O papel da mídia virtual como influenciadora

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Foto/Ilustração: Rogério Marques

Em seu livro Enciclopédia da nuvem Luli Radfahre aponta que a internet desmaterializou a informação e causou profundas mudanças na maneira como nos relacionamos. O papel da mídia virtual nessa complexa rede que muda a cada segundo influencia na busca e pesquisa de informação.

Segundo um relatório do We Are Social e Hootsuite, publicado em janeiro de 2021, existem 4,66 bilhões de usuários na rede, mais da metade da população do mundo, considerando que em nosso planeta existe 7,8 bilhões de pessoas segundo estimativas de julho de 2020. As pesquisas também apontam o surgimento da ansiedade informativa em decorrência da sobrecarga de informação gerada nas redes sociais.
Estudioso da comunicação o escritor Umberto Eco (2000, p. 11-15) diz que a Internet “é como uma enchente e não há como parar a invasão de informação”, que tende a tornar-se prejudicial e “equivale ao puro silêncio”. O autor de “O Nome da Rosa” chegou a fazer profundas reflexões sobre o poder dos meios de comunicação na sociedade. Em seu livro “Número Zero” critica a mídia que é usada como meio para manipular, difamar, chantagear.
Numa das entrelinhas escreve: “…estamos nos acostumando a perder o senso de vergonha”. Um mau exemplo que reflete a canalhice derramada sobre as redes sociais com vidas sendo julgadas e devastadas. A cada mensagem escrota e cultivada pela rede de ódio a humanidade é humilhada pela crueldade virtual, que ocasiona constrangimentos e desfechos trágicos no mundo real.
“As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho, e não causavam nenhum mal para a coletividade, enquanto hoje eles têm o mesmo direito de palavra do que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”, criticou Eco diante da propagação do ódio pela internet.
Assim como Umberto Eco, especialistas em tecnologia e demais áreas alertam para os impactos das redes sociais na vida das pessoas por conta desse discurso de ódio, disparado diariamente por milhões e milhões de seguidores. Num caso recente, depois de receber uma enxurrada de comentários homofóbicos ao postar um vídeo na internet, um adolescente cometeu suicídio. Segundo a cantora Walkyria Santos, vídeo que gerou comentários ofensivos foi o gatilho que levou à morte do filho.
Longe de querer inocentá-las dos problemas apontados, é preciso entender que as famosas redes sociais do mundo virtual não são as únicas responsáveis por todos os males da sociedade. Vale lembrar que grupos sociais existem desde o comecinho da história da humanidade. Por trás da tela do celular ou computador há muito mais homofobia, machismo, racismo e corrupção do que se imagina. Práticas que existiam mesmo antes do surgimento da internet, que, segundo Umberto Eco, ainda é um mundo selvagem e perigoso que foi invadido por uma legião de idiotas e “pode ter tomado o lugar do mau jornalismo”. Um ciclo vicioso com dimensão e velocidade cada vez maiores.
O professor José Eduardo De Lucca, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), explica que “os usuários costumam gostar de conteúdos que concordem com ele, que confirmem opiniões ou visões que ele já tem; ou então conteúdos polêmicos, que gerem debate”. Ele esclarece ainda que “a construção das redes sociais da maneira como são hoje foi feita paulatinamente: hoje nós percebemos um desvio de conduta, mas, ano a ano, trecho de código a trecho de código, é difícil perceber as mudanças e os impactos que vão acontecer por causa delas”.
Essas plataformas operam no que chamamos de “economia da atenção”: o modelo delas é vender nossa atenção aos anunciantes, que são os verdadeiros clientes, diz a antropóloga Letícia Maria Costa da Nóbrega Cesarino. O efeito colateral, que acaba prendendo as pessoas em bolhas ou estimulando o pensamento conspiratório, é chamado, em inglês, de “rabbit hole”, em alusão à história de Alice no País das Maravilhas: você começa consumindo conteúdos, digamos assim, “normais”, e o algoritmo te empurra cada vez mais para uma radicalização do conteúdo. Isso porque o algoritmo não analisa conteúdo; ele analisa padrões e premia os canais que geram mais engajamento.
Toda essa capacidade das redes sociais potencializa o disparo aos milhões e milhões de mensagens negativas e carregadas de ódio, que são conduzidas exatamente aos usuários que estão consumindo determinado tipo de conteúdo.
Uma indústria que tem como modelo de negócio a lógica do lucro, não importa qual o preço a ser pago pela sociedade. Afinal, as chamadas novas tecnologias não caíram do céu, elas vão sendo aperfeiçoadas ao longo dos tempos para favorecer interesses econômicos e políticos de uma elite dominante. Assim como ocorreu com a descoberta da prensa de tipos móveis por Gutemberg [por volta de 1450] e a tal revolução industrial [séculos XVIII e XIX] que substituiu o trabalho artesanal pelas máquinas.
Importante mesmo é ter consciência do gigantesco papel das redes sociais e dos riscos que estão embutidos nesse tráfico de bytes e algoritmos que aproximam pessoas no mundo inteiro, para o bem ou para o mau. Espaço que compartilha violência, crueldade, mas também fomenta o debate tão necessário para fazer valer a legítima voz do Povo que ora luta para livrar-se da política autoritária do fascismo. Nesse duelo entre o bom e o ruim, cada discurso com pregação de ódio e opressão precisa ser combatido com o protesto e a resistência que é responsável por todas as conquistas da classe trabalhadora em todo o mundo.
Esse é um papo inacabado que precisa ser colocado a todo momento no turbilhão de mensagens que vêm e que vão através da internet em meio a uma proliferação de mentiras e ameaças. Sobretudo a preocupação com jovens e adolescentes que vivem grudados às redes, e que passam a sentir os efeitos da ansiedade, autoestima negativa, depressão, graves problemas de saúde mental que podem levar ao suicídio, uma das principais causas de morte em todo o mundo, de acordo com as últimas pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicadas em junho deste ano.
Culpa da internet?
Não podemos pensar na mídia virtual apenas como conteúdos que podem ser prejudiciais, como o discurso de ódio. As redes sociais conectam as pessoas pela internet, sendo uma excelente ferramenta de comunicação. A questão é saber lidar com esse instrumento de interação numa sociedade doente que ainda carrega o peso do preconceito como a homofobia.
Hoje a internet possibilita qualquer pessoa assumir a redação e publicar conteúdo em blogs, sites, redes sociais em todos os cantos do mundo. Uma produção colaborativa que derruba muros e dá voz a pessoas comuns. Porém, assim como a mídia tradicional, a mídia virtual na internet tem a sua banda podre.
O que fazer, então, em meio à mídias virtuais que amplificam lugares de fala e, ao mesmo tempo, proliferam notícias falsas, as famosas fake News?
Nada de novo.
O problema é que hoje esse território livre chamado internet acelera cada vez mais a velocidade da informação. Não temos nenhuma receita, mas temos o debate que pode esclarecer muito. Uma coisa é certa: Calar jamais!

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