A história é o farol da humanidade. Sem ela, perdemos a capacidade de compreender nossas origens, reconhecer nossa ancestralidade e entender os caminhos que nos trouxeram até aqui. Um povo que não conhece sua história corre o risco de não compreender as forças que o submetem, nem reconhecer as possibilidades de transformar sua própria realidade.
No momento histórico que estamos vivendo, recorrer à história e à ancestralidade não é um exercício de nostalgia. É uma necessidade política. Precisamos olhar para o passado para compreender o presente, reconhecer as forças que disputam nossos destinos e saber de que lado da história queremos estar.
Os colonizadores, hoje representados pelas forças do colono-capitalismo, nunca abandonaram seu projeto de submissão dos povos que invadiram estas terras, tampouco daqueles que, ao longo dos séculos, foram incorporados à engrenagem da exploração. Mudam os discursos, as instituições e os instrumentos de dominação, mas permanece a disputa em torno de quem controla a riqueza, a terra, o trabalho e os destinos da sociedade.
A invasão colonial não produziu apenas o extermínio físico de milhões de pessoas. Também buscou destruir memórias, apagar identidades, desqualificar conhecimentos e interromper a transmissão das ancestralidades. Pretendeu transformar povos vivos em povos do passado, como se nossas histórias tivessem terminado e nossa existência dependesse do reconhecimento daqueles que nos invadiram.
A eficácia desse projeto colonial também se manifesta na tentativa de matar em vida: destruir referências, romper vínculos ancestrais e fazer com que os próprios povos submetidos à dominação percam a capacidade de reconhecer as estruturas que os oprimem. É uma violência que não se encerra no corpo, pois alcança a memória, a identidade e a possibilidade de imaginar outros mundos.
Mas nossos povos resistiram. Nossas ancestralidades permaneceram vivas, mesmo diante das tentativas de apagamento. E essa resistência nos ensina que a história não é apenas o registro da violência sofrida: é também a memória das lutas, dos enfrentamentos e da capacidade coletiva de continuar existindo.
É nessa perspectiva que precisamos compreender as disputas políticas do presente. A posição da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN), ao se manifestar contra o avanço das propostas de redução da jornada de trabalho e de fim da escala 6×1, é um exemplo concreto dessa disputa. Em abril de 2026, a entidade assinou um manifesto do setor produtivo que alertava para possíveis impactos econômicos, custos empresariais e efeitos sobre o emprego formal. Posteriormente, também atuou junto ao Congresso Nacional para defender alterações na proposta.
Por trás desse debate está uma questão fundamental: quem deve determinar o uso do tempo e da força de trabalho de quem produz a riqueza? Quando a possibilidade de reduzir a jornada e ampliar o descanso dos trabalhadores é colocada em questão a partir das preocupações com a competitividade e a acumulação, precisamos perguntar quais interesses são priorizados e quais necessidades humanas ficam em segundo plano.
De que serve a riqueza produzida pela humanidade se aqueles que a produzem continuam privados do tempo necessário para viver? O trabalhador não existe apenas para trabalhar. Tem direito ao descanso, à convivência familiar, à cultura, ao lazer, à participação política e à construção de uma vida que não esteja inteiramente subordinada às exigências do trabalho.
A luta pelo fim da escala 6×1, portanto, não diz respeito somente à organização dos dias de trabalho e descanso. Ela expressa uma disputa sobre a própria vida: sobre o direito de dispor do próprio tempo e de usufruir dos frutos do trabalho coletivo.
É também nesse terreno que precisamos compreender a relação entre o passado colonial e o presente capitalista. A concentração da terra, a exploração do trabalho e a subordinação dos povos não são fenômenos isolados. Precisamos investigar como essas estruturas se transformaram ao longo da história e como continuam a produzir desigualdades e a disputar os rumos da sociedade brasileira.
O projeto do colono-capitalismo não se sustenta apenas pela exploração material. Também depende de narrativas que naturalizam as desigualdades, apresentam privilégios como necessidades econômicas inevitáveis e procuram convencer os explorados de que não existem alternativas. Quando isso acontece, a disputa pela memória e pela consciência histórica torna-se parte da própria luta por emancipação.
Por isso, precisamos compreender os projetos políticos em disputa e os interesses sociais e econômicos que os sustentam. As conquistas da classe trabalhadora não foram concessões espontâneas do empresariado ou do Estado: resultaram de organização, mobilização e enfrentamento. Nenhum direito conquistado está definitivamente assegurado quando as forças que se opõem a ele continuam atuando para limitar seu alcance ou revertê-lo.
Recorrer à história e à ancestralidade é, portanto, reconhecer que não começamos do zero. Somos herdeiros de povos que resistiram à invasão, à escravização, ao apagamento e à exploração. Somos também parte das lutas daqueles que enfrentaram a concentração da riqueza e reivindicaram o direito de viver com dignidade.
Não se trata de repetir o passado, mas de aprender com ele. Não se trata apenas de preservar a memória dos que vieram antes, mas de assumir a responsabilidade de continuar suas lutas, construir novas alianças e abrir caminhos para as gerações que virão.
A história é o nosso farol. A ancestralidade é a memória viva que nos orienta. E a resistência é o compromisso de não permitir que continuem decidindo por nós o lugar que devemos ocupar no mundo.
Conhecer nossa história é reconhecer as forças que nos trouxeram até aqui. Honrar nossa ancestralidade é compreender que a luta continua. E transformar o presente é assumir, coletivamente, a tarefa de construir um mundo em que a vida valha mais do que a acumulação de riqueza e em que nenhum povo ou trabalhador tenha de aceitar a submissão como destino.





