
Qualquer mudança profunda na sociedade só é possível quando construída de baixo para cima, nunca ao contrário, nem imposta por um governo mesmo que se autodenomine popular.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/2019), aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados em 27 de maio, não garante por si só o fim da escala 6×1. Vai ser preciso envolver o povão em uma grande campanha de conscientização e mobilização popular. Essa pauta não pode ficar restrita aos auditórios dos sindicatos ou aos corredores do Congresso. Ela precisa chegar às comunidades periféricas, aos bairros populares, aos locais de trabalho e todos os espações onde vive e trabalha a maioria da classe trabalhadora.
As centrais sindicais também precisam descer do palanque e se juntar com suas bases. Estar lado a lado com as inúmeras categorias profissionais, dialogando, escutando e organizando quem sente na pele os efeitos de uma jornada que consome a maior parte da vida em troca de um salário que, muitas vezes, mal garante a sobrevivência.
A redução da jornada de trabalho sem redução salarial é uma luta histórica da classe trabalhadora. Foi construída por gerações que enfrentaram repressão, perseguições e até a forca para conquistar direitos fundamentais. Trabalhadores e trabalhadoras foram às ruas para defender não apenas melhores condições no chão da fábrica, mas também o direito de viver, conviver com suas famílias e ter dignidade dentro e fora do trabalho.
Hoje, a luta contra a escala 6×1 coloca novamente essa questão em debate. De que serve uma jornada que permite apenas trabalhar, comer mais ou menos e dormir, sem tempo suficiente para cuidar da saúde, descansar, estudar, conviver com a família?
Agora, as eleições tornam essa disputa ainda mais evidente. Governo e parlamentares voltam seus olhos para a pauta da jornada de trabalho enquanto calculam seus interesses eleitorais. Isso torna o momento ainda mais estratégico para que a população se organize e pressione o Congresso. O direito ao descanso e a uma vida digna não pode ser tratado como moeda eleitoral.
É preciso aproveitar essa eleição para exigir uma resposta concreta: fim da escala 6×1, redução da jornada e nenhum centavo a menos no salário.
A jornada desumana precisa ser substituída por trabalho decente, que garanta tempo para a saúde, o lazer, a convivência familiar, a cultura e o bem viver.
As férias, o 13º salário, o FGTS e tantos outros direitos não foram presentes concedidos pelos patrões ou pelos governos. São conquistas arrancadas pela organização e pela luta da classe trabalhadora, com muito suor, resistência e mobilização popular.
É essa mesma força organizada que poderá garantir uma nova conquista.
O fim da escala 6×1 não será garantido apenas pelos corredores do Congresso. Será garantido pela pressão das ruas, pela organização nos locais de trabalho e pela mobilização das comunidades.
Ah! Esse meu país estrangeiro,
mas tropical,
essa espoliação amarga
que traga suor em massa
e solta baforadas de miséria.






