
O auditório Fernando Santa Cruz, da OAB/PE, no Recife, estava repleto de familiares de mortos e desaparecidos políticos na tarde do dia 22 de maio de 2026. A VI Solenidade de entrega das certidões de óbito de militantes assassinados pela ditadura civil-militar-empresarial de 1964 – retificadas a partir do trabalho incansável da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEDMP) e da procuradora da República Eugênia Augusta – transcorria com os testemunhos emocionantes daqueles que perderam familiares que lutavam não só por democracia, mas também pela mudança radical de um sistema político-econômico que reproduzia desigualdade e injustiça: Manoel Lisboa, Amaro Luiz, Manoel Aleixo, Amaro Félix, Fernando Santa Cruz, Soledad Barret e tantos outros.
Todos ali presentes, como afirmamos emocionados. Compareci à solenidade como primo de Emmanuel Bezerra dos Santos, representando todos os seus familiares.
Potiguar de Caiçara do Norte, Emmanuel Bezerra teve atuação marcante nos movimentos de trabalhadores em Pernambuco e Alagoas, além de sua trajetória como estudante secundarista do Colégio Atheneu, e depois como presidente da Casa do Estudante e membro do DCE, quando cursava sociologia na UFRN, em Natal.
Enquanto escutava os testemunhos, lembrava-me de minha visita, em 2018, ao Espacio Memoria y Derechos Humanos, no bairro de Núñez, em Buenos Aires, Argentina – no antigo prédio da Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA), vila militar que abrigava a escola de engenharia mecânica da Marinha argentina –, onde funcionou, durante a ditadura, um tenebroso centro de tortura e morte. A história dos mortos e desaparecidos políticos na Argentina não difere muito da que ocorreu no Brasil naqueles anos de chumbo.
Lembrava-me também dos documentários do cineasta chileno Patricio Guzmán: Nostalgia de la luz e El botón de nácar. Numa das cenas mais marcantes do primeiro, parentes de desaparecidos escavam, com ferramentas de arqueólogos, o deserto do Atacama em busca dos restos mortais das vítimas da ditadura de Pinochet, sob imensos telescópios voltados para o infinito. No segundo documentário, militares chilenos, nos chamados voos da morte, lançavam ao mar corpos de militantes mortos por injeção de cianureto, presos a barras de ferro. Anos depois, esses pedaços de ferro guardavam botões de pérolas, incrustados em sua superfície.
Esses fragmentos de dolorosa memória se misturavam à homenagem aos desaparecidos políticos e à reparação promovida pelo Estado brasileiro, após luta tenaz desde a redemocratização. Quando chamado a receber a certidão de óbito retificada, falei mais sobre o contexto histórico dessas mortes do que sobre a vida de Emmanuel Bezerra. Ressaltei em minha fala que não haverá reparação completa enquanto os agentes do Estado responsáveis por tais atrocidades não forem punidos exemplarmente, como ocorreu nos juicios argentinos.
Mesmo tendo recebido a certidão de óbito retificada no Recife, compareci também no último dia 15 de junho à VII Solenidade de entrega das certidões de óbito retificadas no auditório da Reitoria da UFRN, desta vez para recebê-la de forma simbólica, por ser o Rio Grande do Norte a terra de Emmanuel Bezerra.
O auditório da Reitoria, igualmente repleto, abrigava familiares e amigos dos mortos e desaparecidos potiguares, além de militantes do PCR – partido no qual Emmanuel Bezerra militou – , estudantes, professores, a governadora do Estado Fátima Bezerra, a deputada federal Natália Bonavides e a incansável procuradora da República Eugênia Augusta. Um a um, os nomes foram lidos: Anatália Alves, Edson Neves, Emmanuel Bezerra, Gerardo Magela, Hiram Pereira, José Silton, Lígia Nóbrega, Luiz Gonzaga, Luiz Maranhão, Sebastião Gomes, Virgílio Gomes e Zoé Brito. Todos mortos, mas profundamente presentes.
Era preciso, então, em minha fala, reafirmar a humanidade de Emmanuel Bezerra: jovem caiçarense, filho, irmão, primo, estudante, poeta. Recorro aqui ao verbo espanhol pervivir, que em nossa língua poderia corresponder a perviver: mais do que sobreviver ou perdurar, é viver para além de si mesmo, na memória, nas ideias e na poesia: no outro. Nessa pervivência reside sua humanidade.
Recordo que meu pai e seu primo Emmanuel, quando meninos, contemporâneos em Caiçara do Norte, embalados pelo cordel de Carlos Magno e os doze pares de França, reinventavam a épica de Ricarte e Roldão sobre as dunas caiçarenses, suas primeiras canções de gesta.
No belo ensaio Kafka, o visionário do totalitarismo, Milan Kundera destaca a dimensão existencial do autor tcheco, em contraste com George Orwell. Em Kafka, o autoritarismo não é apenas político, mas também existencial, metafísico, sem, contudo, conseguir apagar o amor, a poesia e a alegria do mundo: a natureza verdecida das coisas, que pervive.
