Uma análise histórica e literária sobre a militância política e a sublimação ideológica na obra cascudiana
Um dia desses de 2025, estava eu na sala de aula do curso de pós-graduação em estudos línguísticos e literários o IFRN SPP, recebendo uma aula de um professor da área de história. No entremeio da aula, fiz referência a Luís da Câmara Cascudo para ilustrar uma intervenção no debate que por hora se desenrolava. Logo não fui bem recepcionado pelo professor. Em rápida explanação, aquele, fez duras críticas ao historiador e antropólogo potiguar, falando inclusive de sua história com o movimento integralista que era simpático ao nazifascismo. Confesso que nunca havia ouvido falar disso.
Dias se passaram e me veio à mente a lembrança de que por volta de 2024 haviam feito pichações na éstatua de Cascudo na Praça André de Albuquerque, no centro de Natal, e que ao comentar esse episódio na sala de aula do curso de jornalismo da UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a reação da professora que estava na sala naquela hora, também foi de desprezo à figura do folclorista. Como esses dois momentos distintos ocorreram em duas instituições de Ensino superior públicas, não pareciam coincidências, comecei a ligar os fatos e perceber que o nome de Câmara Cascudo não era mais um consenso positivo em setores do ambiente acadêmico. Passei então a investigar a suspeita.
Feitas diversas leituras, consultadas raras fontes, ouvidos alguns intelectuais e, principalmente, consultando os escritos de Luiz Gonzaga Cortez, no livro , Câmara Cascudo, Jornalista Integralista , publicado pela editora da UFRN em 1995, trago aos interessados no assunto a presente matéria.
Antes de se consolidar como a maior autoridade em antropologia, etnografia e folclore do Brasil, Luís da Câmara Cascudo (1898–1986) ocupou uma posição de protagonismo na política partidária nacional. Durante a década de 1930, o intelectual potiguar não foi apenas um simpatizante, mas o principal articulador e Chefe Provincial da Ação Integralista Brasileira (AIB) no Rio Grande do Norte.
Sob a liderança nacional de Plínio Salgado, o movimento de inspiração fascista — cujos membros ficaram conhecidos como ‘camisas-verdes’ — encontrou em Cascudo um de seus mais eruditos propagandistas.

A adesão de Cascudo ao Sigma (o símbolo matemático adotado pela organização) ocorreu em 1933.
Inicialmente governado por um triunvirato, o núcleo potiguar passou inteiramente ao comando do folclorista em 1934, quando ele foi nomeado Chefe Provincial. Sob as ordens de Cascudo, a AIB no Rio Grande do Norte desenhou uma estrutura piramidal rígida, que contava com o apoio de nomes expressivos da sociedade local, como o Monsenhor Walfredo Gurgel (futuro governador do Estado), o intelectual Otto Guerra e o maestro Waldemar de Almeida.
Cascudo coordenava rituais minuciosos que incluíam sessões de doutrinação, desfiles militares pelas ruas de Natal com a saudação tupi “Anauê”, e a criação de núcleos municipais no interior. A presença da Igreja Católica e de militares de baixa patente dava o tom do movimento no Estado, que se colocava como guardião da ordem contra a “desordem liberal”.
O IMPACTO DO SOVIÉTE DE NATAL EM 1935.
A atuação de Cascudo ganhou contornos dramáticos em novembro de 1935, com a eclosão da Intentona Comunista em Natal. Durante pouco mais de três dias, a capital potiguar abrigou o Comitê Popular Revolucionário — a única experiência concreta de um governo de inspiração soviética em uma capital brasileira. Liderado pelo sapateiro José Praxedes e por militares de baixa patente, o curto governo confiscou transportes e distribuiu alimentos, afirmam historiadores.
Na noite do levante (23 de novembro), Cascudo e a elite intelectual local precisaram fugir às pressas sob tiroteio. O trauma coletivo e o pânico gerados pelo episódio radicalizaram o discurso do escritor. A “ameaça vermelha”, antes um conceito retórico, materializou-se. A partir dali, Cascudo usou o fantasma do levante de 1935 para justificar a necessidade de um Estado forte, centralizado e anticomunista, validando a atuação da AIB na imprensa, através de seus escritos.
