Hipocrisia institucional dentro do Sindipetro AL/SE: o combate ao assédio começa em casa

A diretoria do Sindipetro AL/SE está realizando um ciclo de palestras nas áreas da Petrobras sobre combate ao assédio moral e sexual, defenden­do um ambiente de trabalho pautado no respeito, na dignidade e na valo­rização das pessoas. Na teoria, o dis­curso é exemplar. Na prática, porém, a iniciativa evidencia uma contradição difícil de ignorar.

Há tempos, trabalhadores e traba­lhadoras do próprio sindicato denun­ciam perseguições, constrangimentos e práticas que consideram incompatíveis com os princípios que a diretoria agora pretende difundir. Essa contradição ga­nha ainda mais peso quando se observa o histórico da própria entidade.

Em meados de 2009, a diretoria do Sindipetro AL/SE firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) peran­te o Ministério Público do Trabalho, no processo nº 000164200920000/7-07, comprometendo-se a cessar práticas antissindicais direcionadas aos seus próprios empregados. O documento demonstra que as críticas à condução das relações de trabalho dentro da entidade não são recentes nem me­ramente retóricas, mas já motivaram a atuação do órgão responsável pela defesa dos direitos trabalhistas.

A incoerência torna-se ainda mais evidente quando uma das palestran­tes é justamente a advogada do sin­dicato, responsável por dar respaldo jurídico às decisões da atual gestão, muitas delas alvo de fortes críticas por parte dos empregados da enti­dade. A pergunta é inevitável: quem é apontada como legitimadora de práticas questionadas reúne a auto­ridade moral necessária para minis­trar uma palestra sobre combate ao assédio moral?

O contexto político também chama atenção. Em um ano de eleições sindi­cais no Sindipetro AL/SE e de eleições gerais, a outra palestrante é uma vere­adora que deve disputar uma vaga na Assembleia Legislativa. A coincidência desperta um questionamento legíti­mo: a escolha foi exclusivamente téc­nica ou também atende a interesses de projeção político-partidária? Quan­do interesses institucionais e eleitorais parecem caminhar lado a lado, trans­parência deixa de ser uma opção e passa a ser uma obrigação.

Há ainda outra questão que mere­ce resposta: por que esse debate não será realizado na própria sede do sin­dicato? Se o objetivo é ouvir trabalha­dores, discutir assédio e construir um ambiente de confiança, não seria esse o espaço mais adequado? Promover o evento dentro das dependências da empresa, diante da estrutura hierár­quica, pode inibir justamente aqueles que mais precisam falar.

Um debate sobre assédio só cum­pre sua função quando garante condi­ções reais para que as pessoas possam denunciar, questionar e compartilhar suas experiências sem receio. Comba­ter o assédio exige muito mais do que ofícios, palestras e discursos. Exige co­erência entre o que se proclama e o que se pratica.

Antes de assumir o papel de educa­dora sobre respeito, liberdade sindical e dignidade, a diretoria do Sindipetro AL/SE deveria demonstrar que esses princípios são efetivamente observa­dos dentro da própria entidade.

Caso contrário, a iniciativa corre o risco de ser lembrada não pelo com­promisso com os trabalhadores, mas como mais um exemplo da distân­cia entre o discurso institucional e as denúncias e críticas formuladas por aqueles que convivem diariamente com a gestão do sindicato.


SINTES/SE – Aracaju/SE, Julho de 2026
Sindicato dos Trabalhadores em Sindicatos, Federações, Confederações, Associações, Centrais Sindicais, Órgãos Classistas e Entidades Afins do Estado de Sergipe – www.sintes.com.br

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