Peço licença para chegar.
Fui convidado a escrever nesta página do Coletivo Foque, um coletivo que tem história, trajetória de luta e resistência no Rio Grande do Norte, e que conta com pessoas e experiências que são referência para muita gente Brasil afora. Por isso, recebo esse convite com o máximo respeito e com a consciência da responsabilidade que ele representa.
Esse convite chega em um momento particularmente delicado da história do nosso país.
Sabemos que a eleição que se aproxima não será uma batalha definitiva. Outras tantas virão, e continuaremos tendo que travá-las. Mas isso não diminui a importância do momento que estamos vivendo. Há muito em jogo. Não se trata apenas de decidir quem governará o Brasil nos próximos anos. Trata-se também de disputar os rumos da democracia, da soberania nacional e do próprio planeta, em um cenário de profundas transformações geopolíticas.
E, nessa disputa, a extrema direita internacional tem avançado, articulando governos, interesses econômicos e projetos de poder que ameaçam direitos, aprofundam desigualdades e colocam em risco conquistas históricas dos trabalhadores e das trabalhadoras.
Basta olhar para a América Latina.
Na Argentina de Javier Milei, o programa de austeridade tem provocado conflitos sociais, mobilizações sindicais e grandes manifestações populares. Em outubro deste ano, trabalhadores voltaram às ruas para denunciar o enfraquecimento da indústria nacional e a perda de postos de trabalho. As mobilizações também expressam a resistência aos cortes no financiamento das universidades públicas e aos ataques a políticas sociais. Não é por acaso que tantos setores da sociedade argentina seguem mobilizados diante dos rumos do país.
No Chile, os indicadores econômicos também exigem atenção. A taxa de desemprego chegou a 9,6% no trimestre de junho a agosto de 2026, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas chileno. O Fundo Monetário Internacional, por sua vez, projeta crescimento econômico de apenas 1,8% para este ano. Esses números, por si só, não explicam toda a realidade chilena, mas revelam dificuldades concretas para a população.
Na Colômbia, o avanço da direita também acende um sinal de alerta. A nova orientação do governo e as propostas de redução de recursos destinados à justiça de transição e à busca por pessoas desaparecidas colocam em debate o futuro de conquistas fundamentais para as vítimas do conflito armado e para a construção da paz. Ao mesmo tempo, mudanças nos protocolos policiais para dispersar manifestações provocam preocupações sobre o direito de protestar e as liberdades democráticas.
No Peru, o conservadorismo tem avançado também sobre a vida cotidiana. Entre as medidas anunciadas pelo governo de Keiko Fujimori estão restrições à aparência de estudantes nas escolas públicas, como a proibição de cabelos compridos para meninos e de maquiagem, esmaltes e cabelos tingidos. Sob o discurso da ordem e da disciplina, abre-se espaço para o controle dos corpos e das expressões individuais. É preciso perguntar: que sociedade se pretende construir quando a autoridade do Estado passa a regular até a aparência de crianças e adolescentes?
E a Venezuela? O país vive uma situação dramática de pressão e ingerência externa. A intervenção dos Estados Unidos, que culminou na captura de Nicolás Maduro em janeiro deste ano, e os acordos posteriores que ampliaram o controle norte-americano sobre recursos petrolíferos venezuelanos expõem a dimensão dos interesses estratégicos em disputa. O que está em questão não é apenas o destino de um governo, mas também o direito de um povo decidir seu próprio futuro, sem que a soberania nacional seja subordinada aos interesses de uma potência estrangeira.
É nesse contexto que precisamos olhar para o Brasil.
O Brasil seria, nessa disputa, a chamada joia da coroa. Mas a coroa de quem? A serviço de quais interesses? De um projeto de país soberano, que respeite seus povos e sua diversidade, ou de um projeto subordinado aos interesses de quem pretende transformar a América Latina em território de exploração econômica e dominação política?
Não podemos perder de vista que o Brasil ocupa uma posição estratégica na região. Seu território, suas riquezas naturais, sua biodiversidade, seus recursos energéticos e sua importância política fazem dele uma peça central nessa disputa. A captura do Brasil por um projeto autoritário e alinhado à extrema direita internacional representaria um risco que ultrapassaria nossas fronteiras.
É por isso que não estamos falando de uma eleição qualquer.
Estão em jogo os direitos das mulheres, dos povos indígenas, das pessoas LGBTQIA+, da população negra, dos trabalhadores e das trabalhadoras. Está em jogo a proteção dos territórios, a preservação ambiental, a liberdade de organização e manifestação e a possibilidade de construirmos uma sociedade que não naturalize a violência, a desigualdade e a retirada de direitos.
Está em risco a vida de todas e todos que defendem a democracia, a diversidade e a soberania dos povos.
E há algo ainda mais preocupante: a naturalização dessa perversidade. O perigo não está apenas na possibilidade de que direitos sejam retirados ou que a violência política se intensifique. Está também em fazer com que tudo isso passe a ser visto como normal, inevitável ou necessário. É assim que projetos autoritários avançam: transformando a injustiça em regra, a violência em instrumento de governo e a perda de direitos em algo aceitável.
Por isso, assumir esta coluna no espaço do Coletivo Foque é mais do que aceitar um convite para escrever. É assumir uma responsabilidade política, intelectual e coletiva. É contribuir para o debate público, para a circulação de ideias e para a construção de resistência diante dos projetos que ameaçam a democracia e a soberania dos povos.
Escrever, neste momento, também é uma forma de tomar posição. É recusar o silêncio, enfrentar a naturalização da barbárie e afirmar que a democracia não se sustenta apenas nas urnas: ela precisa ser defendida cotidianamente, nas ruas, nos territórios, nos espaços de organização popular e em cada lugar onde a vida e a dignidade humana estejam ameaçadas.
Chego, portanto, com respeito à história do Coletivo Foque, disposição para o diálogo e compromisso com as lutas que nos trouxeram até aqui.
Peço licença para chegar. E chego para somar.
Porque a luta pela democracia, pela soberania e pela vida não se encerra em uma eleição. É uma luta permanente.
E vamos à luta, nas ruas e nas redes!
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Givanildo Manoel da Silva, o Giva, é escritor, educador, indígena e articulador cultural. Atua nas lutas por direitos humanos, democracia, justiça social, defesa dos povos indígenas e preservação do meio ambiente. É autor de Minha Cumadi Fulôzinha (2025) e Terra de Sangue, Sangue na Terra: O Rastro do Colono-Capitalismo em Pindorama (2025), obras que dialogam com a memória, a ancestralidade e a crítica ao colonialismo. Sua atuação articula pensamento crítico, militância política e defesa dos territórios e da vida.





