Fotografia: Taian Marques/Coletivo Foque
“Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente…”
(“Índios” – Composição de Renato Russo / Legião Urbana)

 

POR LUCIANO CAPISTRANO // PROFESSOR E HISTORIADOR

 

Em um Brasil de tantas desigualdades, celebrar a resistência dos povos indígenas é fazer presente as dores de um encontro repleto de desencontros da civilização originária com a europeia. Aqui na terra dos potiguaras, o cenário de dunas, rio e mar, com a calmaria do entardecer vista do Alto da Torre, não traduz os momentos de confrontos vivenciados entre os ibéricos e a nação potiguara no período de feitura do território Português encravado no “Novo Mundo”.
As diversas nações indígenas ergueram territórios de resistência à dominação dos povos vindos do além mar. A historiadora Fátima Martins Lopes relata a importância da aliança do povo Potiguara na consolidação do projeto de domínio iberico: “[…] aliança que perdurou por muitas gerações é o da família do Potiguaçu, o Camarão Grande, Principal Potiguara da aldeia da margem esquerda do rio Potengi que resistiu acirradamente junto com os franceses à conquista portuguesa, mas, que após as pazes estabelecidas no Forte dos Reis Magos a fez permanente, surtindo em grande ajuda guerreira aos planos ibéricos de expansão e consolidação da colônia na costa leste-oeste do Brasil” (LOPES, 2003, p.73).
Neste processo de colonização, Darcy Ribeiro, muito adequadamente, definiu como a “máquina de moer gente” criada pelos portugueses. O resultado foi uma catástrofe sobre diversas nações originárias.
Conforme o historiador Boris Fausto (2018, p.16): “[…] a palavra catástrofe é mesmo a mais adequada para designar o destino da população ameríndia”. Hoje ainda as nações indígenas sofrem perseguições ou simplesmente tem suas memórias apagadas.
O dia 19 de abril foi mais um dia para celebrar, sempre, sem o romantismo errôneo de se fazer referências às “descobertas” e à divisão de grupos bons ou maus, pacíficos ou guerreiros, patriotas ou traidores. O que existiu foi uma “Guerra” e as nações, primeiras a habitar a terra “brasilis”, escolheram as alianças conforme seus interesses.
Que o canto dos legionários ecoem nos quatro cantos do Brasil e não registre mais tragédias como a de Galdino, da etnia pataxó-hã-hã-hãe, assassinado em 19 de abril de 1997.
Referência
FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2018; LOPES, Fátima Martins. Índios, colonos e missionários na colonização da capitania do Rio Grande do Norte. Mossoró: Fundação Vingt-um Rosado e IHGRN, 2003).