Eram quase onze da noite de uma terça-feira chuvosa. O asfalto brilhava sob as luzes artificiais do condomínio de luxo onde, ironicamente, o salário de professor universitário me permitia residir – desde que eu vivesse de vento e cafeína. Eu era o terceiro carro na fila para a cancela.
O ritual noturno é um balé burocrático. O primeiro carro chega, dá um único toque sutil no farol. A guarita, blindada com uma película escura que transforma o guarda numa entidade onisciente e invisível, responde com o som mecânico da liberdade. Clack. Passou.
O segundo carro repete o protocolo. Toque de luz, clack, abriu.
Chega a minha vez. Doutor em Letras, pós-doutorado em Filosofia da Linguagem, mas ali, diante da tecnologia da portaria, eu não passava de um emissor de sinal. Com a paciência de quem ouviu “mas professor, isso vai cair na prova?” durante quatro horas seguidas, pisquei os faróis.
Um. Dois. Três.
Nada.
Silêncio apenas cortado pelo som rítmico do limpador de para-brisas. A guarita parecia um monolito de Kubrick, inerte e hostil.
Buzinei. Um toque curto, educado, um pedido de socorro à divindade lá dentro. A porta da guarita se abriu com violência. O segurança, um sujeito que parecia ter sido desenhado em economia de material – cerca de um metro e cinquenta e cinco, cinquenta e nove quilos, branco como papel de prova zerada, com a compleição física de quem sobreviveu à fome e ao preconceito do Nordeste com doses cavalares de amargura – marchou em minha direção.
Ele parou ao lado da minha janela. O rosto era um mapa de todos os desprazeres do universo. Inclinou-se para me ver e, sem meias palavras, disparou em alto e bom tom, desafiador:
— O que foi? Vai querer entrar? Quer o que aqui?
Respirei fundo. O meu alter ego acadêmico queria citar Foucault sobre as microfísicas do poder na portaria, mas o meu eu cansado queria apenas o meu sofá. O guarda, em sua ignorância prepotente, acreditava ser o guardião do castelo. Decidi, então, reescrever o roteiro.
Abri um sorriso que, de sutil, tinha apenas a intenção de ser letalmente ácido. Olhei para ele com a condescendência de um orientador de tese vendo um aluno cometer um erro gramatical primário.
— Meu filho — comecei, num tom de voz calmo, quase sussurrado, que o obrigou a se inclinar mais para ouvir — fui alertado pela sua mãe… — pausei para efeito dramático, e o rosto dele travou por um microssegundo — …que mora aqui, por sinal. Da sua revolta. Revoltadinho, não é?
Os olhos dele se arregalaram atrás das sobrancelhas cerradas. Sem entender nada do que eu dizia.
— Revoltado porque ela refez a vida depois de ter sido abandonada pelo seu pai… — continuei tecendo uma teia de fatos e invenções que pareciam mais críveis que a realidade — e você, coitado, cresceu acreditando que sua madrasta era sua mãe; mas, não sei se você sabe, sua mãe (a biológica) com dignidade, estudou, cresceu e hoje mora neste condomínio onde você, ironicamente, trabalha.
O queixo dele caiu alguns milímetros. Ele piscou.
— Ah, e quanto ao meu papel aqui? — completei a cartada — Sou o novo namorado dela. Por favor, para que não haja falha na comunicação: sou seu quase padrasto. Abra o portão, por favor. Ah, meu nome, você sabe, né? Está aí na lista de moradores. Não me faça repetir.
O efeito foi imediato e absoluto. A figura dele, antes imponente em sua pequenez, encolheu ainda mais. O mapa de desprazeres em seu rosto foi substituído por uma palidez de quem acabara de ver o fantasma do seu pior pesadelo conjugal.
Ele não disse uma palavra. Endireitou-se, deu meia-volta com uma rigidez mecânica e correu de volta para a guarita.
Clack.
O portão abriu instantaneamente.
Passei devagar com o carro, olhando para o retrovisor. Ele estava na janela da guarita, com o telefone na mão, discando freneticamente. A vingança é um prato que se come frio, e eu tinha a certeza de que ele teria uma conversa longa e constrangedora com a própria mãe.
Fui para casa. Tomei meu vinho e sorri, satisfeito. Aquele clack valeu mais que qualquer diploma. Afinal, a cancela, no fim das contas, só abria para quem tinha a chave certa… ou para quem conhecia a mãe do porteiro.








