares se multiplicam em ampla tipologia.
A adivinhação (todos os povos a possuem) tem sua popularidade mas depende de ambiente, ambiente psicológico, para sua atuação. Certo, o conto popular exige horário típico porque ninguém conta estórias de dia sob pena de criar rabo. A mesma superstição vive por negros e brancos. (CASCUDO, 1986, p. 185)
Uma universalidade, uma difusão popular, uma psicologia particular, tudo se combina na mesma superstição. Um amálgama característico se consolida.
E continua o pesquisador:
“O gênero é, como todo mundo, sabe uma das atividades intelectuais mais antigas. Os contos que envolvem adivinhações são tipicamente anteriores aos contos de simples aventuras, sem o auxílio do sobrenatural”. (CASCUDO, 1986, p. 185)
Nos tempos e nos espaços o gênero vai se consolidando pela repetição. A linha a separar a superstição do sobrenatural é tênue, mas vale dizer que o sobrenatural é característico dos contos de encantamento.
TEORIA, EXPLICITAMENTE
Do ponto de vista teórico e do rigor intelectual é importante observar a tensão dialética entre a permanência e a mudança. Captar a materialidade social e histórica permite pensar em profundidade para redimensionar o desfrute, a fruição, da cultura popular.
“Nos contos as partes modificáveis comumente são o princípio e o fim. Embora o folclore seja conservador, há uma corrente renovadora e dinâmica que é a variante, forma peculiar da deslocação do motivo duma para outra parte” (CASCUDO, 1986, p. 186), aponta o brasileiro.
Vladimir Propp (1895-1970), nos meados do século XX, estabeleceu os fundamentos de uma análise estrutural dos contos folclóricos. Abriu caminhos seguros de crítica e interpretação de todos os textos narrativos, especialmente dos folclóricos.  
Kaarle L. Krohn (1863-1933), estudioso do tema, segundo Luís da Câmara Cascudo, “fundou seu método, na pesquisa e confronto das variantes.” (CASCUDO, 1986, p. 186)
O intelectual potiguar, perspicazmente, na abordagem das narrativas da cultura popular, elaborou seus padrões de teoria e método.
Juntar o maior número possível das transformações menores do mesmo conto e confrontar. As persistentes denunciam o tema inicial e as outras são acomodações ao espírito do povo que as recebeu e por sua vez as transmite. É o conto o gênero mais estudado da literatura oral do mundo. (CASCUDO, 1986, p. 186)
Luís da Câmara Cascudo adota o termo estória para o ficcional popular, conforme foi corrente nos anos 1950 e 1960. História igualava-se a historiografia.
OS CONTOS, AS LENDAS E O MITOS NA CULTURA POPULAR
As narrativas multiformes acompanham a aventura – ventura e desventura, dialeticamente – humana. O domínio da importação europeia é notório, mas não é uma exclusividade: “O conto mais popular é sempre o mais universal.” (CASCUDO, 1986, p. 184)
O estabelecimento de gosto e de preferências na sociedade de classes é fortemente marcado pela estratificação social. As estórias de animais desempenham um relevante papel nesta definição. As estórias de animais ganham em preferência “quanto mais humilde for a classe social”. (CASCUDO, 1986, p. 185)
As lendas e os mitos constituem com os contos uma parentela. Quando se trata dos mitos, “o próprio volume demonstra, a maior presença indígena que africana nesse setor”. (CASCUDO, 1986, p. 185)
A origem muitas vezes pesa na classificação e na definição das narrativas: “A lenda é considerada sempre de origem letrada. O favor público amplia-a, transformando-a.” (CASCUDO, 1986, p. 186) É muito importante verificar as origens e as transformações, na captação do processo de desenvolvimento.
Abreviadamente, as lendas também escancaram a multiplicidade:
“Pode ter vindo de uma pregação religiosa, hagiolário ou sermonário, livro de exemplo, ou emigrada de ponto de origem para local de paisagem psicológica semelhante. Dizemos lenda quase que exclusivamente no sentido religioso.” (CASCUDO, 1986, p. 186)
O mito integra a família das narrativas com feições próprias. “O mito era simplesmente uma narrativa de fato tradicional ou mesmo a fábula de animais ou conto comum”. (CASCUDO, 1986, p. 186)
Feições muito próprias, em reforço, para limpar o terreno e elaborar o conceito: “Entenda-se por mito a lenda ou narrativa de movimento, com o elemento tradicional e sobrenatural, alheio a função religiosa” (CASCUDO, 1986, p. 186).  
TAMBÉM A POESIA É PÃO
De cara uma concepção de poesia, concepção popular – a poesia identificando-se com o verso: “Parte essencialmente querida na literatura oral é o verso, a poesia”. (CASCUDO, 1986, p. 186) Na cultura popular é assim.
O percurso humano pelos séculos e milênios ensina que a poesia é irmã da música: “A história literária do Brasil começa no século XVI e este é a época sonora em Portugal, tempo de gaitas e pandeiros, romarias lindas, Portugal vivo nos autos de Gil Vicente.” Gil Vicente (1465-1536), talvez seja o mais importante nome da dramaturgia na língua portuguesa. Na sustentação da plasticidade das romarias e dos espetáculos teatrais, estava a música.
A cultura popular brasileira herdou os elementos de musicalidades e musicais: “Era a xácara nostálgica e também o romance, o romance recriado nesse século lírico, sentimental, com sua solfa doce e sugestiva. Fixava-se a constante rítmica.” (CASCUDO, 1986, p. 186) O romance é um poema narrativo curto, tradicional e popular.
A quadra, a décima, a glosa e o mote, vieram na herança comum da cultura popular ibérica e lusa.
Na estação da modinha, uma parada é obrigatória pelas peculiaridades em questão.
