Fotografia: Luciano Capistrano

Ao andar nas ruas da Cidade Alta são muitos os símbolos da formação da nação brasileira. Monumentos, nomes de praças e ruas, são narrativas construídas ao longo do tempo nos embates do povo brasileiro.

 

POR LUCIANO CAPISTRANO // PROFESSOR E HISTORIADOR
Datas comemorativas, como o 21 de abril, não enfeitam apenas o calendário nacional, dizem das memórias não silenciadas. Sim, no cenário da urbe existem memórias silenciadas. A Praça André de Albuquerque é um bom exemplo para pensarmos sobre estes dispositivos, das narrativas memorialísticas, erguidos nas cidades.
O Monumento dos Mártires da Revolução de 1817, homenagem aos potiguares André de Albuquerque e Frei Miguelinho, inaugurado em 1917, para celebrar o centenário deste movimento nascido em Pernambuco e espalhado por todo o Nordeste. Nas palavras de Boris Fausto: “O desfavorecimento regional, acompanhado de um forte antilusitanismo, foi o denominador comum dessa espécie de revolta geral de toda a área nordestina. Os diferentes grupos sociais não tinham, porém, os mesmos objetivos. Para as camadas pobres da cidade, a independência estava associada à ideia de igualdade. Já o principal objetivo dos grandes proprietários rurais era acabar com a centralização imposta pela Coroa e tomar em suas mãos o destino, se não da colônia, pelo menos do nordeste do Brasil.” (FAUSTO, 2018, p. 70).
Um importante monumento erguido em 1917 continua presente na paisagem urbana. Agora, e as memórias silenciadas? Lembro a Galeria de Arte, construída durante a administração do Prefeito Djalma Maranhão, inaugurada em 3 de março de 1963 a “memória” foi silenciada. O Prédio da Galeria de Arte, hoje, existe apenas em antigas fotografias e nas memórias de quem lá esteve, seja para se deliciar com as obras em exposição, nos saraus poéticos e, inclusive recebendo vacinas, nas épocas das “pistolas imunizadas” contra meningite.
Silenciar a administração do Prefeito Djalma Maranhão, era este o objetivo daqueles ao autorizar a derrubada deste símbolo de uma gestão marcada por ações de valorização da cultura. Perseguido político pelos governos dos generais militares do pós 1964, a imagem do ex-prefeito tinha de ser apagada.
Ao lembrar o 21 de abril, dia de Tiradentes, façamos uma reflexão sobre os seus significados para além do “herói” estampado no quadro de Pedro Américo, existe uma narrativa de “fundação” da República. Os novos senhores do poder desejavam e necessitavam de mitos fundadores do novo regime e nada melhor do que uma imagem dialogando entre o perseguido pelo império portugues e o Jesus crucificado. A imagem do herói da Inconfidência Mineira lembrando a de Jesus Cristo, foi bem utilizada para sedimentar na sociedade a justificativa do novo regime republicano diante das “viúvas” da monarquia.
Aqui, faço apenas uma reflexão sobre os cuidados ao olharmos determinados “símbolos”, representações sociais de poderes. Enfim, recorro a Benedict Anderson, sobre os caminhos sinuosos na formação da memória nacional: “[…] a biografia da nação agarra, à revelia dos índices de mortalidade, aqueles suicídios exemplares, os martírios dolorosos, os assassinatos, as execuções, as guerras e os holocaustos. Mas, para servir à finalidade narrativa, essas mortes violentas precisam ser lembradas/esquecidas como nossas “mortes”. (ANDERSON, 2015, p. 280).
Assim, a pintura de Pedro Américo, o Monumento aos Mártires de 1817 e a ausência da Galeria de Arte, de algum modo, dialogam com o sentido das celebrações ocorridas ao longo do tempo. A memória não é algo neutro, faz parte dos interesses dos grupos sociais lembrar ou esquecer o passado.
Referências

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2015; FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2018.