Esse artigo compõe meu livro SEMENTEIRA – grãos para transformar radicalmente a sociedade via políticas culturais (ed. Autonomia Literária, 2025). Na primeira edição comecei esse capítulo por Medellín, mas fazendo a revisão para nova edição considero mais adequado inverter a ordem, apresentando primeiro a situação de El Salvador, dado o impacto e louvor à política de encarceramento em massa – e o Estado de exceção – estabelecido naquele país sob o governo Bukele, ícone da “nova direita” na América Latina. Conheço praticamente todos os países desse nosso vasto continente chamado Solidão (ou, simplesmente, América Latina), com razoável imersão e profundidade, em aproximadamente meia centena de viagens, não somente para ministrar conferências, cursos e reuniões, como, sobretudo, para escutar e visitar os cantos mais esquecidos e distantes[1]. Vamos mirar nossos vizinhos como quem olha no espelho para ver quem é, e no que pode se transformar.
O que pode acontecer quando governos não dão conta da Segurança Pública e, de repente, alguém aparece com solução mágica?
Medellín
Pausa para o almoço. Silvana pergunta como está indo a revisão do livro. Respondo que decidi alterar a ordem desse capítulo, começando por El Salvador, por conta do súbito interesse em relação às políticas de segurança pública adotadas no país, e da necessidade de desfazer mitos e manipulações. Ela complementa: “há dez anos o interesse era por Medellín, as Bibliotecas-Parque e o investimento em educação e cultura para o enfrentamento à violência, triste que agora tantos procurem soluções violentas e autoritárias, com encarceramento, tortura, desmandos e mortes”. Sinal dos tempos. Continuamos o almoço e volto para a revisão da segunda parte.
Entre os muitos povos da América Latina, aquele que me parece mais parecido com o brasileiro é o colombiano, nas virtudes, vicissitudes e vícios; no que temos de melhor e de pior. Por isso recorro a Medellín[1]. Em 2013 Medellín recebeu o título de cidade mais inovadora do mundo, ganhando prêmio do Urban Land Institute e The Wall Street Journal que teve por finalistas as cidades de Nova York e Tel Aviv; o diferencial foi a capacidade no estabelecimento de parcerias entre Poder Público, Organizações da Sociedade Civil e Empresas, gerando um ambiente de empreendedorismo social e criatividade. Novo prêmio em 2016, Lee Kuan Yew World City, o equivalente ao Nobel do Urbanismo, desbancando as cidades de Auckland, Sidney, Viena e Toronto. Qual a razão?
Medellín tem sido um grande laboratório no combate à violência através do fortalecimento da Cultura Cidadã. O principal e mais bem sucedido caso entre as grandes cidades do mundo, demonstrando que sem consciência e mobilização comunitária não há inovação perene. Isso com personagens e protagonistas muito semelhantes aos que encontramos pelas esquinas desse nosso continente. Nada diferente do Rio de Janeiro, Caracas, São Paulo ou Guadalajara. A primeira vez que estive na cidade, em 2011, fui recebido ainda como autoridade, pois havia deixado o governo federal há pouco e eles queriam conhecer a filosofia e experiência da Cultura Viva e dos Pontos de Cultura no Brasil, cuja referência já havia chegado por lá. É de Medellín a primeira lei municipal da Cultura Viva, entes de qualquer cidade brasileira. Jorge Melguizo, hoje querido amigo, à época secretário de desenvolvimento social, e anteriormente de cultura, levou-me a conhecer a cidade. Primeiro equipamento a conhecer: banheiros públicos de Medellín.
Alguém levaria uma autoridade estrangeira para visitar os banheiros públicos em sua cidade? Perguntem-se. Da resposta saberemos se a cidade trata com respeito aos seus cidadãos, ou não.
O que havia de especial nos banheiros públicos de Medellín a ponto de virarem atração para uma autoridade estrangeira?
