
“Pisa ligeiro, pisa ligeiro
quem não pode com a formiga
não assanha o formigueiro”
A palavra de ordem do povo ancestral parece ter inspirado o seminário “Democratiza UFRN”, que reuniu a comunidade universitária no Centro de Educação (03/09) com a tarefa de debater sobre “A UNIVERSIDADE QUE QUEREMOS”.
O encontro aconteceu em meio a movimentação da eleição para a sucessão na reitoria (mandato 2027-2031) que ocorrerá no dia 10 de novembro. Segundo o movimento Democratiza UFRN, a ideia do seminário foi reforçar a construção de um programa com base nas reivindicações de quem realmente faz a Universidade Federal do Rio Grande do Norte funcionar, desde os setores administrativos às salas de aula.
Ao iniciar a mediação do evento junto com a professora Tássia Monte, o professor Walter Junior afirmou que este é um momento histórico. “O nosso objetivo é discutir sobre que universidade queremos e apresentarmos propostas que irão compor o programa que o coletivo Democratiza vai lançar nas eleições para a reitoria da UFRN”.
Logo depois, Tássia esclareceu que a participação do coletivo é para “levantar um diagnóstico das vivências e também das questões que atravessam o cotidiano de trabalho, de pesquisa e de convivência coletiva dentro da universidade, a ideia é provocar, é aprender juntos”.
Em seguida, a estudante de pedagogia Marcela mandou o seu recado ao apontar que “esse é um espaço de cultura, é o espaço do povo preto, é o espaço do povo periférico, é o espaço do movimento estudantil”. A seguir ela soltou a voz com a sua poesia falada, a poesia do corpo e do movimento conhecida como slam.
“Eu vivo da cultura hip hop, que me ensina todo dia,
o peso de uma arma e o peso da caneta.
E hoje eu quero que me armem, mas me armem de livros
para eu conhecer a luta de cada um dos meus heróis.
Vidas negras importam”.
A universidade em disputa coloca a comunidade em movimento para transformar a sucessão da reitoria em debate sobre os rumos da universidade pública.
“QUE UNIVERSIDADE QUEREMOS?”
A partir dessa pergunta o movimento Democratiza UFRN reforça a mobilização para um projeto que está sendo construído coletivamente. Para o coletivo, a eleição não pode ser reduzida à escolha de quem vai ocupar a reitoria.
A ideia do Democratiza nasce da insatisfação com a universidade tal como ela está e da disposição de construir outros caminhos. Como foi afirmado durante o seminário, é preciso “sair da mesmice” e buscar “trilhas alternativas”.
Se a mudança precisa começar por algum lugar, para o coletivo ela começa por ouvir quem vive a UFRN. A universidade que produz conhecimento, forma profissionais e transforma a sociedade também pode produzir desgaste, exclusão e silenciamento quando não garante condições para que sua própria comunidade seja escutada.
A permanência estudantil aparece no debate como uma das expressões mais concretas das desigualdades existentes dentro da universidade. Uma estudante relatou dificuldades para participar de congressos e outras atividades acadêmicas por falta de auxílio financeiro e apontou também obstáculos para acessar transporte de casa para a UFRN.
Essas dificuldades não são detalhes administrativos. Elas definem quem consegue participar plenamente da formação universitária e quem precisa escolher entre estudar, trabalhar, participar de uma atividade acadêmica ou simplesmente conseguir chegar ao lugar onde ela acontece.
O mesmo ocorre em relação à residência universitária, quando estudantes que aguardam auxílio-moradia defendem a sua ampliação. Esse cenário reafirma a ideia de que a permanência na universidade não pode ser tratada como política acessória. Ela é parte da própria universidade pública e da garantia do direito à educação.
O PROBLEMA DA VIOLÊNCIA
Outro problema grave enfrentado pela estudantada é a questão da violência. O seminário expôs as dificuldades encontradas por quem busca respostas junto à atual reitoria. Especialmente as mulheres que enfrentam muitos desafios para encaminhar denúncias e defendem mudanças na forma como esses casos são tratados. A questão não seria apenas financeira ou burocrática. “É uma decisão política.”
O coletivo Democratiza UFRN coloca essa realidade no centro da discussão com o movimento “A UNIVERSIDADE QUE QUEREMOS”. Uma UFRN democrática não pode exigir silêncio de quem sofre violência nem transformar o acolhimento em uma sequência interminável de portas fechadas.
CUIDAR DE QUEM FAZ A UNIVERSIDADE
A discussão sobre saúde também apareceu associada às condições concretas de permanência e trabalho. Como no caso da insuficiência de políticas de enfrentamento ao sofrimento e ao adoecimento mental.
Não é possível falar em qualidade na universidade sem considerar as condições reais de vida de quem a constrói diariamente. Não há qualidade quando estudantes não conseguem permanecer, nem quando as pessoas que fazem a UFRN funcionar não participam das decisões que definem seus rumos.
CONHECIMENTO PARA QUÊ E PARA QUEM?
O Democratiza UFRN também questiona o modelo de universidade que coloca a produtividade acima da relevância social da pesquisa. O coletivo defende mudanças nos critérios de avaliação, redução da burocracia e mais condições para a produção científica.
Na discussão sobre inovação, a crítica foi à possibilidade de criar uma estrutura separada da formação universitária. É uma disputa sobre o próprio sentido do conhecimento produzido na universidade.
“PARA QUÊ E SOB CONTROLE DE QUEM?”
O Democratiza UFRN não apresenta a universidade como instituição isolada da sociedade. Ao contrário, defende uma universidade pública capaz de dialogar com diferentes setores, mas que preserve sua autonomia e tenha liberdade para definir suas prioridades a partir de sua função social.
Democracia não pode acontecer só de quatro em quatro anos.
O coletivo defende uma mudança na forma de fazer política dentro da universidade, que inclui princípios como democracia, transparência, autonomia, participação multicampi, paridade de gênero e justiça social.
Uma universidade em que a comunidade tenha participação efetiva nas decisão e não seja chamada apenas quando chega o momento de votar. O que significa democratizar o cotidiano da UFRN. Ampliar a participação, garantir acesso às informações, fortalecer espaços coletivos de decisão e criar condições para que conflitos e reivindicações sejam discutidos publicamente.
UMA UNIVERSIDADE DE TODOS OS CAMPI
O seminário ainda chamou atenção para que a mudança alcance toda a universidade. A participação de pessoas de outros municípios, reforçando a dimensão multicampi da UFRN.
Para o Democratiza, uma universidade espalhada pelo Rio Grande do Norte não pode ter sua política construída a partir de uma única realidade. Cada campus carrega experiências e desafios próprios. Fazer uma universidade multicampi significa garantir que todas as pessoas envolvidas participem.
A ESCUTA É O COMEÇO DA POLÍTICA
As políticas apresentadas pelo Democratiza UFRN não foram tratadas como programa definitivo. É um documento aberto à crítica, à contribuição e à transformação. Em vez de apresentar uma plataforma fechada para que a comunidade apenas conheça, o coletivo propõe construir o programa com a comunidade. A diversidade de propostas apresentadas no seminário devem alimentar as próximas etapas da construção.
RUPTURA COM UMA REITORIA QUE NÃO ESCUTA
O seminário expôs a expressão de uma comunidade que insiste em ser ouvida e a construir uma história coletiva. As dificuldades de permanência, a falta de transporte e apoio para atividades acadêmicas, a espera por residência, os relatos de violência, o sofrimento mental e a cobrança por mais democracia revelam problemas concretos. Uma demonstração da urgente necessidade em valorizar quem pesquisa, ensina, trabalha e estuda.