A TRIBUNA JORNALÍSTICA: O TOM DOUTRINADOR .
No livro “Câmara Cascudo, jornalista integralista” (1995), o pesquisador Luiz Gonzaga Cortez, analisa a produção escrita do autor em periódicos como A Offensiva, o principal órgão de imprensa da AIB. Cortez demonstra que Cascudo atuava como um “intelectual orgânico” de direita. Longe de se limitar a slogans vazios, ele usava sua erudição histórica e jurídica para dar profundidade teórica ao movimento.
Em seus artigos, o tom era moralista, anti-burguês, anticapitalista e profundamente católico. Cascudo atacava o “banqueirismo internacional” e a farsa da democracia liberal da República Velha, à qual culpava pela miséria do interior do país. Para ele, o integralismo era uma “terceira via” espiritualista que uniria patrões e empregados como um “homem integral”, salvando o Brasil do materialismo estrangeiro (tanto o americano quanto o soviético).
A despeito da militância extremista, a mente de Cascudo operava em dupla jornada. Enquanto comandava marchas fardadas, ele mantinha uma intensa e afetuosa troca de correspondências com Mário de Andrade, intelectual paulista, antifascista convicto e um dos pilares da esquerda cultural da época, o que parecia uma contradição. Reunidas na obra “Câmara Cascudo e Mário de Andrade: Cartas, 1924-1944”, as mensagens revelam que a obsessão mútua em mapear a identidade brasileira superava as barreiras ideológicas.
Tratando-se por “Mano Mário” e “Cascudinho”, os dois trocavam dados etnográficos preciosos. Cascudo enviava partituras de catimbós, torés e rezas do Nordeste que Mário utilizava em seus estudos musicais e na construção de Macunaíma. Nas cartas, Mário de Andrade fazia advertências veladas sobre o perigo do totalitarismo e do sufocamento das liberdades, enquanto Cascudo rebatia argumentando que seu integralismo era puramente um misticismo de salvação cultural. Sabendo que nenhum convenceria o outro, firmaram um pacto velado: a política partidária ficaria em segundo plano para que a pesquisa do folclore nacional sobrevivesse.
O envolvimento formal de Câmara Cascudo com o integralismo terminou de forma abrupta em novembro de 1937, quando Getúlio Vargas decretou o golpe do Estado Novo, fechando o Congresso e extinguindo todos os partidos e agremiações políticas — incluindo a própria AIB.
Conforme registros de vários estudiosos (historiadores) , ao compreender o novo cenário autoritário e a dissolução do movimento, Cascudo recolheu seus uniformes de camisa-verde, insígnias, bandeiras e livros integralistas e os queimou no quintal de sua residência em Natal. O intelectual rompeu em definitivo com a militância político-partidária e mergulhou em um recuo, um silêncio estratégico, dedicando o restante de sua longa vida exclusivamente à cátedra universitária e à produção de sua monumental obra sobre a cultura popular brasileira.
A OMISSÃO BIOGRÁFICA E O SILENCIAMENTO.
A investigação sobre a produção de Luís da Câmara Cascudo após 1937 revela um fenômeno duplo: por um lado, o silenciamento biográfico de sua atuação política; por outro, a sublimação conceitual de suas premissas ideológicas em seus livros mais celebrados.
Fora feita uma Limpeza de Acervo: Nenhuma crônica ou panfleto doutrinário escrito para periódicos integralistas foi compilado ou republicado pelo autor, que operou uma verdadeira limpeza em seu catálogo ativo.
Cascudo optou por um silêncio proposital em entrevistas, até o fim da vida, Cascudo evitou o tema e quando compelido a falar, minimizava a experiência tratando-a como um ‘romantismo da juventude’ ou um arrebatamento místico puramente nacionalista, rejeitando associações com o fascismo europeu, mesmo que soubesse, no intimo, que existia.
Se as siglas partidárias foram arquivadas, a mundivisão conservadora permaneceu como lente de análise.
