Alpendre Cultural faz das Rocas um território de memória e resistência

Iniciativa idealizada por Carlos Laurentino transforma a história de um dos bairros mais antigos de Natal em patrimônio vivo, reafirmando o direito da comunidade de contar sua própria trajetória.

Para narrar essa história, nesta segunda-feira (06/07), o Coletivo Foque atravessou a ponte Newton Navarro em direção ao tradicional bairro das Rocas, onde está o Alpendre Cultural. Um projeto que nasce com a ideia de preservar memórias, valorizar personagens, registrar saberes e reafirmar que a cultura de um povo está ligada à própria história do território. “Nosso objetivo é fazer com que as novas gerações conheçam quem construiu o bairro, conheçam sua história e compreendam que elas fazem parte dessa continuidade”, resume o produtor cultural Carlos Laurentino.

Na sua opinião, existe uma Natal que pulsa muito antes dos cartões-postais. Um território construído por pescadores, operários, ferroviários, estivadores, sambistas, mulheres trabalhadoras e famílias que fizeram do esforço cotidiano a base sobre a qual a capital potiguar cresceu. Esse lugar tem endereço: as Rocas. Embora seja um dos bairros mais antigos da cidade, sua história ainda permanece pouco conhecida de grande parte dos natalenses.

Carlos aponta que o reconhecimento do patrimônio histórico da cidade costuma concentrar-se na Cidade Alta e na Ribeira, deixando as Rocas fora do chamado corredor cultural. É justamente contra esse apagamento que surge o Alpendre Cultural com uma proposta que ultrapassa a realização de eventos.

Da militância comunitária à produção cultural

A criação do Alpendre Cultural não aconteceu por acaso. É resultado de décadas de envolvimento de Carlos Laurentino com a vida comunitária das Rocas. Muito antes de entarar na área da cultura, ele já participava da vida social do bairro. Presidiu a Escola de Samba Balanço do Morro, dirigiu o Benfica Futebol Clube e sempre esteve presente nas atividades coletivas voltadas ao fortalecimento da identidade local.

Durante muitos anos, esse trabalho aconteceu de maneira voluntária. Foi ao ingressar no curso de Produção Cultural do IFRN que percebeu uma nova possibilidade: transformar esse ativismo em profissão sem abandonar sua missão comunitária. “O curso abriu meus horizontes. Passei a compreender que era possível viver da produção cultural e, ao mesmo tempo, contribuir para preservar a história das Rocas.” Foi dessa compreensão que nasceu o Alpendre Cultural.

A ideia é documentar essas narrativas antes que desapareçam. Para isso, o projeto procura fortalecer o sentimento de pertencimento de um povo que muitas vezes não conhece a riqueza histórica do lugar onde vive. Para Carlos Laurentino, trata-se de uma reparação histórica. “A história da cidade não pode ser contada deixando o bairro das Rocas de fora.”

Patrimônio que vive nas pessoas

O conceito de patrimônio defendido pelo Alpendre Cultural não está restrito às construções antigas. Ele está presente na memória coletiva. Nas rodas de conversa. Nas festas populares. No samba. Na pesca artesanal. Nas histórias contadas pelos mais velhos. Nos modos de viver que atravessam gerações.

É uma compreensão que dialoga com a educação patrimonial, na qual preservar também significa fortalecer vínculos entre as pessoas e os territórios que ocupam. Ao registrar essas memórias, o projeto contribui para impedir que elas desapareçam em meio às transformações urbanas e sociais.

O Alpendre Cultural nasce com a missão de construir pontes entre passado e presente, permitindo que a comunidade compreenda que faz parte de uma história muito maior do que aquela registrada nos livros escolares. Em tempos marcados pela velocidade da informação e pela fragilidade das memórias coletivas, iniciativas como essa reafirmam que preservar a história de um bairro é também defender o direito à cidade.

O bairro das Rocas representa um capítulo essencial da construção da capital potiguar. A memória urbana não pode permanecer restrita aos monumentos de pedra ou aos edifícios oficiais. Ela vive, sobretudo, nas comunidades que ergueram Natal com seu trabalho e sua cultura de resistência.

O Alpendre Cultural anuncia que preservar essas histórias é garantir que o patrimônio da cidade inclua, finalmente, aqueles que sempre fizeram parte dela.

O papo completo com Carlos Laurentino estará logo mais disponível no canal do Coletivo Foque no Youtube.

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