Eram limpos, higienizados, bem arrumados, com água e papel higiênico, mosaicos dentro e fora, flores, uma água caindo em pequena cascata para refrescar o ambiente. Nada luxuoso, nada demais. Ou melhor, tudo a mais. Tratar a população com respeito e dignidade é o mínimo que se espera de um bom governo. Não em um dia de festividade, não como vitrine, mas como ação cotidiana. Posso assegurar, por iniciativa própria, em diversas outras viagens, inspecionei banheiros públicos de Medellín, sempre com manutenção impecável[1]. Ação tão cotidiana a ponto de tornar-se imperceptível. Tratar bem a população, com respeito e dignidade, é a base para a eficácia de toda política de segurança pública (de outras políticas públicas também, porque está tudo interrelacionado).
O governo municipal não resolveu a questão da violência urbana somente com banheiros públicos limpos e bonitos. Também houve as Bibliotecas-Parque nas favelas e comunas; Centros Culturais Comunitários, um deles onde antes havia um lixão, em Morávia; transporte público integrado, metrô, ônibus, teleférico e escada rolante para acesso às comunas nos morros[2]; urbanização criativa das favelas, incluindo embelezamento e obras de arte no acesso, passeio público, boas calçadas nas favelas e ruas; limpeza urbana; escolas públicas de qualidade, cada uma oferecida a um arquiteto da cidade para que desenhasse com funcionalidade e beleza como presente aos moradores; Bons Centros Sociais e de Saúde nas favelas e bairros (nada demais, apenas algo que funciona, com paredes limpas e atendimento ágil, como deveriam ser todos os atendimentos públicos); Feira Internacional do Livro, de Poesia; Plano Urbanístico Integrado[3]… Também não se enfrentou a violência na antes mais violenta cidade do mundo somente com Cultura e bom urbanismo. Desde o início eles tinham muito claro que não se faz política de segurança sem polícia, mas também aprenderam que não se faz política de segurança tão somente com polícia e repressão. Há que ter prevenção.
Nas duas últimas décadas do século XX Medellín ficou mundialmente conhecida por sediar o mais poderoso e violento cartel narcotráfico, liderado por Pablo Escobar. Em 1991 houve 6.700 homicídios no ano, isso em uma cidade com 2 milhões de habitantes. Eram dezenas de assassinatos por dia, com chacinas e corpos espalhados pelas esquinas, 382[1] homicídios para cada 100 mil habitantes. Afora cidades em situação de guerra, em nenhuma outra cidade houve tamanho morticínio no período de um ano. Haviam chegado ao fundo do poço. E tudo estava imbricado pela cultura do narcotráfico, havia até fundo de investimentos, aberto a pessoas de classe média e trabalhadores, que não se envolviam diretamente na atividade, mas que, ao aplicar o dinheiro de suas economias recebiam rentáveis dividendos. Seria como se no Brasil atual, pessoas comuns utilizassem Fundos de Investimento da “Faria Lima” para alavancagem de seus investimentos, pouco se importando com a origem do “Carbono Oculto”. Era um vulcão em erupção contínua. E as pessoas naturalizavam aquela situação.
O problema estava lançado. O povo estaria disposto a seguir sentado sobre aquele vulcão? Decidiram que não mais. O começo de tudo para a superação do estado de violência foi a decisão. Uma questão de Cultura, não de polícia. Já imaginaram se no Brasil as pessoas começassem a questionar a origem dos altos retornos em Fundos de Investimento de origem duvidosa? Seria um bom começo para a redução da violência. Mas por enquanto é mais fácil essas mesmas pessoas aplaudirem chacinas em favelas que a redução de décimos de lucro em suas aplicações financeiras, mesmo sabendo que são elas que alimentam o ciclo da violência; sendo honesto, nem se interessam em saber sobre essas origens criminosas de seus lucros, desde que cheguem aos bolsos, mas seguirão “bradando” contra a insegurança pública que ajudam a sustentar. Pela situação insustentável o governo da Colômbia criou uma Secretaria Especial só para tratar da violência urbana em Medellín.
Novo ensinamento: em situações extremas é necessária uma ação integrada dos poderes da república. União, estados e municípios precisam atuar em conjunto, ninguém pode “lavar as mãos”; nem os que aplicam dinheiro nos fundos de investimento com origem no crime. Assim como o Judiciário, Forças Armadas, polícias, sociedade, empresas, organizações comunitárias, precisam assumir decisão. Não cabe transferir responsabilidade. Segurança e paz precisam ser encaradas enquanto valor universal. Ou a sociedade como um todo se sente em paz e segura, dos mais pobres aos mais ricos, por igual, ou a vida social é corroída em suas entranhas. Segurança é convívio, igualdade, beleza e respeito para todo mundo.
