Vencemos, vencemos. Não. Não vencemos.
Enquanto permanecer em curso o projeto político que transforma o ódio em instrumento de mobilização social, ameaça direitos, aprofunda desigualdades e coloca em risco as condições de vida de milhões de pessoas, não podemos confundir uma vitória eleitoral com a superação das forças que nos trouxeram até aqui.
Ganhamos uma batalha importante, fundamental. Mas ainda não conseguimos interromper a marcha desse projeto. A eleição produziu um resultado decisivo, mas não eliminou as estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais que sustentaram seu crescimento.
Isso não diminui a vitória. Ao contrário, permite compreender sua dimensão e, principalmente, a responsabilidade que ela nos impõe.
A juventude ergueu as barricadas
Ao longo dos últimos 15, 20 dias do segundo turno, acompanhamos uma mobilização que me encheu de esperança. Milito desde a adolescência e nunca tinha visto, com tamanha intensidade e massificação, algo semelhante.
O que mais me marcou foi a juventude. Havia o temor de que toda uma geração perdesse os melhores anos de sua vida sob um governo autoritário, em um ambiente de perseguição às manifestações, de restrições à organização coletiva e de ataques aos direitos de diferentes segmentos da população.
LGBTs, indígenas, negras e negros, mulheres e tantos outros grupos estavam entre aqueles que poderiam sofrer diretamente as consequências desse avanço conservador.
Mas a juventude compreendeu que o resultado daquela disputa interferiria em seu futuro. Ergueu barricadas, ocupou espaços, mobilizou-se e esteve entre os primeiros segmentos a deflagrar esse processo de resistência.
Essa mobilização demonstrou que a política não se resume às instituições, aos partidos e às disputas eleitorais. Ela também se constrói nas ruas, nas escolas, nas universidades, nos coletivos, nos territórios e nas relações cotidianas.
A resistência veio de muitos lugares
Os povos indígenas também tiveram participação importante nesse processo. Mobilizaram-se nas redes, organizaram-se para chegar aos locais de votação e denunciaram as violências sofridas. Ao mesmo tempo, enfrentaram ameaças e ataques, especialmente aqueles que estavam nos territórios.
Não podemos ignorar essa realidade. Para quem vive sob a pressão de invasões, conflitos territoriais e ameaças, a disputa eleitoral não é uma discussão distante. Ela interfere nas condições concretas de existência, na proteção dos territórios e na possibilidade de continuar vivendo segundo seus próprios modos de vida.
A resistência também veio dos setores da cultura, das organizações espontâneas e de diferentes segmentos da sociedade que compreenderam a gravidade daquele momento.
Vimos, inclusive, pessoas de diferentes tradições evangélicas se posicionarem contra manipulações políticas e pressões exercidas dentro das igrejas. Presbiterianos, metodistas, anglicanos e integrantes de outros grupos expressaram discordância. Também houve pessoas de comunidades neopentecostais que questionaram orientações de seus próprios pastores.
Esse movimento merece atenção porque revela que nenhuma sociedade é um bloco homogêneo. Mesmo em espaços nos quais determinadas lideranças procuram impor uma orientação política, existem contradições, divergências e pessoas dispostas a defender sua autonomia de consciência.
A resistência, portanto, não pertenceu a um único partido, segmento ou organização. Ela se manifestou de diferentes maneiras, em muitos lugares, e demonstrou que uma parcela expressiva da sociedade não estava disposta a aceitar passivamente aquele projeto.
A emoção da vitória e a responsabilidade que vem depois
No dia da votação, acompanhei cenas que me emocionaram profundamente. Os últimos dias de campanha sempre me provocaram muita emoção, mas, naquele momento, minha convicção de que venceríamos a batalha se firmou e não me abandonou durante o segundo turno.
Foi uma experiência significativa para quem acompanha a vida política brasileira há décadas.
Mas a emoção da vitória não pode nos impedir de enxergar o tamanho da tarefa que permanece diante de nós.
Uma vitória eleitoral pode interromper determinado caminho institucional, mas não transforma automaticamente a sociedade. Não elimina o conservadorismo, não desfaz preconceitos históricos, não resolve a precarização do trabalho, não desarticula as redes de desinformação e não garante, por si só, a proteção dos grupos historicamente perseguidos.
