
Natal (RN) – A paisagem cultural do Rio Grande do Norte tem sido enriquecida pelas mãos e pela visão de Guaraci Gabriel, um artista cuja trajetória se entrelaça com a própria história da arte potiguar. Com obras que transcenderam fronteiras, como o reconhecimento na França e produções cinematográficas em Cuba e no Brasil, Gabriel se consolida como uma figura central no cenário artístico local e internacional.
Sua escultura “A Formiga”, é um testemunho eloquente da profundidade e da relevância de seu trabalho. Longe de ser apenas ferro moldado em linhas gigantes, a peça é uma metáfora viva da persistência coletiva, da força que emerge do pequeno e se agiganta. Evocando a ideia de que o trabalho em conjunto, assim como o das formigas, sustenta mundos inteiros, a escultura se impõe como um símbolo de resiliência.
Um Duelo de Gerações e Tradições
Mas “A Formiga” revela camadas ainda mais profundas, pulsando com uma subjetividade que convida à reflexão. A obra é imaginada como o palco de um duelo simbólico entre Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, pai e filho. Ambos, à sua maneira, carregaram pesos distintos, à semelhança da formiga. Gonzagão, o rei do baião, personifica a tradição, a raiz que insiste em permanecer no chão batido do sertão. Gonzaguinha, por outro lado, representa a ousadia, a queixa, a voz que desafia o pai e canta as dores sociais com uma acidez cortante.
Nesse embate esculpido, o ferro pesado da obra ecoa a solidez de Gonzagão, enquanto a forma ampliada, quase desproporcional da formiga, reflete a rebeldia de Gonzaguinha. É o choque palpável entre a herança e a ruptura, entre o peso da tradição e a leveza da contestação, um desconforto visual que se revela prazeroso, como a arte contemporânea que, ao incomodar pela falta de conhecimento imediato, revela a pluralidade do enriquecimento cultural.
A Arte na Rua: Vida e Reinvenção
A verdadeira magia de “A Formiga” se manifesta na rua, onde a obra se completa. Em meio ao burburinho da vida urbana, ambulantes invadem o espaço, trazendo suas cores e suas estruturas improvisadas. O ferro da escultura se mistura ao ferro das panelas, que movimentam a economia criativa, ao cheiro de milho e às tradições que resistem. Ao som da zabumba que ecoa, a escultura ganha vida, tornando-se uma metáfora potente do povo comum, que persiste e se reinventa diante das adversidades.
Para Gabriel, “A Formiga” é um símbolo de resistência – a resistência do povo que ergue barracas juninas, do trabalhador que carrega pesos invisíveis, do artista que transforma sucata em poesia. É o desconforto que se transmuta em festa, a dor que vira dança, a coragem de ser popular em um mundo muitas vezes desviado de suas raízes.
Guaraci Gabriel: Um Legado que Atravessa Fronteiras
A trajetória de Guaraci Gabriel é marcada pela versatilidade e pelo reconhecimento. Sua arte não se confina a um único formato; ele é um explorador de linguagens, um comunicador que usa a escultura, o cinema e outras mídias para expressar suas visões. O prêmio recebido na França é um atestado da universalidade de sua arte, capaz de dialogar com públicos de diferentes culturas. Da mesma forma, seus filmes, produzidos em Cuba e no Brasil, demonstram a amplitude de sua atuação e seu compromisso em explorar narrativas que transcendem o regional.
Quando “A Formiga” se encontra com a cultura junina, ela se expande para além de uma simples escultura. Ela se torna quadrilha, fogueira, um duelo entre tradição e modernidade. É a arte urbana que se mescla ao povo, e o povo que se mescla à arte, em uma celebração onde até o desconforto se transforma em alegria. Guaraci Gabriel, com sua sensibilidade e sua capacidade de tocar o coletivo, continua a ser uma voz essencial na cena artística, comprovando que a arte, em suas diversas manifestações, é um espelho da alma humana e da riqueza cultural de um povo.
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*** Texto reescrito de um texto recebido do próprio Guaraci Gabriel.






