Agroecologia transforma quintais em produção de alimento saudável de forma sustentável

Foto: Enzo dos Santos

Transformar o quintal em um espaço de produção de alimentos, cuidado com a natureza e a própria vida. Esse foi o tom do 1º Curso de Capacitação em Quintais Produtivos Agroecológicos, realizado nos dias 29 e 30 de agosto no Coletivo Potyguaras, na comunidade Jardim Progresso, Zona Norte de Natal.

Um aprendizado contruido a partir da troca de saberes e atividades práticas. O curso desenvolveu todo um aprendizado sobre o cultivo de hortaliças, frutas e ervas medicinais, além de técnicas de manejo e preparação do solo de maneira sustentável. Uma vivência fundamental para a saúde mental e do corpo.

Como observa a naturoterapeuta Giovanna Thuya, “a nossa saúde, ela começa no solo, o chão que a gente planta”. Ela alerta que hoje em dia a maior parte dos alimentos que chegam até os mercados e aos nossos pratos vêm de monoculturas, plantios de uma espécie só que fazem uso de agrotóxicos, que estão cada vez mais deixando o solo desnutrido, empobrecido com o uso desses venenos”. E reforça como isso acontece também com o nosso corpo.

“Os alimentos, eles vêm para a nossa mesa cada vez com menos nutrientes, menas energia e com toda essa carga de destruição. Isso faz com que hoje em dia a gente enfrente uma desnutrição e alimentos que não vêm com os mesmos nutrientes de antigamente”, desembucha Giovanna ao chamar atenção para o que está causando a grande maioria das doenças.

“Doenças que estão vindo do uso de agrotóxicos que em muitos países são proibidos e aqui no Brasil são permitidos. Agrotóxicos esses que estão causando intoxicação, que estão aparecendo no leite materno, que estão causando vários tipos de tumores e doenças que a gente nem sabe, mas que tá vindo do alimento que é disponibilizado pra nós, que vem desse sistema da monocultura”, afirma.

Produzir alimento e fortalecer o território

O curso Quintais Produtivos Agroecológicos busca fortalecer uma relação  sustentável com a terra, incentivando a produção de alimentos saudáveis, a preservação ambiental, a valorização de saberes e autonomia dos territórios.

Coordenadora do Coletivo Potiguaras e do projeto Égbé Sagrado, Ana Terra destaca que a iniciativa também está diretamente ligada às cozinhas solidárias, que atendem uma população muito vulnerável na comunidade.

“Esses canteiros produtivos, além de alimentar as famílias dos quintais, também vão fornecer para as cozinhas aquilo que a gente acaba gastando muito comprando, seja os temperos, seja as hortaliças. E aí a gente vai conseguir dar uma comida de mais qualidade”, explica.

Para Mãe Rita, gestora do Coletivo Potyguaras, alimentação não pode ser reduzida ao simples ato de matar a fome. “Comer, ao contrário do que muita gente pensa, não é só um ato de se alimentar. As cozinhas solidárias têm que ter como missão, acima de tudo, dar prazer e dignidade às pessoas”, afirma.

Segundo Lucas Redko, presidente da Cooperativa de Serviços Tecnicos (Agrotern), essa formação de horticultura agroflorestal visa fortalecer a agricultura urbana e periurbana feita na Zona Norte de Natal, que integra horta comunitária, alimentação popular e cozinhas solidárias. A ideia é estimular uma rede que possibilite chegar à mesa das famílias alimentos saudáveis e produzidos de forma sustentável.

Aprender fazendo

O agrônomo Camilo Dantas explica que desde o diagnóstico do solo, o desenvolvimento do canteiro, o espalhando do adubo até o transplantio das mudas, todas as etapas da formação foram realizadas de maneira coletiva.

Ana Maria, do projeto social IMBES, avalia que a formação conseguiu unir conhecimentos que já faziam parte da trajetória do grupo a novos aprendizados. “O curso conseguiu agregar tanto a visão de decolonização que a gente já tinha, aprender mais sobre agrofloresta, colocar em prática e entender que plantar também é um ato de resistência, um ato político”, declara.

Plantar como ato de resistência

Foto: Enzo dos Santos

Enquanto preparava o almoço para a turma que participava do curso, Mãe Rita mandou o recado do território. “Eu espero que as pessoas se conscientizem de que elas podem produzir na cidade, que a cidade pode ser um lugar prazeroso para se viver, sustentável, que elas comecem a recuperar as áreas que estão degradadas com pomares e a consumir produtos das farmácias vivas, melhorando a qualidade de vida da população das periferias”, defende.

Mais uma lição de que lutar por dignidade é botar na boca do mundo o grito pela garantia dos direitos humanos e cuidado com a mãe terra. “Que não seja só um ambiente de doação de comida, tem que ser um instrumento político de organização das periferias”, reafirma Mãe Rita.

Em meio a sementeiras, espalhamento de adubo e troca de saberes, o curso deixou plantada uma ideia que vai muito além do quintal. Um aprendizado marcado pela relação entre produção de alimentos, território, memória e resistência. Tudo feito com tesão, consciência e empoderamento, reafirmando que plantar também é um gesto de cuidado, autonomia e transformação social.

[adrotate group="3"]