Manuel Duarte (Manu), um amigo da época de Atheneu e da Casa do Estudante e companheiro do PCR, relata que Emmanuel chegou em Natal, ainda adolescente, nos primeiros anos da década de sessenta, trazendo uma medalha do divino espírito santo no peito. De família católica, carregava a tradição religiosa nordestina. Posteriormente, a mudança em Emmanuel foi, segundo Manu, brutal: a crença religiosa transformou-se em militância política, levando-o à liderança estudantil no Atheneu e na Casa do Estudante, onde se tornou presidente em 1967.
Ainda naqueles anos, Emmanuel fundou O Jornal do Povo e participou ativamente do Cineclube Tirol, em Natal, ao lado de escritores, jornalistas e poetas como François Silvestre, Manoel Onofre Júnior, Dailor Varela, Moacy Cyrne, Gileno Guanabara, o próprio Manuel Duarte, dentre outros.
Seus versos tornaram-se então políticos. Em encontro com meu pai, em finais dos anos 60, Emmanuel criticava a poesia considerada “melosa”, distante da realidade brasileira. A dura militância e o recrudescimento do Estado autoritário em 1968 inculcaram em Emmanuel a necessidade de uma poesia política, militante. Esses versos políticos coincidem com o período que antecede sua prisão, por volta de dezembro de 1968, logo após o 30º Congresso da UNE, em outubro de 1968, em Ibiúna-SP. Emmanuel cumpriu pena até outubro de 1969, já na vigência do AI-5. Da experiência carcerária na Base Naval, no Recife, surge o poema Às gerações futuras, lido na solenidade, cujos versos finais transcrevo:
Eu vos contemplo,
Gerações futuras,
Herdeiras da paz e do trabalho.
As grades esmaecem
Ante o meu contemplar.
Mas há antes o lirismo de O pássaro preso na gaiola, em tom libertário, à maneira de Prévert, do célebre poema Dia de folga:
O pássaro preso na gaiola
Na gaiola que é o mundo
Voar além quisera além no espaço
Além dos céus,
Além da vida, da mente e dos fracassos
Voar além… além…
E nunca em meio,
Ser livre como o vento.
Não ter freio
E cantar
Cantar, cantar
Diversos cantos imortais,
Cantar de outras eras.
É o poeta este pássaro.
No início dos anos 70, na clandestinidade, visitou o primo Francisco, meu pai, em Areia Branca-RN e chamou-o para a luta. Meu pai recusou; afirmou que a ditadura iria assassiná-lo se ele ingressasse na militância clandestina, como fizera Emmanuel; confessou que queria constituir família, pois já planejava casar-se com minha mãe. Emmanuel insistiu em que minha mãe se lançasse à luta política contra a ditadura, que meu pai a acompanharia. Minha mãe também recusou. Meu pai perguntou a Emmanuel se ele não pretendia formar uma família. Emmanuel lhes respondeu que já tinha sua família: a humanidade, os trabalhadores do mundo. Essa foi a última vez que meu pai viu o primo poeta.
Emmanuel Bezerra foi assassinado pela ditadura após longas sessões de tortura no DOI-CODI da Rua Tutóia, em São Paulo, no dia 4 de setembro de 1973, depois de ser preso quando tentava voltar ao Brasil, provavelmente na fronteira do Chile com a Argentina.Os jornais da época noticiaram que Emmanuel fora morto, com Manoel Lisboa, num tiroteio com a polícia no Largo de Moema, em São Paulo. Foi enterrado numa vala clandestina do cemitério de Campo Grande, naquela cidade.
Os restos mortais de Emmanuel Bezerra foram encontrados em 1991 e trasladados no ano seguinte para Caiçara do Norte, onde foi sepultado pelo pai Luís Elias dos Santos – Joana Elias Bezerra, Tia Joana, já nos havia deixado, sem que pudesse ver o corpo do filho voltar à terra natal. Nos anos que antecederam sua morte, Tia Joana mantinha o quarto de Emmanuel do mesmo jeito que ele deixara. Os versos do poema Regresso podem ser lidos como presságio ou como sonho irrealizado:
Minha terra me espera, e tão contente
Regresso àquela vila mui saudoso!
Que seja meu regresso glorioso
Que gloriosa é toda aquela gente.
Foi comovente a volta do poeta militante à sua terra natal, símbolo de justiça histórica, mas ainda incompleta. Otto Maria Carpeaux afirma em ensaio sobre o poeta espanhol Antônio Machado, morto pela ditadura franquista, que “nenhuma vitória será completa, nenhuma paz será verdadeira, enquanto não for vingado e reparado o crime contra a República Espanhola, crime que está na origem de todos os crimes que devastaram depois, fisicamente e moralmente, o mundo. Durante muitos anos, essa noite pairava sobre a Europa e não só a Europa; a sombra de Antonio Machado parecia… “pasar haciendo caminos, caminos sobre la mar”. Essa noite, que dura mais de 21 anos, ainda paira sobre o Brasil, e é justo e necessário reparar os crimes perpetrados pela ditadura, punindo seus responsáveis.
Neste 17 de junho, Emmanuel completaria 79 anos. Mesmo em sua finitude, sua presença permanece na memória do povo brasileiro.
Natal, 17 de junho de 2026
Jessé de Andrade Alexandria, juiz de Direito e escritor