É por isso que precisamos enfrentar o poder das grandes plataformas digitais, as chamadas big techs, e discutir como seus modelos de negócio, seus mecanismos de distribuição de conteúdo e sua influência sobre o debate público afetam a circulação de informações e a vida democrática.
Precisamos também enfrentar a chamada polícia de costumes: a tentativa de controlar corpos, comportamentos, identidades, afetos e modos de vida por meio da pressão política e moral. Esse controle atinge especialmente aqueles que conquistaram direitos depois de longas histórias de resistência, enfrentamento e violência.
Não podemos aceitar que direitos fundamentais sejam tratados como concessões temporárias, sujeitos à vontade de grupos que pretendem determinar como as pessoas devem viver.
A classe trabalhadora e os limites da vitória eleitoral
Outro elemento importante foi a manifestação de setores da classe trabalhadora contra a precarização de suas vidas.
Esse aspecto precisa ser considerado com seriedade. A mobilização eleitoral não elimina as contradições entre as expectativas populares e as políticas efetivamente conduzidas pelo governo federal. A defesa dos direitos sociais exige que essas contradições sejam debatidas, inclusive quando envolvem governos que recebem apoio de setores comprometidos com a transformação social.
Não basta defender a democracia como procedimento eleitoral. É preciso discutir as condições materiais que permitem às pessoas viver com dignidade: trabalho, renda, moradia, alimentação, saúde, educação, cultura e tempo para viver.
Se as pessoas continuam submetidas à insegurança econômica, à exploração e à ausência de perspectivas, as condições que alimentam o ressentimento social permanecem presentes.
Isso não significa reduzir o crescimento do conservadorismo a uma única causa econômica. Significa reconhecer que a disputa política também se desenvolve sobre as condições concretas de existência da população e que a defesa dos direitos precisa alcançar a vida cotidiana.
Formar novas gerações para transformar a sociedade
Talvez a tarefa mais importante seja formar as novas gerações para compreender a história como um processo.
Não podemos deixar que a memória coletiva seja reduzida a versões convenientes aos grupos que disputam o poder. Precisamos conhecer as lutas que nos antecederam, compreender as estruturas que produziram as desigualdades e reconhecer as pessoas e os povos que resistiram, mesmo quando suas histórias foram silenciadas.
É por meio desse conhecimento que construímos identidade e consciência. Passamos a compreender quem somos, qual lugar ocupamos na sociedade e quais relações históricas contribuíram para determinar esse lugar.
A educação política e histórica não deve servir apenas para ensinar às novas gerações em quem votar. Deve ajudá-las a compreender por que determinados projetos políticos surgem, como conquistam apoio, quais interesses representam e quais consequências produzem sobre a vida coletiva.
Sem essa compreensão, corremos o risco de transformar a vitória em uma lembrança emocionante, sem construir as condições para que ela produza mudanças duradouras.
Precisamos reconhecer a grandeza da batalha que vencemos. Precisamos valorizar a juventude, os povos indígenas, os movimentos sociais, os setores da cultura, os trabalhadores, as organizações populares e todas as pessoas que se mobilizaram para defender seus direitos e suas possibilidades de futuro.
Mas precisamos compreender que essa vitória só ganhará permanência se for acompanhada de organização popular, ampliação de direitos, fortalecimento dos movimentos sociais, formação política e transformação das condições materiais de existência.
A democracia não se sustenta apenas com eleições. Ela exige participação, consciência histórica, direitos sociais e capacidade de organização coletiva. Exige também que continuemos atentos às contradições e que não abramos mão da crítica quando ela se fizer necessária.
Não podemos entregar às próximas gerações uma vitória eleitoral como se ela fosse a solução definitiva para os problemas que enfrentamos.
Ganhamos uma batalha, mas não derrotamos o projeto que ameaça nossa humanidade. A nossa tarefa não é apenas impedir o retrocesso: é construir as condições para que ele não volte a encontrar terreno fértil. E isso exige muito mais do que votar. Exige memória, organização, consciência e luta.








