
Com mais de 170 anos de história iniciada pelo vaqueiro Joaquim Crispim, comunidade em Ipueira (RN) celebra certificação da Fundação Cultural Palmares, mas ainda enfrenta a grilagem e a urgência pela demarcação de seu território tradicional.
No coração do semiárido do Seridó, no município de Ipueira, Rio Grande do Norte, a paisagem é desenhada não apenas pela vegetação da caatinga e pelos relevos montanhosos, mas também por quilômetros de cercas de pedra meticulosamente assentadas. Mais do que divisões de propriedades, essas pedras guardam a memória de mãos negras que, desde meados do século XIX, moldaram o território da Comunidade Quilombola de Balcão.

⮝ Maria de Francisca, Liderança. liderança comunitária – Foto: Geraldo Barboza
A história dessa comunidade-família, que hoje luta pela integridade de suas terras e pela preservação de sua identidade ancestral, foi reunida na Cartilha da memória histórica da Comunidade Quilombola de Balcão, uma iniciativa de registro oral conduzida pela liderança Maria das Neves de Souza (conhecida como Maria de Francisca) com a organização do antropólogo Geraldo Barboza.
O início na base do trabalho forçado
A trajetória do território remonta a cerca de 1850. O patriarca fundador, Joaquim Crispim de Souza, chegou à região da Bela Vista ainda adolescente. Vindo da comunidade quilombola de Capoeiras, em Macaíba (RN), sua migração não foi espontânea. Joaquim foi trazido para trabalhar como vaqueiro, submetido a relações de exploração típicas do período, sem promessa de salário ou direitos de pagamento.
“Aqui começou assim: meu bisavô, o nome dele era Joaquim Crispim de Souza (…) Ele era um menino, moleque como se diz, pequeno. Foi criado por um rapaz velho, que era o dono dessas terras aqui tudo”, relata Maria das Neves na cartilha.
Antes de falecer, o antigo proprietário, reconhecendo o trabalho de Joaquim, casou-o com uma jovem local por volta de 1870 e doou-lhe a faixa de terra que daria origem ao quilombo.
Do casamento de Joaquim nasceram quatro filhos: Leonel, Cristina, Zé Balcão e Job. Foi este último, Job Crispim de Souza, quem assumiu o papel de consolidar o território no início do século XX. Por volta de 1900, em uma decisão estratégica para evitar a fragmentação da propriedade familiar após a migração de seus irmãos para outros estados, Job adquiriu as partes das terras correspondentes a eles, garantindo a integridade física do espaço que hoje constitui o núcleo da ocupação tradicional de Balcão.
A marca das pedras e o som da sanfona
A subsistência em Balcão sempre esteve ligada à terra. Plantava-se feijão, batata, milho, macaxeira e maniva para a produção de farinha. No entanto, a principal marca física deixada pelos antepassados na paisagem local são as cercas de pedra. Sem cimento ou argamassa, o corte e o assentamento manual das pedras exigiam força física e uma técnica apurada que passava de geração em geração.
“Antes de meu pai e as plantações darem certo, o trabalho mais forte aqui era de cortar pedra e fazer cercas”, rememora a liderança local. “Ainda hoje guardo a marreta que ele usava para quebrar as pedras.”
Paralelamente ao trabalho árduo, a cultura e a religiosidade mantiveram o grupo coeso. O sincretismo e a pluralidade espiritual da comunidade manifestam-se na frequência aos terreiros de Jurema Sagrada e Candomblé, bem como na devoção a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, cuja festa tradicional em Caicó conta com a participação ativa dos moradores de Balcão. Nos momentos de lazer, a união comunitária era embalada pelo forró de Job Crispim, que tocava sanfona nas chamadas “noites de música e dança”.
Conquistas de direitos e o fantasma da grilagem
O reconhecimento formal da comunidade começou a se consolidar em 2010. Com a assessoria voluntária do antropólogo Geraldo Barboza, a comunidade foi cadastrada no sistema CadÚnico do Governo Federal como quilombola, o que possibilitou o acesso a direitos básicos, como a tarifa social de energia elétrica.
Após mais de uma década de mobilização e articulação política, o maior marco histórico ocorreu em 2023, quando a Fundação Cultural Palmares (FCP) emitiu a Certidão de Autodefinição, reconhecendo oficialmente Balcão como Comunidade Remanescente de Quilombo. O documento atende aos preceitos da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura às populações tradicionais o direito à autodeclaração.
Apesar da vitória documental, a permanência no território continua sob ameaça. Atualmente, os moradores enfrentam conflitos fundiários na área do “Baixio” — o setor mais fértil e produtivo da região —, que foi cercado e apropriado por terceiros de forma irregular.
“Nossa esperança está no nosso reconhecimento além do Cadastro Único. Já somos reconhecidos como QUILOMBOLAS pelo Governo Federal. Só assim, o INCRA pode ajudar a gente a recuperar a nossa terra. Estamos de mãos amarradas…”, desabafa a liderança Maria das Neves na publicação.
A certificação de 2023 representou um passo fundamental para o Povo de Balcão, mas a comunidade ressalta que a segurança real de suas famílias só será plenamente alcançada quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) concluir o processo de demarcação e titulação definitiva de suas terras ancestrais. Enquanto aguardam a atuação dos órgãos públicos, os herdeiros de Joaquim Crispim seguem resistindo e mantendo viva a história esculpida na pedra e protegida pela memória.

