
Florianópolis, meados dos anos 90. A capital catarinense vivia seu idílio provinciano, e eu, um negro nordestino recém-chegado para uma pós-graduação, parecia um erro de sistema na paisagem. A convivência com a turma resumia-se a um silêncio gélido e a olhares oblíquos, especialmente depois que o resultado do processo seletivo foi divulgado: primeiro lugar. O pecado capital.
Em um dos raros momentos em que a barreira do som foi quebrada, um colega, movida por aquela curiosidade tão comum a quem não consegue conceber o mérito alheio fora de sua bolha, disparou:
— Você passou em primeiro lugar… você já conhecia o coordenador do mestrado?
A pergunta vinha embrulhada em papel de presente de “dúvida genuína”, mas o laço era feito de racismo estrutural e elitismo. O subtexto era cristalino: “Como alguém com a sua ‘bagagem’ — leia-se: cor e sotaque — pode ser melhor do que os ‘nossos’ candidatos, a menos que haja um QI (Quem Indica) por trás?”.
Ele insistiu no ponto, com a mesma finesse de um elefante em uma loja de porcelana:
— Como foi que você “virou” professor em uma universidade?
“Virou”. A escolha do verbo é sintomática. Sugere uma transformação mágica, um acaso do destino, uma mutação inexplicável. Como se a carreira acadêmica fosse um cargo conquistado em uma brincadeira de “ciranda, cirandinha” e não o resultado de anos de estudo, trabalho árduo e superação de barreiras.
Respirei fundo e decidi exercer o meu direito de resposta, não para me justificar, mas para expor a nudez daquela curiosidade perversa.
— Bem, a minha “virada” para professor aconteceu de forma bastante… prosaica, eu diria — comecei, com um sorriso que tentava disfarçar a minha indignação.
— Depois de me formar, fui morar em Roraima. Sim, Roraima. Aquele lugar que, para muitos aqui, parece ficar no fim do mundo. Lá, trabalhei como repórter em dois jornais locais. O que me deu uma boa dose de realidade e a capacidade de traduzir o complexo em linguagem acessível. Depois, fui articular a fundação de uma ONG para trabalhar o Estatuto da Criança e do Adolescente. Foi um trabalho duro, de formiguinha, mas que me ensinou a lidar com o terreno minado da burocracia e a articular diferentes atores sociais.
— Em seguida, veio o primeiro concurso para a Fundação Nacional de Saúde. Passei, e fui integrar a equipe como antropólogo no projeto de saúde Yanomami. Uma experiência transformadora, que me permitiu conviver com uma cultura riquíssima e desafiadora, e que me deu a vivência necessária para aprofundar meus estudos em antropologia.
— Depois, vi um anúncio — entenda-se: edital, um processo seletivo público, impessoal e meritocrático — para a Universidade Federal de Roraima. Fiz minha inscrição e recebi 10 temas para estudar. Estudá-los a fundo, não apenas dar uma lida. Escrevi uma apostila com cerca de 10 páginas para cada tema. No dia da prova, na hora, houve o sorteio de um dos temas. Escrevi 6 laudas sobre o mesmo. Resultado: aprovado na primeira fase.
— Depois, foi sorteado um tema para ministrar uma aula — e aqui, a coisa aperta: em 24 horas —. Ministrei a aula para uma banca de doutores em Antropologia. Não para meus amigos ou para o coordenador do mestrado que, a propósito, eu nunca tinha visto na vida antes do concurso. Fui considerado apto. Em outras palavras, passei por mérito. E foi assim, com muito estudo, trabalho e superação, que “virei” professor.
A colega, visivelmente desconcertada por ter aberto a caixa de Pandora de uma trajetória que ela não conseguia imaginar, tentou disfarçar com um comentário sem graça: “Nossa, quanta coisa…”.
Dei de ombros, mantendo o sorriso irônico.
— É. A vida tem dessas surpresas. Às vezes, a gente “vira” professor não por acaso, mas porque se preparou para isso. E, acredite ou não, o mérito não tem CEP, cor ou sotaque.
Aquela experiência em Florianópolis foi um microcosmo do que eu enfrentaria ao longo da minha carreira: a necessidade constante de provar a minha competência, a desconfiança silenciosa, a surpresa condescendente diante do meu sucesso. Mas ela também foi um combustível para a minha determinação. A minha resposta não foi apenas para a colega, mas para todos aqueles que, como ela, se recusam a enxergar a diversidade como um valor fundamental da sociedade e da academia. E, acima de tudo, foi uma afirmação da minha identidade e da minha história. Uma história que não foi “virada”, mas sim construída, tijolo por tijolo, com suor, inteligência e muita, muita resistência.
Enquanto o microcosmo da pós-graduação em Florianópolis tentava me reduzir ao silêncio ou à condição de um exótico “acidente estatístico”, a vida real — aquela construída fora dos corredores de mármore da universidade — tecia laços de resistência muito mais sólidos. Ironia suprema do destino: a tribo que escolhi (e que me escolheu) como família era a antítese daquela homogeneidade acadêmica. Meus maiores escudeiros, irmãos de alma e de luta, formavam um mosaico que, por si só, desmentia a lógica excludente que tentavam me impor. Eram eles: um judeu argentino, com a bagagem cultural e a resistência histórica tatuadas na alma; uma baiana, com seu dendê, sua força e sua alegria contagiante, desafiando a sisudez local; e um catarinense, sim, “llegítimo”, com sobrenome europeu, mas com uma visão de mundo tão ampla e humanista que o tornava um alienígena naquele ambiente. Com eles, Juntos, formávamos uma irmandade que se fortalecia na diversidade, provando que a verdadeira riqueza da vida está em nos conectarmos com o outro, na sua singularidade, e não em nos isolarmos em bolhas. E foi com essa base sólida, com essa família improvável e maravilhosa, que continuei a minha jornada, não para provar nada para os meus detratores, mas para construir a minha história, com orgulho e dignidade, a cada passo, a cada conquista, a cada lauda escrita, a cada “virada” de página na minha vida.





