
Quando a terra parou de tremer, o silêncio deu lugar ao som das sirenes, das escavadeiras e dos gritos de quem ainda procurava familiares entre montanhas de concreto. Desde os terremotos que atingiram o norte da Venezuela em 24 de junho, o país vive uma das maiores tragédias humanitárias de sua história recente.
Os dois abalos sísmicos, de magnitudes 7,2 e 7,5, registrados com apenas 39 segundos de intervalo, provocaram um nível de destruição sem precedentes em décadas. Bairros inteiros desapareceram da paisagem urbana, edifícios vieram abaixo, hospitais foram danificados e milhares de famílias perderam tudo o que possuíam.
O número de mortos subiu para 2.295 e já foram contabilizados mais de 11 mil feridos e milhares de desabrigados. Mas a dimensão da tragédia não pode ser medida apenas pelas estatísticas. Cada número representa uma história interrompida, uma família destruida e um território obrigado a recomeçar praticamente do zero.
A FORÇA DA SOLIDARIEDADE
Em meio ao cenário de devastação, uma imagem se repete nas ruas de Caracas, La Guaira e de outras cidades atingidas: moradores formando correntes humanas para retirar destroços, dividir água, preparar refeições coletivas e oferecer abrigo a quem perdeu a casa.
Antes mesmo da chegada de muitos equipamentos de resgate, foram os próprios vizinhos que iniciaram as buscas por sobreviventes. A solidariedade transformou-se em ferramenta de salvamento e resistência.
Organizações comunitárias, universidades e grupos de voluntários passaram a organizar pontos de arrecadação e distribuição de alimentos, medicamentos e roupas, demonstrando que, diante da emergência, a sociedade civil assumiu papel decisivo na proteção das populações atingidas.
A TRAGÉDIA REVELA ANTIGAS FRAGILIDADES
Embora o terremoto tenha origem em fenômenos naturais, seus impactos são profundamente sociais. Especialistas alertam que parte significativa dos edifícios destruídos apresentava problemas estruturais, ausência de manutenção ou foi construída sem padrões adequados de segurança sísmica. Estudos baseados em imagens de satélite estimam que cerca de 59 mil edificações sofreram danos, revelando a dimensão da reconstrução que o país terá pela frente.
EMERGÊNCIA HUMANITÁRIA
Diante da catástrofe, as centrais sindicais brasileiras lançaram uma campanha nacional de solidariedade para arrecadar recursos e donativos destinados às vítimas dos terremotos que atingiram a Venezuela. O objetivo da campanha é reunir recursos financeiros e materiais para atender as necessidades emergenciais das famílias afetadas.
A orientação é fortalecer as campanhas de arrecadação nos locais de trabalho, bairros, escolas, universidades e comunidades, ampliando a rede de solidariedade em apoio ao povo venezuelano.
Além das perdas humanas, a Venezuela enfrenta uma complexa operação de assistência. Hospitais trabalham acima da capacidade, milhares de pessoas permanecem em abrigos temporários e a distribuição de água potável, medicamentos e alimentos continua sendo um dos principais desafios.
Organismos internacionais, governos e entidades humanitárias ampliaram o envio de equipes especializadas, equipamentos de busca e recursos emergenciais. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com os impactos de médio e longo prazo sobre saúde pública, educação, moradia e geração de renda das comunidades afetadas. Em meio a toda essa tragédia, o país vive uma profunda crise social e política.
RECONSTRUIR TERRITÓRIOS E VIDAS
O silêncio entre memória e esquecimento é um dado que precisa ser levado em conta quando os holofotes internacionais se apagarem diante de mais uma calamidade. Milhares de famílias continuarão tentando reconstruir suas casas, retomar o trabalho, reorganizar escolas e recuperar vínculos comunitários.
Por essas e outras, a resposta à tragédia venezuelana não pode limitar-se às ações emergenciais. Ela exige políticas públicas permanentes, cooperação internacional e compromisso com a redução das desigualdades que tornam populações muito mais vulneráveis diante de eventos extremos.
Além dos escombros, permanecem pessoas que resistem, comunidades que se organizam e um país que busca transformar a dor em luta por direitos humanos e soberania.
Diante do sentimento do mundo o poema “Mãos dadas”, de Carlos Drummond de Andrade, ecoa como manifesto:
“O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”






