LGBTSQI+ no contexto da pandemia

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O objetivo da presente reflexão é problematizar as condições de vida no contexto histórico e contemporâneo que vem afetando os sujeitos LGBTQI+ durante a pandemia da Covi-19. Bem como os conflitos que vivem diante das suas opções sexuais, em confronto com uma sociedade conservadora.

Por Drª. ALUIZIA DO NASCIMENTO FREIRE. Fotografia: Arquivo pessoal
Os problemas são agravados perante a crise de calamidade da saúde pública em decorrência da pandemia do coronavírus, que transformou completamente a vida de todas e todos. O que achávamos o que é ser “normal” em nossas vidas até então, para a população LGBTQI+ só agrava suas vidas precárias face as vulnerabilidades cotidianas.
Diante do exposto temos consciência que não só os LGBTSQI+ estão em constantes conflitos, mas a massa da população, que vive os dilemas do desemprego e baixos salários, vivendo também a vulnerabilidade da violência doméstica, onde são as mulheres as mais afetadas.
Usamos os dados divulgados na reportagem de Juliana Lima, publicada no jornal digital Nexo, sobre pesquisa do coletivo #VoteLGBT coordenada por pesquisadores da Unicamp e UFMG. O relatório divulgado no domingo (28/6) expõe o diagnóstico LGBT+ na pandemia. A pesquisa se baseia nos dados coletados através de um questionário online entre 28 de abril e 15 de maio, que obteve 9.500 respostas de pessoas LGBTI de todo o país.
Segundo o IVLC (Índice de Vulnerabilidade LGBT+ à Covid-19), que mede os diferentes níveis de risco e impacto da doença para a saúde, renda e trabalho entre LGBTIs de acordo com a raça, orientação sexual e identidade de gênero, pessoas trans e LGBTIs negros e indígenas apresentam os maiores índices de vulnerabilidade.
Juliana Lima informa que “O coletivo #VoteLGBT aplica desde 2016 pesquisas em manifestações públicas do orgulho LGBTI, como as paradas de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, buscando definir o perfil de quem participa das marchas”. Para ela, “O trabalho realizado pela organização tenta mitigar a escassez de estatísticas sobre essa população no país, um obstáculo à elaboração de políticas públicas”.
No meu entender, um trabalho feito com seriedade entre seus pesquisadores, contribuindo para que a população tenha conhecimento das condições de vida das pessoas que apresentam uma opção sexual diferente do pensamento da sociedade conservadora, arcaica.
Em sua reportagem, Juliana cita o que a demógrafa Fernanda de Lena disse ao Nexo, que os resultados da pesquisa evidenciam que a população LGBTI brasileira já se encontrava em uma situação de instabilidade econômica e apresentava níveis elevados de depressão mesmo antes da pandemia. Segundo Lena, “O IVLC mostra que esses indivíduos têm poucos recursos financeiros para se manter em isolamento social, o que aumenta as chances de contraírem o vírus. Além disso, o índice aponta como grande parte dessas pessoas tem menos possibilidades de acesso a serviços de saúde ou até mesmo tem um quadro de saúde considerado de risco que pode diminuir as chances dessas pessoas sobreviverem se contraírem o vírus”.

A pesquisa mostra as principais causas que afetam a população LGBTS nesse momento de pandemia: saúde mental, privação de rede de apoio, emprego e renda.

Muitas pessoas apresentam problemas ocasionados pela pandemia, e a saúde mental é o que mais têm afetado todas e todos nós. O medo em se contaminar nos leva a absorver os problemas com muita rapidez. O isolamento social, por obrigar a ficar em casa, leva as pessoas a se irritarem com mais facilidade, assim como não poder sair e ter contatos com amigos e amigas levam à solidão. Ter que ficar ‘enclausurado’ com algum familiar que não entende e/ou respeita a sua orientação sexual é um dos fatores responsáveis pelo agravamento da depressão.
Entre os pontos detalhados pelo Nexo como principais descobertas da pesquisa, Juliana Lima afirma que “O agravamento de problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão e crises de pânico, foi apontado por 42,7% dos participantes da pesquisa como a maior dificuldade enfrentada durante a quarentena”.
A reportagem aponta que “a vulnerabilidade emocional e psíquica é ainda maior entre os mais jovens. Segundo o estudo, um a cada dois LGBTS entre 15 e 24 anos de idade apontaram a saúde mental como o maior problema encarado durante o isolamento social. Em faixas etárias mais velhas, a proporção cai: a saúde mental foi indicada como a principal dificuldade por 21% das pessoas LGBTS de 45 a 54 anos”.
A privação de redes de apoio também é um dos dados responsáveis pelos problemas nessa pandemia, “em um contexto de marginalização dessas pessoas no âmbito familiar e em outras esferas do convívio social, como escola ou trabalho, as redes de apoio – formadas por amigos, parceiros afetivos e círculos de militância – se tornam especialmente importantes”.

Para 16,6%, o maior impacto sentido da crise sanitária são as novas regras de convívio social, como o distanciamento, e para 11,7% é a solidão. Além de frequentemente confinadas em um ambiente marcado pelo preconceito, pessoas LGBTI estão afastadas de sua rede de apoio durante a pandemia, o que leva à solidão.

O estudo divulgado pelo Nexo, apresenta como a solidão afeta mais drasticamente pessoas mais velhas, de 45 a 54 anos ou acima dos 55, do que os mais jovens, de 15 a 24 anos. Acreditamos que o medo dessas pessoas acima de 45 anos é o que os leva a abdicar de frequentar determinados lugares.
Por último, um dos fatores que mais contribuem para afetar a baixa estima da população LGBTS é o desemprego e renda. “Muitos brasileiros perderam o emprego ou tiveram sua renda reduzida em decorrência da pandemia. Com as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho pela população LGBTS, o impacto econômico da pandemia é ainda maior. A perda de renda foi imediata para os LGBTI sem acesso ao trabalho formal e afetou diretamente sua capacidade de sobreviver”, explica Juliana.
O desemprego no Brasil atingiu toda a camada trabalhadora, mais 14,8 milhões de pessoas estão sem renda fixa, isso equivale ao número de desempregados atualmente no Brasil. Sem esquecer que existem as pessoas que vivem do subemprego, são as pessoas que trabalham por conta próprios, os autônomos.
Temos a percepção que a pandemia afetou todo o contingente populacional, cada um com suas especificidades. Acompanhamos nas redes socias como o contingente LGBT ficou excluídos do mercado de trabalho, principalmente pelo preconceito que sofre diariamente. Assim como nos casos crescentes de problemas psicológicos, a privação de redes de apoio contribui muito para o aumento de casos.
As desigualdades presentes na nossa sociedade, banalizadas pelo poder público, são visíveis quando observamos o número de pessoas que são assassinadas por ter uma opção sexual diferente da que a sociedade prega, uma sociedade que apresenta resquícios do patriarcado, conservadora e hipócrita. O exemplo são as pessoas que se identificam como LGBTS* e sofrem discriminação diária, seja na rua, no trabalho, na escola, muitas das vezes dentro de casa. Assim como as mulheres negras, a população LGBTS está sendo assassinada e agredida diariamente com palavrões, está sendo morta. Não temos políticas públicas nem formas de diminuir a mortalidade dos LGBTS. O que nós chamamos de violência institucionalizada.

LGBTS (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros) sigla de uso internacional constituída pelo movimento de pessoas homossexuais, bissexuais e transexuais dos Estados Unidos e incorporada por diversos países (COLLING, THEDESCHI, 2019, p. 448). 

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