Oralmente também se transmite a modinha, de letra culta mas amada pelo povo. Afirma-se que o povo não canta modinha, o que não condiz com a realidade dos fatos. Mas, realmente, a modinha excede do limites desse quadro popular do folclore oral. (CASCUDO, 1986, p. 188)
Na música popular brasileira a modinha ocupa um lugar de arte em seu grau máximo. Tradicionalmente, ela se renova enquanto canção.
O desafio requer um exame. A palavra tem muitos significados. Como provocação e convite à disputa, a palavra desafio evoca artistas populares praticando as músicas e a sua poesia, sempre em alta invenção na esteira de uma tradição a renovar-se constantemente.
A CULTURA POPULAR EM CENA E ENCENA
Os autos populares constituem um vertente fundamental da cultura popular. De geração em geração refazem um percurso humano: “Os autos populares são igualmente sabidos de memória.” (CASCUDO, 1986, p. 188) Uma das formas do teatro popular, os autos também integram o cânone nas suas expressões mais eruditas, por exemplo, escritos por Gil Vicente. Confundem-se com história da língua portuguesa.
O teatro nunca é só teatro. Quando sai à rua, o teatro gosta de se fazer dança: em “Portugal fandango ou marujada, congo ou congada, chegança, como existe no Brasil. Fandango em Portugal é dança de par solto e essa dança não aparece no fandango ou marujada.” (CASCUDO, 1986, p. 188)
As danças integrantes da cultura popular apresentam ricas e belas variações regionais: no Nordeste, no Norte, no Sudeste, no Sul, na Extensão Platina. E no Centro-oeste.
Os folguedos do boi, as congadas, em multifacetadas variações e convergência, dialeticamente, chegam a uma grande síntese como uma forma de teatro de rua. Todas as artes integram-se num espetáculo singular.
Azul, encarnado, verde e rosa – todos os espectro das cores – fazem a alegria de um povo, de uma cultura popular.
Nem sempre tudo é alegre e do povo.
Um exame dos pastoris permite considerar: “Resistem, com intrusão calamitosa de música moderna, os pastoris, na festa do Natal, com a mestra, contramestra, Diana, um elemento cômico, o velho, o Bedegueba, o zagal, a Libertina seríssima”. (CASCUDO, 1986, p. 189)
Adultos jogam e brincam. Crianças mais ainda. Os jogos infantis na cultura popular adquirem imensa importância. Brincar é ser criança.
OUTRO GÊNERO ENTRE O POPULAR E O LETRADO
A novelística, uma área de estudos, é cultura popular de um público letrado, em algum nível.
Há, ao lado da literatura popular, uma literatura tradicional que é o objeto da novelística. Novelas muitas vezes seculares atravessam o tempo e maré e conseguem reedições anuais, público fiel e mercado imutável. Nunca mereceram lugar nas histórias da literatura brasileira, mas são elementos ponderáveis e naturais da cultura popular. Basta, para prova de prestígio inamovível, a presença inarredável nas mãos do povo por centenas e centenas de anos. (CASCUDO, 1986, p. 190)
Os textos apresentam uma procedência variável: do Clássico – Grego e Latim – do Português, do Espanhol, do Francês, do Provençal, do Árabe. Isto condensa os sentidos da cultura popular.
Uma persistência de largo e profundo alcance.
Identicamente, na novelística, as novelas velhíssimas (a mais nova do tempo de Luís XV de França) são ainda atuais, reeditadas e com mercado leitor teimoso entre o povo. Os temas dessa novelas existem, documentalmente, com grandes áreas geográficas de fixação. (CASCUDO, 1986, p. 184/5)
AS CULTURAS, TODAS AS CULTURAS
Depois de elaborar um título, adotar uma epígrafe, explicitar a pluralidade da cultura brasileira em culturas brasileiras, decidindo pensar a cultura popular como o folclore, retratar em traços ligeiros um homem e a intervenção cultural desta individualidade intelectual, andar em busca de colher os frutos da terra enquanto literatura popular, oral ou não, escrever sobre um gênero narrativo especial como a facécia, e outras narrativas como as adivinhações, explicitar teorias – além das implícitas –  e tratar de contos, de lendas e de mitos na cultura popular, passando pela poesia tão necessária quanto o pão,  apreciar a cultura popular em cena,  e como encena, percorrer os  gêneros entre o popular e o letrado, tudo escorado em referências bibliográficas de peso, chegou a hora de voltar ao começo.
Voltar ao começo é reconhecer em suas múltiplas determinações, concretamente, a necessidade e relevância da cultura popular, do folclore, na refaçção de toda a cultura brasileira, em bases de um horizonte histórico e social em que a vida no Brasil seja possível. E rica de plenitude e de sentido, construída a partir do trabalho livremente associado.
No reconhecimento da cultura popular em suas inúmeras formas renova-se o internacionalismo e a centralidade proletária, na atual fase histórica da humanidade.  
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 5. ed. Tradução Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Annablume e Hucitec, 2002.

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

CASCUDO, Luís da Câmara. O folclore: literatura oral e literatura popular. In: A literatura no Brasil. COUTINHO, Afrânio & COUTINHO, Eduardo de Faria. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio; Niterói: UFF-Universidade Federal Fluminense, 1986. pp. 183-192 (volume 1) 

MENEZES, Raimundo de. Dicionário literário brasileiro. 2. ed. Revista, aumentada e atualizada. Prefácio Antonio Candido. Apresentação José Aderaldo Castello. Rio de Janeiro/São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, 1978.

PROPP, Vladimir. Morfologia do conto maravilhoso. Tradução do russo Jasna Paravich Sarhan. Organização e prefácio Boris Schnnaiderman. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1984.

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