Os Ensinamentos do Laboratório Medellín. A vida é valor máximo, nada justifica o desprezo à vida de quem quer que seja, não há uma só ideia, nem propósito que valha mais que a vida de outrem. O melhor para os mais pobres, com equipamentos públicos de qualidade (vide os banheiros públicos) e tratamento com respeito e dignidade em todas as ações, inclusive as ações e inserções de polícia. Conhecer a geografia física, humana e social antes de toda intervenção urbana. Ética e Estética para acabar com o ciclo de exclusão social, em que arquitetura e urbanismo são também pedagogias de convivência e toda engenharia é social. Orçamento público é sagrado; ensinamento muito importante. Planejamento sem improviso e realizar o que tem que ser feito, sem se preocupar com a popularidade momentânea, a transformação é para a cidadania, não para o consumismo. Governos tem que construir pontes, não “viadutos”, e o poder local, as prefeituras, tem que ser os protagonistas da mudança (acrescento: acima das prefeituras, o Poder Popular é o protagonista das mudanças). Educação e cultura como ferramentas para a transformação. Segurança como direito universal; segurança pública de verdade não é de direita, centro ou esquerda, e nos territórios vulneráveis toda população é prioritária, as crianças em primeiro lugar. Desigualdade gera violência, pobreza não. O cidadão trata o Estado como ele é tratado pelo Estado. Por fim, duas palavras chave para uma boa gestão pública: CONFIANÇA e ESPERANÇA.[1]
A Unidade de Medellín tem como marco a eleição de um partido-movimento municipal, o Compromisso Cidadão[2], em 2004, resultado de uma grande mobilização das energias sociais da cidade, de movimentos comunitários a empresariais, de artistas a gestores públicos, de muita gente. Descrevo esse processo com detalhes em capítulo de outro livro (“Por todos os caminhos”) e não vou me alongar. O fato é que em 20 anos, do auge da violência até 2014/15, a taxa de homicídios foi reduzida em 95%, estabilizando-se em 19 assassinatos por 100 mil, havendo sido reduzida para 15 por 100 mil em 2021. É a mais sustentável redução de índice de violência no mundo e a Cultura e o Urbanismo social tiveram papel preponderante nesse processo, como em uma acupuntura social.
Dois modelos, duas experiências e resultados. Qual escolheremos? Ou então, no lugar de mirarmos Nova York, Barcelona ou Ásia, que tal olharmos para nossos vizinhos e aprendermos com eles? Garanto que vai valer a pena.
[12] No Livro “Por todos os caminhos – Pontos de Cultura na América Latina” eu escrevi a biografia comunitária da cidade de Medellín e de como enfrentaram a violência urbana, que nos anos 1990 transformou a cidade na mais violenta do mundo, o título do capítulo é “Medellin, – fragmentos biográficos e uma cidade” – Ed SESC-SP, 2020
[13] No Brasil, a única autoridade governamental que conheci e que se preocupava com a qualidade dos banheiros públicos foi o prefeito de Campinas, Jacó Bittar -1989/92- com quem tive a honra de trabalhar.
[14] Leonel Brizola propôs algo semelhante para as favelas do Rio de Janeiro, nos anos 1980, mas os detratores, as elites dominantes e aqueles que as seguem, a mídia, defenestraram a proposta, ridicularizando-a até.
[15] Se possível pesquisem, procurem ver a qualidade dos equipamentos públicos da cidade, eu poderia colocar algumas fotos aqui, mas considero mais estimulante que cada um procure por si.
[16] A média de homicídios no Brasil em 2023 foi de 19,4 por cem mil.
[17] Síntese extraída de conferências de Jorge Melguizo.
[18] Na Colômbia há possibilidade de partidos municipais e candidaturas avulsas, uma boa ideia que poderia ser aplicada em outros países, certamente ajudaria muito as cidades brasileiras.