Essa persistência fica evidente em clássicos como o Dicionário do Folclore Brasileiro (1954) e História da Alimentação no Brasil (1967):
A Busca pela ‘Brasilidade Pura’: O projeto integralista, no discurso, buscava uma essência imune a contaminações estrangeiras. Na maturidade, Cascudo redirecionou essa busca para a cultura popular. Mitos, ritos e superstições passaram a representar a autêntica ‘alma’ espiritual da nação.
AUSÊNCIA DE LUTA DE CLASSES.
Críticos notam que a obra cascudiana descreve o Brasil sem o conceito de fricção social. O modelo corporativista, que pregava a união harmônica de classes, reflete-se em uma antropologia que prioriza a cooperação, a fidalguia e a tradição em detrimento dos conflitos históricos.
EVIDÊNCIAS TEXTUAIS.
“História da Alimentação no Brasil”
Lançada em 1967, a História da Alimentação no Brasil serve como exemplo nítido de como premissas tradicionalistas, hierárquicas e organicistas estruturaram o pensamento maduro de Cascudo.
Ele descreve a mesa patriarcal como lugar de harmonia social. Ao reconstruir o ambiente das cozinhas coloniais e das casas-grandes, Cascudo atenua as tensões violentas do sistema escravocrata, preferindo focar em uma idealizada complementaridade funções e afeto doméstico:
“A mesa da casa-grande era a síntese da ordem. Havia uma distribuição quase ritualística e de respeito às funções e hierarquias domésticas.”
A Fidalguia contra o Materialismo.
A exaltação do estilo de vida rural do Nordeste colonial funciona como uma salvaguarda de valores aristocráticos e morais, em oposição direta ao pragmatismo mercantil e ao capitalismo financeiro cosmopolita:
” _O açúcar trouxe ao Brasil o senso da fidalguia e da hospitalidade. O comer bem e o oferecer fartamente eram deveres do homem de bem do Nordeste.”
A HERANÇA EUROPEIA E A NATURALIZAÇAO DO CONFLITO.
A ordem institucional e o eixo organizador permanecem centralizados na matriz portuguesa. A agência cultural e econômica de grupos subalternizados, como o negro escravizado, é frequentemente delimitada ao plano místico ou folclórico, mantendo o desenho de um organismo social estático: ” O negro foi uma constante, mas não uma determinante econômica.”
A Tradição contra o dirigismo Ideológico aparece já no prefácio onde o autor expressa ceticismo frente às imposições e planejamentos técnicos modernos (uma crítica sutil a pensadores progressistas contemporâneos, como Josué de Castro, por exemplo, defendendo a soberania orgânica do costume:
“Existem certas predileções alimentares que os séculos fizeram hábitos, explicáveis como uma norma de uso e um respeito de herança dos mantimentos de tradição. […] A cultura popular é uma realidade difícil de render-se a uma imposição legislativa ou a uma pregação teórica.”
Por fim, este trabalho jornalístico apresenta-se como um contraponto a uma visão monofílica de muitos pesquisadores e leitores de uma fonte só. Não almeja enlamear a importância dos estudos de Câmara Cascudo para a cultura popular e para o folclore, porém, ultrapassar o mito da supremacia, a cegueira da fonte única e denunciar vez por outra a tentativa daquele intelectual elitista de amenizar opiniões e conceitos diante de uma estrutura social que segregava povos, costumes e culturas, dos povos originários e negros, em detrimento da cultura eurocêntrica. Vez por outra encontramos traços de preconceitos ou opiniões que buscam legitimar desigualdades.
Referências Bibliográficas
ANDRADE, Mário de; CASCUDO, Luís da Câmara. Câmara Cascudo e Mário de Andrade: Cartas, 1924-1944. São Paulo: Global Editora, 2010.
CASCUDO, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2004 (Orig. 1967).
CORTEZ, Luiz Gonzaga. Câmara Cascudo, jornalista integralista. Natal: Editora da UFRN, 1995.
MEDEIROS, Gislainy Alencar. Luís da Câmara Cascudo: a produção histórica de uma subjetividade integralista (1910-1940). Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), 2005.








